São Francisco de Assis e Dom Helder Camara

Walter Praxedes

A figura de São Francisco de Assis há mais de oito séculos vem cativando a admiração e o respeito não apenas entre os católicos, mas também em artistas, cineastas, escritores, acadêmicos e até fiéis de outras confissões religiosas.

Essa reverência a Francisco também parece crescer na medida em que se tornam praticamente inacessíveis as fontes com informações seguras sobre a vida, os pensamentos e as ações do santo que nasceu em Assis (Itália) em 1181 ou 1182 com o nome de Giovanni Bernardone, e faleceu em Porciúncula, em 1226, um ano depois de compor o seu famoso Cântico do irmão sol, sendo canonizado pelo Papa Gregório IX apenas dois anos depois da sua morte.

Mas como enfatizou o historiador Jacques Le Goff, toda a trajetória de Francisco passou por inúmeras revisões por parte dos seus seguidores, membros da Ordem religiosa que fundou e da própria Santa Sé católica, recebendo versões mais rigorosas, no sentido da observância aos votos de pobreza e simplicidade, ou mais espiritualistas, a depender dos pontos de vistas e até interesses dos revisores, a tal ponto que a historiografia franciscana pode ser dividida em duas tendências:

“De um lado, os rigoristas, que exigiam dos Frades Menores, a prática de uma pobreza total, coletiva e individual, a recusa a todo o aparato na liturgia dos ofícios da Ordem, assim nas igrejas e nos conventos, e a guardar distância da Cúria romana, suspeita de pactuar muito facilmente com o século. De outro lado os moderados, convencidos da necessidade de adaptar o ideal da pobreza à evolução de uma Ordem de frades cada vez mais numerosa, de não repelir, por uma recusa a toda a influência exterior, as multidões sempre mais densas que se voltavam para os Frades Menores, e da necessidade de ver na Santa Sé a fonte autêntica da verdade e da autoridade numa Igreja de que a Ordem era uma parte integrante. Onde situar o verdadeiro Francisco?” (Le Goff, 2001, p. 48-49).

Talvez a melhor resposta para a pergunta apresentada pelo historiador – Onde situar o verdadeiro Francisco? –  não seja nem a procura obsessiva por fontes que atestem o modo de vida e o pensamento do Francisco histórico, e nem uma tentativa de desconstrução do mito franciscano, mas a adoção da forma de interpretação figural de São Francisco proposta pelo crítico literário Erich Auerbach, interpretação esta que poderia prevalecer mesmo se contássemos com o acesso às fontes fidedignas sobre a vida do santo de Assis, uma vez que adotamos o modo de representar um acontecimento do passado como prenúncio de acontecimentos posteriores, considerando o fato anterior como anunciador e precursor de um acontecimento que ocorreu depois, ou este como realização e preenchimento de uma figura que o anunciava no passado.

O conceito de figura proposto por Auerbach é uma forma de interpretação tipológica da história e da realidade que dominou a Idade Média europeia e que chegou até o presente através do cristianismo, “que estabelece uma relação entre dois acontecimentos, ambos históricos, na qual um deles se torna significativo não apenas em si mesmo mas também para o outro, que, por sua vez, enfatiza e completa o primeiro. Nos exemplos clássicos, o segundo é sempre a encarnação de Cristo e dos acontecimentos ligados à encarnação que levaram à libertação e ao renascimento do homem…” (Auerbach, 1997, p. 79). Assim, a vida de São Francisco é considerada como uma imitação da vida humilde de Cristo. E foi assim que “nenhum outro estilo de vida, voz ou comportamento” da Idade Média teve tanta repercussão ao longo da história como a representação construída e difundida sobre a vida de São Francisco.  “Sua personalidade sobressai em virtude de seus muitos contrastes. Sua piedade, ao mesmo tempo solitária e popular, seu caráter, ao mesmo tempo doce e austero, e seu comportamento, ao mesmo tempo humilde e áspero, tornaram-se inesquecíveis” (Auerbach, 1997, p. 65).

É precisamente esta figura de Francisco de Assis que inspirou o romancista grego Nikos Kazantzakis a reescrever a sua biografia no livro O pobre de Deus. Adotando como foco narrativo do ponto de vista de Frei Leão, o mais próximo seguidor de Francisco, Kazantzakis narra como o futuro santo buscava a coerência com a vida de Cristo, mesmo em meio aos maiores sofrimentos, provações e angústias.

Também José Saramago não resistiu à figura de Francisco quando escreveu a peça A segunda vida de Francisco de Assis, enfatizando como a prática de muitos de seus continuadores e da própria Ordem que fundou adotaram práticas que seriam inaceitáveis aos olhos do santo. Adotando a figura da reencarnação de Francisco, Saramago discute na peça como seria constrangedor para o santo presenciar as ações temporais de sua Ordem.

Essa ideia de Saramago nos inspira a pensar como São Francisco se sentiria infeliz e frustrado vendo como a sua Ordem se tornou uma grande proprietária de escravos na época do Brasil colonial. Mas só podemos ter esse raciocínio comparativo sobre a prática da Ordem Franciscana no Brasil em relação à pregação da humildade, da pobreza, da igualdade e da dignidade humana por São Francisco, porque temos como parâmetro a sua figura exemplar.

No livro que o meu querido professor e amigo Nelson Piletti e eu escrevemos sobre a vida do inesquecível Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: o profeta da paz, dedicamos um capítulo para tratar da identificação de Dom Helder com a figura de São Francisco. (Piletti; Praxedes, 2008, p. 123-130)

Para Dom Helder viver segundo o Evangelho significava encarnar a origem popular do cristianismo, que tornava a ética da humildade e o estilo de vida simples e despojado, em elementos importantes do ideal de santidade cristã que incorporara desde jovem. Por isso a figura de São Francisco, com o seu casamento com a pobreza, é aceita por Helder como guia para a vida terrena que antecipa a vida celestial. O Francisco de Assis representava, assim, a encarnação da plenitude que conduziria à presença de Cristo.

Inspirado em São Francisco de Assis, Dom Helder concebe para si a missão de profetizar o retorno a uma Igreja Servidora e Pobre, de acordo com os princípios que orientaram o famoso “Pacto das Catacumbas”, no qual participa da celebração com um grupo de padres e bispos no final do Concilio Vaticano II, na Igreja de Santa Domitila, em 16 de novembro de 1965.

A presença de São Francisco no mundo foi um acontecimento histórico interpretado pelos seus seguidores e por Dom Helder como prenuncio de outros acontecimentos históricos concretos. Por isso, em seu apostolado ele buscava colocar em pratica os ensinamentos de Francisco, encarnando a verdade anunciada pelo santo de Assis.

Considerando Francisco como um precursor, encarnando-o em sua vida através de sua palavra e da sua ação, Dom Helder se legitimava dentro e fora da instituição católica para trabalhar em defesa dos pobres. Da perspectiva de muitos dos seus colaboradores, dos fiéis católicos e dos admiradores de todas as religiões espalhados pelo Brasil e pelo mundo Dom Helder preenche a demanda que muitas vezes sentimos por uma força messiânica, que encarne na vida real a figura de um líder religioso e até político com uma espiritualidade profunda e com um senso de realidade histórica para anunciar que um novo mundo é possível, inspirando e mobilizando muitos que estão insatisfeitos com o mundo existente.

Referências

AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo, Ática, 1997.

KAZANTZAKIS, Nikos. O pobre de Deus. São Paulo, Círculo do Livro, s/d.

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro, Record, 2001.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara – o profeta da paz. São Paulo, Contexto, 2008.

SARAMAGO, José. “A segunda vida de Francisco de Assis”. In: Que farei com este livro?. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

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Serenidade em favor dos excluídos (Entrevista ao jornalista Dalwton Moura)

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diario do nordeste

Fortaleza/CE. Suplemento Especial: “Os Pacifistas”, 10.09.2006

Entrevista ao jornalista Dalwton Moura*

O Diário do Nordeste publica neste domingo, Dia Municipal da Paz, uma edição especial da série “Os Pacifistas”. Desta vez o enfocado é dom Hélder Câmara, o primeiro cearense a estar entre os escolhidos na coleção.

Arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder foi uma voz altiva e ativa em defesa dos excluídos, principalmente durante a ditadura militar, de 1964 a 1985.

No caderno, que estará encartado gratuitamente no jornal, os leitores poderão conhecer mais detalhadamente sua história, bem como uma entrevista exclusiva com o co-autor do livro “Dom Hélder Câmara – Entre o Poder e a Profecia”, Walter Praxedes.
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O escritor denuncia o complô do governo brasileiro, tendo como presidente Emilio Garrastazu Médici, para evitar que o religioso fosse indicado para o Prêmio Nobel da Paz.

Como surgiu o projeto de um livro sobre a vida de Dom Hélder Câmara?

A idéia do livro surgiu de um projeto de dissertação de mestrado, que foi concluída e aprovada na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na qual busquei pesquisar a trajetória de Dom Hélder Câmara como um sacerdote envolvido com a área educacional do Ceará e do Brasil, e sua influência sobre a participação dos católicos, sacerdotes e leigos, em projetos voltados para a educação dos mais pobres. O meu orientador foi o historiador Nelson Piletti. Como tivemos acesso a fontes inéditas de pesquisa decidimos juntos ampliar  o projeto para a elaboração de uma biografia de Dom Hélder, que contextualizasse a sua trajetória religiosa e política na história da Igreja católica e da sociedade brasileira, mas que não descuidasse de sua vida pessoal e familiar, para não reduzirmos o ser humano Hélder Câmara à personagem conhecida publicamente. Desde os anos sessenta, o Nelson, que foi seminarista, tinha uma verdadeira adoração pela figura de Dom Hélder. Como nasci em 1965, só conheci a trajetória de Dom Hélder nos anos oitenta. Como fiquei fascinado por sua obra, tentei realizar um trabalho científico de recuperação da memória de sua vida para as gerações futuras. No final também me envolvi emocionalmente com o trabalho de resgate histórico da vida de Dom Hélder, que se tornou o trabalho intelectual mais gratificante que realizei na minha vida.

O livro “Entre o Poder e a Profecia” surpreendeu ao revelar o início de militância de Dom Hélder entre os integralistas, nos anos 30. Como se deu essa aproximação?

Para começar, gostaria de esclarecer a escolha do título do livro, “Dom Hélder Câmara – entre o poder e a profecia”, que só apareceu no final do trabalho, quando já tínhamos uma idéia de conjunto sobre a trajetória religiosa e política de Dom Hélder. Quem ler o livro vai perceber que durante toda a sua vida de sacerdote, Hélder Câmara manifestou uma vocação para o profetismo. Mas o profetismo é fundamentalmente a atitude de um indivíduo independente que quer propagar uma verdade que acredita revelada por Deus, para ajudar na salvação dos fiéis e na melhoria de sua condição de vida. A profecia deve ser realizada de  forma independente, sem apoio de qualquer instituição religiosa ou estatal, como fizeram os profetas do Antigo Testamento. No entanto, quer como seminarista, quer como jovem padre ou como bispo,  Hélder Câmara jamais optou pela profecia de forma incondicional e independente, sempre evitou desobedecer aos seus superiores na hierarquia da Igreja, o poder eclesiástico, e boa parte de sua vida ele manteve uma forte atitude de colaboração com os governos e com os donos do poder econômico. Em resumo, no nosso ponto de vista, Dom Hélder viveu sempre no meio caminho entre o poder e a profecia, jamais optando incondicionalmente por um ou por outro destes pólos. Mas esta é uma interpretação sociológica e política de sua trajetória. Reconheço que a dimensão espiritual e religiosa não está contemplada nesta interpretação. Quando era jovem Hélder Câmara teve uma formação doutrinária muito conservadora, anticomunista, antiliberal, antidemocrática. Nos anos trinta muitos jovens talentosos e honestos acreditavam que o caminho para solucionar os problemas do país passava por um regime de governo totalitário, como o de Mussolini, na Itália. Entre estes estavam os amigos mais próximos do jovem Hélder e ele próprio. Por isso ele optou pela militância política fascista, que no Brasil era representada pela Ação Integralista Brasileira (AIB), comandada por Plínio Salgado, de quem Hélder se tornou amigo.

E de que modo o jovem hélder foi se afastando dos ideais integralistas, em busca da direção mais humanista que acabaria por consagrá-lo?

Foi um longo e demorado percurso de conversão para as idéias democráticas e humanistas. O radicalismo fascista dos integralistas tornou-os inconvenientes até para um regime ditatorial como o de Getúlio Vargas que colocou a AIB na ilegalidade. A Igreja Católica tinha um pacto informal de colaboração com o Governo de Vargas e isso fez com que o Cardeal Sebastião Leme, do Rio de Janeiro,  na época a maior autoridade eclesiástica no país, ordenasse que o jovem Padre hélder Câmara deveria se afastar da Ação Integralista Brasileira. Mas houve também uma influência intelectual muito importante sobre o padre Hélder que foi a leitura da obra Humanismo Integral de Jacques Maritain, e a convivência com Alceu Amoroso Lima, no Rio de Janeiro, que também passava por uma transição intelectual para um pensamento democrático.

De que modo a formação clerical de Dom hélder o influenciou, de que modo a própria Igreja foi influenciada por ele?

A formação católica conservadora e autoritária que Hélder recebeu no Seminário da Prainha, em Fortaleza, o influenciou profundamente até o fim dos anos trinta, quando então ele começa a desenvolver concepções baseadas na tolerância e na convivência democrática. Mas até meados dos anos quarenta o padre Hélder ainda não havia se tornado um sacerdote com propostas inovadoras e divergentes em relação às idéias da cúpula conservadora da Igreja. Foi a partir do seu envolvimento nos movimentos de Ação Católica que ele teve que enfrentar questões políticas e organizacionais práticas, que envolviam credenciar a Igreja católica para manter e ampliar a sua influência em um país que estava se urbanizando rapidamente, com grandes movimentos migratórios do campo para as cidades, que estava se industrializando, e que após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945, estava também democratizando a sua vida política, com uma influência crescente dos movimentos sociais no campo e na cidade e do Partido Comunista. No campo religioso a Igreja católica começava a se deparar com a expansão das denominações protestantes. Então o Padre Hélder Câmara propôs e organizou uma vigorosa participação do laicato católico na vida política do país, através dos Movimentos de Ação Católica, particularmente os voltados para a juventude, e agregou os bispos brasileiros na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que ele funda e comanda como Secretário Geral até 1964, e que viria a se tornar a instituição que mais influência teve sobre a atualização da inserção política e social da Igreja católica no Brasil nos últimos 50 anos. Só até este momento da fundação da CNBB, em 1952, já bastaria para que fosse marcante a sua influência sobre o catolicismo e a sociedade brasileira. Mas ele ainda conseguiu difundir entre os católicos a idéia de uma missão temporal, de  responsabilidade de todos com o cuidado com as condições de vida, com a integridade dos mais pobres, ao invés da preocupação exclusiva com a salvação da alma dos fiéis, que caracterizava o ideário católico até então. Mas Dom Hélder na década de 1950 ainda estava só começando… O melhor de sua atuação ainda estava por vir nos seus anos de maturidade.

O papel de Dom Hélder na resistência às agruras do regime militar e na denúncia das arbitrariedades do regime é sempre ressaltado. Por que o nome de Dom Hélder foi especialmente associado a essa luta?

Porque ele era uma autoridade eclesiástica institucional, como arcebispo e exercia uma autoridade carismática como pessoa. Na década de 1960 ele era reconhecido na prática como a principal liderança política da Igreja Católica no Brasil, mesmo sem ser Cardeal, por pessoas de dentro e de fora da Igreja, pelos movimentos sociais de oposição, pelos militares que comandavam o governo e pelas elites econômicas. Desde o Concílio Vaticano II ele conquistou uma projeção na Igreja Católica internacional, entre sacerdotes, teólogos e leigos. Mesmo com toda a responsabilidade e até o cerceamento de sua liberdade para manifestar livremente suas opiniões que este reconhecimento público implicava, ele teve a coragem de dizer “não” aos poderosos, em denunciar publicamente que o Regime Militar promovia torturas e o extermínio físico de membros da oposição ao governo. Sua atuação foi de fato heróica e destemida, um exemplo extraordinário de um homem indignado com as circunstâncias em que viviam os seus semelhantes em nosso pais.

Que conseqüências essa atitude custou a Dom Hélder, dentro e fora da comunidade religiosa?

Em primeiro lugar ele se tornou esta figura emblemática inesquecível pelo seu exemplo de vida. Publicamos a sua biografia em agosto de 1997 e desde então, em nove anos de história deste livro, nunca houve um mês sequer que o livro deixou de ser procurado nas livrarias até ficar com a sua edição esgotada na editora nesse último mês de julho. A cineasta Erika Bauer declarou que após ler a biografia que escrevemos resolveu fazer esse documentário maravilhoso que atualmente está em cartaz sobre Dom Hélder. Freqüentemente recebo mensagens solicitando informações sobre como pesquisar a trajetória de Dom Hélder. Inúmeros outros pesquisadores escreveram estudos, ensaios, artigos científicos e o interesse pela sua obra é crescente entre pesquisadores dentro e fora do país.

O silenciamento que Dom Hélder sofreu por anos, por parte do Regime Militar brasileiro, que promoveu a censura aos meios de comunicação; o fato dele ter sido preterido várias vezes para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo o silenciamento que o Vaticano impôs, restringindo suas viagens internacionais e suas manifestações públicas,  considero que são secundários diante da grandeza de sua obra e do seu legado. Ele não deixou de fazer o que acreditava que fosse a sua missão enquanto teve condições para isso. Avalio que mesmo que tivesse sido mais difundida a sua influência religiosa e política no Brasil, as forças conservadoras que comandavam o governo no país e a reação conservadora que se deu no Pontificado de João Paulo II não teriam sido menos perniciosas para a vida social, política e religiosa. Então ele fez o que pode e não fez mais porque as circunstâncias em que vivemos também restringem as influências das nossas ações. A despeito de tudo isso ele deixou um legado e por isso estamos conversando sobre sua obra neste momento.

A comunidade internacional reagiu de que modo às denúncias feitas por Dom Hélder, quanto às violações dos direitos humanos pelo regime militar no Brasil?

Não podemos esquecer  que as atitudes autoritárias e de intolerância do comando do IV Exército em Recife fez com que ocorresse uma ruptura entre Dom Hélder e o Regime Militar. Logo após o Golpe Militar, em março d 1964, Dom Hélder manteve um extraordinário relacionamento com os presidentes Castelo Branco e depois com Costa e Silva e vários oficiais bem graduados. A partir de 1966, a defesa que Dom Hélder fazia dos presos políticos, inclusive visitando vários na cadeia e tentando libertá-los, tornou-se inaceitável para os militares de Pernambuco. Não podendo atingir Dom Hélder diretamente, os seus inimigos atingiram um dos seus principais colaboradores, o padre Antonio Henrique, que foi assassinado em 1969. A partir daí, em suas conferências no estrangeiro, Dom Hélder passou a denunciar os abusos contra os direitos humanos praticados pelo regime ditatorial. Dom Hélder descrevia publicamente os casos de tortura que tomava conhecimento, e por isso tornou-se um forte candidato a receber o Prêmio Nobel da Paz, como grande defensor dos direitos humanos e da paz mundial.

A pesquisa documental empreendida para o livro revela que olhar do regime militar sobre Dom Hélder? Nas ações do religioso, o que era considerado particularmente perigoso aos interesses do governo?

Combinado com o fato de que Dom Hélder foi considerado adversário do Regime Militar por ter sido o grande animador do engajamento dos católicos na busca de soluções para os problemas sociais e políticos do país, que envolveu iniciativas como o Movimento de Educação de Base, a atuação importante da Juventude Universitária Católica e depois do movimento Ação Popular, o aspecto central desta questão, ao meu ver, se refere à falta de legitimidade política do Regime Militar, e o receio de que a inserção social de Dom Hélder entre as classes dominantes, seu prestígio internacional e a sua influência sobre os movimentos sociais comandados pelo laicato católico o credenciassem como uma alternativa civil para comandar um governo de transição para a democracia, colocando fim ao comando militar do Estado brasileiro. Daí a necessidade de neutralizar sua influência, silenciando-o e isolando-o politicamente dos movimentos sociais, muitos dos quais colocados na ilegalidade e sofrendo forte perseguição política.

O livro também revela informações inéditas sobre as relações entre Igreja e governo, ao longo da ditadura militar. Poderia fazer um resumo dessas revelações? Comenta-se uma ingerência dos militares para evitar que o religioso fosse laureado com o Nobel da Paz. É fato? Há planos para novas edições do livro ou continuidade da pesquisa?

Como demonstramos no livro apresentando farta documentação que não foi contestada pelos setores envolvidos, a relação da instituição Igreja Católica e dos seus membros com o Regime Militar que comandava o país não pode ser simplesmente classificada como totalmente favorável ou totalmente contrária e oposicionista. A Igreja Católica não é uma instituição homogênea e fechada como podemos pensar a primeira vista. É uma instituição que possui ramificações em todos os setores das sociedades em que está presente. Atua junto às diferentes classes sociais, grupos étnicos e raciais, gêneros etc… e procura, de alguma forma, atender as demandas dos diferentes segmentos.

É também uma instituição preocupada com a sua permanência no tempo. Apoiar o Regime Militar no Brasil foi o meio utilizado pelos setores mais conservadores da hierarquia católica para que a instituição não rompesse sua relação com os poderes estabelecidos. Por outro lado, muitos leigos e sacerdotes foram severamente punidos pelo regime militar porque não adotaram o posicionamento da cúpula da instituição.

Duas décadas depois do fim do Regime Militar, avalio que esta atuação em duas frentes, se assim podemos dizer, mesmo que na época isso não tenha sido fruto de um planejamento consciente das lideranças católicas, foi uma maneira de garantir a influência católica no país, ainda mais porque muitos leigos e sacerdotes católicos militavam em favor dos direitos humanos, denunciavam as torturas praticadas pelo regime e eram favoráveis a uma maior distribuição da riqueza.

Porém, sem os hierarcas conservadores, ou seja, apenas com os membros politicamente oposicionistas, a Igreja ficaria sem interlocutores na relação com o Estado. Recordemos que durante o período anterior, 1945-1964, os governos populistas dialogavam mais com o chamado clero progressista liderado por Dom Hélder Câmara e pela CNBB. O setor da Igreja que se relacionava melhor com os grandes empresários e com os políticos mais conservadores estava melhor posicionados para negociar a influência da Igreja católica no país. Mas a Igreja como um todo também era formada pelos setores participativos que estavam presentes no Movimento de Educação de Base e que depois formariam as Comunidades Eclesiais de Base.

Na pesquisa para a elaboração do livro tivemos acesso a uma documentação até então inédita que comprovou o envolvimento do governo brasileiro em gestões junto ao Comitê que atribui o Prêmio Nobel na Noruega para evitar que Dom Hélder fosse agraciado e amplificasse o prestígio alcançado o seu discurso em favor dos direitos humanos, da democracia e contra o terrorismo de Estado que era praticado no Brasil pelos militares que comandavam o governo.

Quanto à reedição do livro, estamos preparando um capítulo final ou um posfácio para sair em uma nova edição ainda sem data prevista de lançamento. Mas os entendimentos com uma nova editora estão avançados. Desde  o final de julho deste ano o livro não está mais disponível nas livrarias, nem por encomenda, por estar esgotado na editora Ática. Isso é uma pena porque, ao meu ver, o público que freqüenta as livrarias deve ter acesso à biografia de uma personalidade insubstituível e rara como Dom Hélder.

Quais as principais características pessoais de Dom Hélder que se sobressaíram nos momentos de maior tensão entre sua atuação e o governo?

Sem dúvida a firmeza dos seus princípios combinada com uma atitude totalmente aberta para o diálogo. Dom Hélder sabia sempre onde pretendia chegar com a sua voz e com o testemunho da sua vida, neste sentido ele pode ser considerado um grande estrategista político, mas ele usava a sua capacidade pessoal extraordinária para defender os posicionamentos políticos mais democráticos e socialmente generosos. Mas não podemos esquecer o seu incansável e esperançoso esforço como religioso, para reformar a Igreja de Cristo, livrando-a dos compromissos com os poderosos e aproximando-a cada vez mais das necessidades das camadas populares.

Há, hoje em dia, uma revisão na historiografia referente ao período da ditadura militar brasileira? Algum dado novo sobre a ação de religiosos como Dom Hélder?

No momento várias pesquisas estão em andamento. Mas inúmeros arquivos do Regime Militar, da Igreja Católica no Brasil e do Vaticano ainda não são acessíveis aos pesquisadores e ao público. Nos próximos anos, talvez décadas, provavelmente serão divulgadas novas informações que podem levar a novas interpretações de um período tão conturbado da história do Brasil e da Igreja Católica.

Para concluir: como o senhor avalia o trabalho de Dom Hélder pela paz e pela não-violência? O que o exemplo dele pode representar para a sociedade de hoje?

Como exemplo deixado por Dom Hélder, esta a sua capacidade de dialogar e conviver com pessoas e grupos políticos que o consideravam um adversário político. Também a sua firmeza para denunciar os desmandos das corporações de empresas multinacionais, e para propor mudanças profundas na estrutura da Igreja Católica. Ao mesmo tempo ele deixou o exemplo de sua serenidade na busca do entendimento através de uma atuação política pacífica. Hoje quando propomos o respeito às diferenças e a tolerância nas relações sociais não estamos apresentando nenhuma novidade em relação ao discurso e à prática de  Dom Hélder nas décadas de 1960 e 1970.  Ele soube preservar e nos transmitir estes valores que hoje animam os espíritos mais generosos e comprometidos com a busca de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

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A relação entre o padre Helder Camara e o educador Lourenço Filho na década de 1930: uma interpretação política

Da esquerda para a direita (de pé): o 3º é o poeta Manuel Bandeira, o 5º é o líder católico Alceu Amoroso Lima e o 7º é o padre Helder Camara. Sentados: o educador Manuel Bergstrom Lourenço Filho e o 3º é o então ministro da Educação Gustavo Capanema. A foto é do arquivo particular de Rui Loureço, filho do educador, gentilmente cedida para o autor.

Da esquerda para a direita (de pé): o 3º é o poeta Manuel Bandeira, o 5º é o líder católico Alceu Amoroso Lima e o 7º é o padre Helder Camara. Sentados: o educador Manuel Bergstrom Lourenço Filho e o 3º é o então ministro da Educação Gustavo Capanema. A foto é do arquivo particular de Rui Loureço, filho do educador, gentilmente cedida para o autor.

Walter Praxedes

Resumo: Este artigo propõe uma interpretação política que contextualiza a relação de colaboração entre os educadores Lourenço Filho e padre Helder Camara na década de 1930 como uma expressão peculiar da coalizão centro-direitista que dava sustentação política para o regime comandado por Getúlio Vargas, demonstrando como a famosa oposição entre os educadores escolanovistas e católicos, verificada na história da educação brasileira, não pode ser considerada como absoluta.

Palavras-chave: Escola nova, católicos, interpretação política

Apesar de sua importância na história da constituição da área educacional brasileira como um campo de lutas no qual se disputava a definição da legislação educacional do país, os critérios para a distribuição dos recursos públicos destinados à educação, o reconhecimento oficial ou não dos serviços educacionais prestados pelos estabelecimentos católicos e o controle sobre o Ministério da Educação e Saúde, com todos os seus postos e recursos, a famosa oposição entre os “pioneiros da educação nova” e católicos, nos anos trinta do século XX, não pode ser considerada absoluta, como demonstra a análise do relacionamento entre os educadores Lourenço Filho e padre Helder Camara. O próprio líder leigo católico Alceu Amoroso Lima chegou a afirmar que entre católicos e pioneiros ocorrreram “… não apenas oposições mas composições possíveis” (1).

Recairá sobre uma dessas “composições possíveis” o enfoque principal deste artigo. Entretanto, com o intuito de discutirmos algumas nuanças da conjuntura política e educacional daquele período, uma segunda hipótese abordada nesta exposição trata o relacionamento político, a colaboração intelectual entre Lourenço Filho e Helder Camara, bem como a admiração do segundo pelo pensamento e pela obra educacional do primeiro, como uma expressão peculiar, não intencional, daquilo que o historiador Edgar Carone denominou como a “união sagrada contra o comunismo” (2), ocorrida, nos anos trinta, entre sacerdotes e leigos católicos, intelectuais, políticos e militares em torno do regime político comandado por Getúlio Vargas.

Em termos gramscianos, pode-se dizer que o regime iniciado com a Revolução de 1930, passava por um momento no qual “a sociedade política (ou ditadura, ou aparelho coercitivo que assegura a conformidade das massas populares ao tipo de produção ou de economia em um momento determinado)” recorre às “organizações ditas privadas, tais como a Igreja, os sindicatos, as escolas etc.” para consolidar sua hegemonia “sobre o conjunto da sociedade nacional”. (3)

Pelo menos sumariamente, alguns momentos importantes da historia da educação brasileira devem ser recordados, para que se possa discutir o relacionamento entre os educadores em questão. Sob a direção de Dom Sebastião Leme, Arcebispo do Rio de Janeiro desde 1921 e cardeal a partir de 1930, os católicos elegeram a área educacional como estratégica para a “recristianização das elites e do povo brasileiro” e para a arrecadação de recursos pela sua instituição através da rede de escolas confessionais. (4)

Conforme escreveu Schwartzman, Bomeny e Costa, “em 1931 a Igreja católica encontra em Francisco Campos (Ministro da educação de Vargas) um explícito apoiador de sua causa”, que articula um pacto de colaboração entre o principal dirigente católico e Getúlio Vargas, através do qual, “… a Igreja deveria oferecer ao novo regime uma ideologia que lhe desse substância e conteúdo moral, sem os quais ele não conseguiria se consolidar” (5). Em troca, Dom Leme “… obteve ajuda financeira estatal para amparar as escolas católicas, conseguiu vetar o divórcio e reintegrar a educação religiosa durante o período escolar, além de outras medidas. (6) Coerente com tal pacto, em abril de 1931 Campos lança um decreto que prescrevia o ensino religioso nas escolas oficiais do país, que era uma reivindicação católica desde a instauração da República, em 1889, e que fora frustrada até então.

Percebendo que a Igreja católica ameaçava suas propostas em favor da escola pública, obrigatória, laica e gratuita, os educadores da Associação Brasileira de Educação, dentre os quais estava Lourenço Filho, lançam, em 1932, o famoso “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”.

No ano seguinte, comandados por Dom Leme e Alceu Amoroso Lima, os católicos fundam a Liga Eleitoral Católica, para tentar influir na Constituinte de 1933, e a Confederação Católica Brasileira de Educação, para coordenar e centralizar a defesa dos interesses dos estabelecimentos confessionais de ensino contra as ameaças representadas por uma virtual implementação das propostas dos educadores da ABE.

Além da aprovação de suas principais reivindicações pela Constituinte, em julho de 1934 os católicos conseguem que Gustavo Capanema assuma o Ministério da Educação e Saúde, tendo sua nomeação e atuação no cargo monitorada diretamente por Alceu Amoroso Lima, “como parte do acordo geral que se estabelecera entre a Igreja e o Regime de Vargas, proposto anos antes por Francisco Campos”. (7)

I – Concepções e práticas educacionais do padre Hélder Câmara

Sobre suas concepções ideológicas e posicionamentos políticos nos anos trinta, em uma correspondência enviada aos seus colaboradores, o próprio Camara reconheceria que “… existisse TFP naqueles tempos e eu teria sido um de seus líderes”. (8)

1 - pe. helder e irma

Padre Helder com sua irmã, a freira Stefânia Maria (Maroquinha)

Na origem de sua visão de mundo politicamente autoritária e católica ultramontana, está a formação que recebera no Seminário Episcopal de Fortaleza, entre os anos de 1923 e 1931, embasada, fundamentalmente, no antimodernismo do Concílio Vaticano I e no ideário político conservador transmitido pelo líder leigo Jackson de Figueiredo. Ainda no seminário, Helder Camara integrou um grupo que se autodenominava “Jacksonianos”. Depois do desaparecimento de Jackson, em 1928, Câmara passou a ser orientado diretamente por Alceu Amoroso Lima, com o qual se correspondia regularmente, e de quem recebeu o aval para, depois de sua ordenação sacerdotal, em agosto de 1931, fundar os movimentos Juventude Operária Católica, Liga dos Professores Católicos e auxiliar o tenente Severino Sombra a criar a Legião Cearense do Trabalho, de inspiração assumidamente salazarista. A intensa atividade de Camara na direção destes movimentos culminou na sua entrada para a Ação Integralista Brasileira, em 1932, convidado diretamente pelo líder Plínio Salgado.

Foi com estas credenciais que o padre Hélder Câmara estreou, nacionalmente, no debate educacional entre católicos e pioneiros, com um artigo de combate, publicado na revista “A Ordem”, de julho de 1933, onde ataca diretamente um dos principais líderes do movimento escolanovista:

“Anísio Teixeira, um dos mestres da pedagogia nova no Brasil, acaba de publicar ‘Educação Progressiva’; estudos eivados duma philosofia errronea e seductora, capazes de fazer uma mal immenso, em nossa terra, onde a ausência de princípios seguros e norteadores, mesmo entre os nossos intellectuais, deixa muitos delles a mercê do primeiro vento de doutrina moderna surgido entre nós”. (9)

Alguns meses depois, desta vez nas páginas da Revista Brasileira de Pedagogia, Câmara voltaria a atacar Anísio Teixeira, afirmando que os admiradores deste,
“… não deviam consentir que elle escrevesse. Em poucas páginas, são tantas as contradições em que elle cáe, tantos os erros que ele avança, solene, tantos os pontos falhos dados como dogmas, que, ao surgirem as irreverencias de que elle é prodigo, bem se pode sorrir do arrogante e enfatuado inimigozinho de nossa fé”. (10)

Em fevereiro de 1934 Câmara atua como membro da comissão executiva organizadora da VI Conferência Nacional de Educação, promovida pela ABE, em Fortaleza. Na ocasião, após fazer uma exposição e um dos debates, protagonizou um boicote aos educadores ecolanovistas presentes, dentre os quais estava Anísio Teixeira, Almeida Júnior e Edgar Sussekind de Mendonça:
“Comandei a retirada do público numeroso que acorrera à minha palestra… recordaria Câmara, autocriticamente. Contra todas as regras da hospitalidade cristã e do espírito evangélico, deixei os visitantes – uns 30 educadores, vindos sobretudo do Rio – às moscas”. (11)

Com o acirramento do confronto entre católicos e escolanovistas na conferência, o educador Edgar Sussekind de Mendonça desacata o representante da Confederação Católica Brasileira de Educação, Dom Xavier de Matos. Em represália, logo após o encerramento do evento, no dia 12 de fevereiro de 1934, pessoalmente Câmara insufla um grupo de militantes integralistas a surrar o Sussekind de Mendonça. (12)

Em outra oportunidade, Camara também se insurge contra a ABE e seus membros. Enquanto se preparava para participar do primeiro Congresso Católico Nacional de Educação, que se realizaria em setembro de 1934, no Rio de Janeiro, em uma entrevista concedida ao jornal católico “O Nordeste”, o jovem padre cearense afirma:
“… Nossos inimigos se unem apenas pelo odio commum que nos votam. Mas não se entendem – A VI Conferencia de Educação permitiu-nos constatar que, na intimidade, os da A.B.E. não só não se toleram, mas se devoram, esterilizando-se em humilhantes atritos pessoais. Os seus congressos são inexpressivos, inoperantes, donde podemos afirmar que o Congresso de setembro não será apenas o primeiro Congresso Catholico Nacional de Educação, mas será primeiro mesmo como simples Congresso Pedagogico Nacional”. (13)

Incansável em sua cruzada contra os escolanovistas, na abertura do Congresso Católico Camara volta a fazer um discurso polemizador:
“Nós, e só nós, poderemos salvar o mundo e o Brasil do espetáculo entristecedor de pseudos educadores que não sabem o que querem e flutuando ao vento das doutrinas mais desencontradas se contradizem mutuamente e, o que é mais triste, a si mesmos se contradizem. No terreno psicológico vacilam entre psicologias objetivas extremadas, como o behaviourismo, e extremadas psicologias subjetivas, como a psicanálise”. (14)

II – Lourenço Filho e os católicos

Mesmo na condição de um dos principais expoentes do movimento de renovação da educação brasileira, Lourenço Filho consegue passar ao largo da polarização política e ideológica entre escolanovistas e católicos, combinando, em suas concepções, a defesa da preponderância estatal na coordenação da educação nacional com o respeito aos interesses católicos:
“Neste particular, a Escola Nova, como conjunto de doutrinas deixa de tomar atitude exclusivista. É antes conciliatória. Por certo que a autoridade do Estado prepondera na concepção da educação hoje, seria excusado disfarçá-lo. Mas por outro lado, chama em seu auxílio, os pais… e em relação à Igreja, a atitude de numerosos reformadores, embora não sectária, tende a solicitar sua cooperação e valimento”. (15)

O posicionamento teórico e prático de Lourenço Filho, favorável aos católicos, tornava-o alvo de comentários elogiosos por parte destes, como o escrito pelo intelectual católico e membro do Centro Dom Vital, Jonathas Serrano: “Fazemos ao professor Lourenço Filho a justiça de reconhecer que, na direção da instrução pública, em São Paulo, não criou obstáculos à aplicação do decreto de 30 de abril de 1931”. (16)

Considerando-se a influência do grupo católico sobre os cargos educacionais das várias instâncias estatais na época, tal declaração pode ser encarada como um verdadeiro salvo-conduto para que Lourenço Filho não tivesse sua atuação obstaculizada pelos mesmos. Aliás tal salvo-conduto era mais que merecido por Lourenço Filho, que para fazer valer o rigoroso regulamento interno do Instituto de Educação e para não frustrar a expectativa de seus aliados católicos com relação à sua atuação, em novembro de 1932, solicitou a abertura e compôs uma comissão de inquérito que investigou a distribuição de boletins “subversivos” por uma aluna do Instituto, que acabou sendo suspensa de suas atividades por trinta dias, por ter pregado a greve e a utilização de meios violentos para a resolução dos problemas sociais, tudo isso em nome de uma organização autodenominada Federação Vermelha dos Estudantes. (17)

Com a ressalva de que não se pretende aqui insinuar nenhuma vinculação de Lourenço Filho com a chamada “doutrina do sigma”, podemos observar uma certa coincidência entre a forma como o educador paulista concebia a combinação das atribuições estatais na educação com os interesses da Igreja, e a concepção educacional integralista de Camara, segundo a qual embora a “educação intensiva e integral do povo” fosse considerada como “um dever fundamental do Estado”, este “jamais poderá ultrapassar a legítima esfera dos seus direitos, aniquilando ou mesmo cerceando os direitos primordiais da família e da religião” (18). Ou seja, ambos defendem que as atribuições do Estado na área educacional sejam combinadas com a atuação e os interesses dos estabelecimentos confessionais.

Por tudo isso, a despeito de seus ataques aos representantes do movimento de renovação da educação brasileira, o padre cearense cultivava uma opinião francamente favorável ao educador Lourenço Filho, como pode ser constatado em uma resenha que escreveu sobre o livro “Testes ABC”:
“Dado o justo renome de que desfruta nos meios pedagogicos o Dr. Lourenço Filho, constitui um acontecimento importante a aparição de seu novo livro ‘Testes A.B.C. para verificação da maturidade necessária à aprendizagem da leitura e escrita’. O novo estudo do ilustre pedagogo confirma-lhe os títulos de agitador salutar de grandes problemas educacionais no nosso meio e de pesquisador inteligente e operoso, como os que mais o sejam. Ele, que em ‘Introdução ao estudo da Escola Nova’, rasgou tantos horizontes aos professores do Brasil, agora focaliza novos e importantes aspectos da questão educacional… Lourenço Filho, entrando na corrente das cogitações manifestadas modernamente, por Gray, La Salle, e Gates, conseguiu para o caso particular da leitura e escrita, um teste que talvez eles estejam procurando… Escrevesse em outra língua, o diretor do Instituto de Educação do Distrito Federal e o seu trabalho possivelmente haveria de conquistar renome universal”. (19)

É bem possível que, além do reconhecimento das atitudes e posicionamentos favoráveis aos católicos e da admiração pela competência intelectual e administrativa de Lourenço Filho, o padre Helder Camara cultivasse também uma simpatia pessoal pelo mesmo, a quem conhecera aos treze anos, em 1922, quando da passagem do educador paulista por Fortaleza. Era o menino Hélder quem buscava na casa de Lourenço Filho os artigos que este escrevia para serem publicados no Jornal “O Diário do Ceará”, do qual seu irmão mais velho, Gilberto Camara, era redator. Em algumas ocasiões Helder ficava aguardando Lourenço Filho concluir um artigo, enquanto a esposa do educador lhe fazia companhia. (20)

Quando o padre Helder Camara assumiu a Diretoria de Instrução Pública do Ceará, em junho de 1935, após ter coordenado com êxito a campanha eleitoral da Liga Eleitoral Católica em seu Estado, é possível que essa simpatia pessoal tenha contribuído para que ele se sentisse à vontade para solicitar a colaboração informal de Lourenço Filho, que ocupara o mesmo cargo no início dos anos vinte. Câmara toma posse do cargo em 5 de junho de 1935 e assim que inicia sua gestão, por correspondência, solicita e recebe sugestões de Lourenço Filho.

Num rápido balanço de sua atuação no cargo, além de contemplar as reivindicações corporativas de sua instituição, como a regulamentação do ensino religioso nas escolas públicas e a organização do II Congresso Católico Regional de Educação, Camara se empenhou na criação de um jardim de infância na Escola Normal, iniciou a realização de um censo escolar, incentivou a formação de classes homogeneizadas e aplicou os testes ABC, medidas que evidenciam a influência das ideias de Lourenço Filho em sua atuação.

Por discordar das medidas repressivas autorizadas pelo governador Menezes Pimentel contra uma manifestação integralista ocorrida no interior do Estado, Camara pede exoneração do seu cargo no dia 21 de novembro de 1935, cinco meses e meio depois de sua posse. Motivado também pela falta de apoio de seu superior hierárquico, o arcebispo Dom Manoel da Silva Gomes, ao seu rompimento com o governo, e ainda por vários outros problemas de ordem pessoal, a alternativa vislumbrada por Camara foi mudar-se para o Rio de Janeiro. Para concretizar esse projeto, em um telegrama datado de 23 de novembro de 1935, portanto dois dias depois de seu pedido de demissão, solicitou que o amigo Lourenço Filho lhe arranjasse um novo emprego na capital federal:

LOURENÇO FILHO RUA MARIS BARROS 227 RIO =
IMPERATIVO CONCIENCIA ABANDONEI
DIRETORIA INSTRUÇÃO FACE ARBITRARIEDADE
GOVERNO ANSEIO TODAVIA TRABALHAR
EDUCAÇÃO CUJA CAUSA SINTO POSSO SER
UTIL HORRIVEL PRESENCIAR MORTE MEUS
SONHOS EXULTARIA AMIGO CONSEGUISSE
CAPANEMA MARGEM COLABORAR INSTITUTO OU
MINISTERIO SOLICITARIA CONVITE SEU FIM
POSSA MOSTRAR MOVER ARCEBISPO
RESPONDA GUILHERME ROCHA 808 =
HELDER
A resposta enviada por Lourenço Filho foi totalmente animadora para Câmara:
Padre Helder Camara
Rua Guilherme Rocha 808
Fortaleza (Ceará)
Estou trabalhando maximo empenho sua vinda ponto
Ministro Educação tem pronta reforma Ministerio
a ser enviada Camara ponto prometeu considerar
caso maior interesse questão poucos dias Abraços
Lourenço Filho (21)

O emprego foi de fato conseguido, mas não no ministério: Lourenço Filho contrata-o como seu assessor no Instituto de Educação do Distrito Federal e o padre Helder muda-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro em janeiro de 1936. Como estamos analisando e tentando contextualizar a colaboração entre um reconhecido educador escolanovista com um sacerdote e educador católico e integralista, devemos discutir, a seguir, as circunstâncias políticas pelas quais passava o país, e, particularmente, sua capital federal, no segundo semestre de 1935 e primeiro de 1936, período em que ocorre a chamada Intentona Comunista, seguida pela ação repressiva do Governo Vargas, com repercussões consideráveis sobre o setor educacional do país.

Nessa época, no Rio de Janeiro, as hostilidades dos católicos a alguns educadores escolanovistas chegavam ao extremo. Uma observadora privilegiada como a Irmã Laurita Pessoa Raja Gabaglia, filha do presidente Epitácio Pessoa, assessora e depois biógrafa do Cardeal Sebastião Leme, a partir do ângulo de visão dos católicos, avaliou que os educadores escolanovistas “não digeriam” as vitórias católicas na constituição de 1934 e, por isso, no “Distrito Federal, […] o Secretário da Educação Anísio Teixeira, mostrava-se radicalmente contrário ao ensino confessional e disposto a torná-lo por todos os meios inaplicável”. (22)

Precavendo-se contra a gestão de Pedro Ernesto e de Anísio Teixeira, ainda segundo Raja Gabaglia, Dom Leme, “… logo que vira a capital da República constituída em distrito autônomo e entregue a uma administração esquerdista, aconselhara o cônego Olimpio de Melo, ex-vigário de Bangu e membro do conselho executivo do Partido Autonomista, a candidatar-se a vereador”. (23)

Eleito vereador e conduzido à presidência da Assembleia Municipal, Olímpio de Melo passou a trabalhar pela aprovação de um projeto de regulamentação do ensino de religião nas escolas municipais, o que foi conseguido no de 5 de junho de 1935. Porém o prefeito Pedro Ernesto decidiu não sancionar o projeto aprovado, segundo Raja Gabaglia, “menos talvez por lhe ser pessoalmente hostil do que por acatamento à oposição intransigente do seu Secretário da Educação” (24). Pressionado por Antonio Carlos de Andrada, Presidente da Câmara Federal e interinamente na Presidência da República em virtude de uma viagem de Vargas à Argentina, Pedro Ernesto desistiu de seu veto e deixou que a regulamentação do ensino religioso no Distrito Federal fosse aprovada por decurso de prazo.

Concomitantemente a estes acontecimentos, em outra frente Dom Leme contava com a atuação do líder leigo Alceu Amoroso Lima. Ainda em junho de 1935, época em que tramitava o projeto de regulamentação do ensino religioso no Distrito Federal, por carta, Alceu pressionava ao Ministro da Educação por uma atuação mais decidida do governo contra principais inimigos da Igreja Católica: os comunistas ou aqueles que assim fossem designados pelos católicos. Além de apoiar Eurico Gaspar Dutra e Filinto Muller, respectivamente como Ministro da Guerra e Chefe de Polícia do Distrito Federal, Alceu defende um amplo expurgo no Estado:
“… Expurgar pois o Exército e a Marinha de elementos políticos revolucionários, reforçar a polícia, excluir dos sindicatos e dos quadros do Ministério do Trabalho elementos agitadores, organizar a educação e entregar os postos de responsabilidade nesse setor importantíssimo a homens de toda confiança moral e capacidade técnica (e não a socialistas como o Diretor do Departamento Municipal de Educação), tudo são tarefas que o governo deve levar adiante e infatigavelmente, pois delas dependem a estabilidade das instituições e a paz social. (25)

Após a eclosão da revolta comunista de novembro de 1935, essa recomendação inquisitorial do dirigente católico será plenamente atendida. No dia 25 de novembro o país entra em Estado de Sítio. “A repressão e as prisões podem ser feitas agora, de maneira contínua e segundo os interesses os mais escusos das oligarquias, o que a leva a prender indiscriminadamente comunistas, socialistas, liberais e outros. Os sindicatos são varejados, os operários são presos e somem, o número de mortos aumentam, tudo é feito brutalmente, sob orientação de Filinto Muller, chefe da polícia, e com o consentimento de Getúlio Vargas, do Exército, das bancadas de São Paulo etc.”, escreve Edgar Carone. (26)

No trabalho de Carone são citados os nomes das pessoas que sofrem com a sanha repressiva do governo, entre os quais os dos professores Hermes Lima e Edgard Castro Rebelo, do escritor Graciliano Ramos e dos parlamentares Abel Chermont e Abguar Bastos. Quando trata dos métodos utilizados pela polícia de Filinto Muller o relato do historiador torna-se dramático: “… são marinheiros e operários cujos tornozelos, cujas carnes foram arrancadas, queimadas a maçarico; ou é Luís Carlos Prestes, que é posto em solitária, durante meses; ou Carlos Marighela, simples estudante, que é espancado nos pés e rins e depois queimado por todo o corpo com pontas de cigarros, ou Hary Berger, que apanha até ficar louco. Os exemplos se repetem em centenas de casos, no Rio, em São Paulo, no Nordeste, tornando-se tônica comum, mas sendo sempre desmentidos pelas autoridades”. (27)

Para satisfação das lideranças católicas, esse clima persecutório chega à Secretaria de Educação do Distrito Federal, da qual Anísio Teixeira é exonerado em dezembro de 1935, sendo substituído por Francisco Campos. Para não ser preso, Anísio parte para o exílio e depois se esconde na fazenda de seu cunhado, em Caetité, Bahia. Já o Prefeito Pedro Ernesto além de ser substituído pelo Cônego Olímpio de Melo acaba sendo detido em abril de 1936.

Embora formalmente ocupasse um cargo de confiança de Anísio Teixeira, Lourenço Filho não só não seria prejudicado pela queda do Secretário de Educação – provavelmente porque mantivesse uma boa relação com o novo secretário, Francisco Campos, de quem já fora chefe de gabinete, quando da passagem deste pelo Ministério da Educação -, como mesmo nos tumultuados meses de novembro de 1935 a janeiro de 1936 conseguiu articular a contratação de Helder Camara para assessorá-lo no Instituto de Educação do Distrito Federal.

Convidado por Everardo Backheuser para trabalhar na chefia da sessão de medidas e programas do Instituto de Pesquisas Educacionais, também do Distrito Federal, e para ocupar o posto de redator-chefe da Revista Brasileira de Pedagogia, da Confederação Católica Brasileira de Educação, Camara permanece apenas por alguns meses trabalhando com Lourenço Filho (28). Apesar disso, num depoimento publicado na revista que passou a chefiar, embora apareçam insinuadas algumas de suas divergências com as ideias de Lourenço filho, fica evidenciado o entusiasmo pelo trabalho que estava sendo realizado por este no Instituto de Educação:
“Lourenço Filho fez do seu Instituto a obra-prima de sua vida. O seu melhor trabalho não é ‘Introdução ao estudo da escola nova’, visão de conjunto da pedagogia moderna, util, interessante, mas nem sempre isenta de apaixonamento e erro; não é ‘Joazeiro de Padre Cícero’, estudo perspicaz, sutil, mas por vezes, falho e unilateral; nem mesmo o seu volume de ‘Testes ABC’ onde o mestre brasileiro deu, sobre maturidade para leitura e escrita a resposta que os mestres estrangeiros debalde procuravam. A sua obra feliz por excelência é o Instituto de Educação.

É uma escola ‘diferente’ , onde se vem processando a elaboração verdadeira de tudo o que a moderna pedagogia possue de realmente bom. Seria lastimável que o sopro da escola nova passasse violento, destruindo, sem quasi construir. No Distrito o Instituto ficará como uma nota de equilíbrio, um dado positivo em meio á confusão geral.” (29)

CONCLUSÃO
Ao considerarmos o conservadorismo religioso, ideológico e político do jovem padre Helder Camara e de sua instituição na época, podemos concluir que só mesmo em virtude da atitude conciliadora de Lourenço Filho com relação aos interesses católicos é que a colaboração entre ambos pôde ter ocorrido.

Como decorrência disso, em outra oportunidade, talvez seja relevante discutirmos se essa presumida flexibilidade no discurso e na prática de Lourenço Filho não contribuiu para a diminuição do preconceito de outros educadores católicos em relação ao ideário escolanovista, a exemplo do que, provavelmente, ocorreu com o padre Helder Camara, como pode ser inferido das medidas que tentou implementar durante sua curta gestão na Diretoria de Instrução Pública do Ceará.

Por sua vez, para Lourenço Filho a relação com Hélder Câmara, que, como vimos, estava intimamente vinculado à elite dirigente católica, tornava-o menos vulnerável ao clima de intolerância política e ideológica apoiado diretamente pelos católicos, e do qual foi vítima Anísio Teixeira, dentre tantos outros.

Outro fator que pode ajudar a entendermos a aproximação entre Lourenço Filho e Helder Camara, foi a estratégia comum, utilizada por ambos, de ocupar posições no Estado, como meio para a implementação de seu projeto educacional.

Para concretizar essa estratégia, Lourenço Filho e Helder Camara tiveram que pagar o tributo do apoio a um governo que se dispunha a fazer concessões aos interesses representados por ambos, tendo em vista a formação de uma ampla coalizão centro-direitista que lhe fornecesse a sustentação política necessária para a liquidação da oposição representada pela ala esquerda do movimento tenentista e por socialistas e comunistas.

NOTAS

1. Ver o prefácio escrito por Alceu Amoroso Lima ao livro de CURY, Carlos R. Jamil. Ideologia e educação brasileira. São Paulo, Cortes/Autores Associados, 1988.

2. CARONE, Edgar. A República Nova – 1930-1937. São Paulo, DIFEL, s/d, p. 342-378.

3. GRAMSCI, Antonio. Lettere dal Carcere. Turim, 1965, p. 481, citado por ANDERSON, Perry. “As antinomias de Gramsci”. In: Crítica Marxista. São Paulo, Editora Joruês, 1986, p. 13.

4. LEME, D. Sebastião. Carta pastoral à Arquidiocese de Olinda. Petrópolis, Vozes, 1916.

5. SCHWARTZMAN, Simon / BOMENY, Helena M.B. / COSTA, Vanda M.R. Tempos de Capanema. São Paulo, Edusp/Paz e Terra, 1984, p. 44.

6. MAINWARING, Scott. Igreja católica e política no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1989, p. 48.

7. SCHWARTZMAN, op. cit., p. 46-47.

8. CAMARA, D. Helder. Correspondência enviada aos seus colaboradores, Recife, 25/26 de janeiro de 1972.

9. CAMARA, Pe. Helder. “Educação Progressiva”. In: Revista A Ordem, Ano XII – n. 41-42. Rio de Janeiro, Centro Dom Vital, julho/agosto de 1933, p. 544.

10. CAMARA, Pe. Helder. “Resenha de Livros”. In: Revista Brasileira de Pedagogia, Confederação Católica Brasileira de Educação, ano 1 – n. 7, agosto de 1934, p. 141.

11. CAMARA, D. Helder. “Minha passagem pela Ação Integralista Brasileira. Recife, setembro de 1973, texto mimeografado, p. 10.

12. PILETTI, Nelson & PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara – Entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997, p. 92-93.

13. Jornal O Nordeste, Fortaleza, 29 de junho de 1934.

14. CAMARA, Pe. Helder. “Discurso aos congressistas”. In: Revista Brasileira de Pedagogia. Rio de Janeiro, Confederação Católica Brasileira de Educação, ano 1, n. 9-10, outubro/novembro de 1934, p. 334-335.

15. LOURENÇO FILHO, M.B. Introdução ao estudo da escola nova, p. 220, citado por CURY, op. cit., p. 90.

16. A citação de Jonathas Serrano aparece no livro de LIMA, Danilo. Educação, Igreja e ideologia. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978, p. 78.

17. Conforme informações fornecidas por Ruy Lourenço Filho.

18. Jornal O Nordeste, Fortaleza, 25 de outubro de 1934.

19. CAMARA, Pe. Helder. “Resenha de Livros”. In: Revista Brasileira de Pedagogia. Rio de Janeiro, C.C.B.E., ano 1, n. 4, maio de 1934, p.237.

20. CASTRO, Marcos de. Dom Hélder: o bispo da esperança. Rio de Janeiro, Graal, 1978, p. 33.

21. Conforme as fotocópias dos telegramas fornecidas por Ruy Lourenço Filho.

22. RAJA GABAGLIA, Laurita Pessôa. O Cardeal Leme. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1962, p. 350.

23. Íd., ibid., p. 350-351.

24. Íd., ibid., p. 352.

25. Carta de Alceu Amoroso Lima a Gustavo Capanema, Rio de Janeiro, 16 de junho de 1935, publicada em SCHWARTZMAN, Simon. Op. cit., p. 176.

26. CARONE, op. cit., p. 342-378.

27. Id., ibid., p. 342-378.

28. Em 1939, aprovado em concurso público, Camara trabalharia por quase um ano no INEP, sob a direção de Lourenço Filho, e depois pediria transferência para outro órgão do M.E.S. De 1949 a 1961 ambos atuariam como conselheiros no Conselho Nacional de Educação.

29. CAMARA, Pe. Hélder. “A Escrita na escola primária”. In: Revista Brasileira de Pedagogia. Rio de Janeiro, C.C.B.E., ano 3, n. 28-29, setembro/outubro de 1936, p. 210.

(Artigo publicado originalmente como: PRAXEDES, W. L. A. . A relação entre Lourenço Filho e Hélder Câmara nos anos trinta: uma interpretação política. Educação Brasileira a Atualidade de Lourenço Filho. Cadernos Estudos e Documentos – Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 41, p. 153-167, 1999.)

Dom Hélder Câmara e a educação popular

Walter Praxedes*
030
Antes de que um número considerável de sacerdotes e leigos católicos se engajassem na busca da “transformação do mundo” através dos trabalhos pastorais, como ocorreu a partir do final da década de 1950 no Brasil, foi preciso que no interior da Igreja, se consolidasse a idéia de que “a mensagem de Cristo incluía a criação de uma ordem social justa”, e por isso não deveria haver uma separação entre a fé cristã e a execução de uma “missão social” que apontasse para a superação ou alívio da miséria.

Para promover essa “missão social”, aos leigos caberia um papel apostólico muito mais ativo, incluindo até uma maior responsabilidade na eclesiologia católica, a fim de que pudessem atuar com desenvoltura onde faltassem sacerdotes em número suficiente.

O estudioso do catolicismo brasileiro Thomás Bruneau ressalta o papel fundamental desempenhado por Dom Hélder Câmara nessa nova forma de engajamento dos católicos no mundo. Ex-arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985), fundador e primeiro secretário-geral da CNBB, entre 1952-1964, Dom Hélder Câmara, nasceu em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, e faleceu em 27 de agosto de 1999, em Recife. Conhecido mundialmente por sua atuação destemida e ao mesmo tempo serena em favor dos excluídos, coube a Dom Hélder desempenhar o papel de orientador dessas mudanças nas concepções e nas ações dos católicos. De acordo com as palavras de Thomás Bruneau:
“Antes da ação da Igreja na promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade. A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição, incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes, cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos jovens e ativos”.

Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder defendia nos anos cinquenta, a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o Estado para a promoção de reformas sociais de base.

Em 1956 e em 1959, por exemplo, Dom Hélder organizou as históricas Conferências dos Bispos do Nordeste – a de Campina Grande, Paraíba, e a de Natal, Rio Grande do Norte. Na preparação desses encontros, além de contar com o importante apoio de Dom José Távora, Dom Expedito Lopes, Dom Manuel Pereira da Costa e Dom Eugênio Sales, Dom Hélder colocou vários técnicos leigos que o assessoravam na CNBB em contato com técnicos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), designados pelo governo para realizar estudos que subsidiassem as discussões dos bispos.

Nos dois encontros, o próprio presidente Juscelino Kubitschek esteve presente para celebrar com Dom Hélder um verdadeiro pacto de colaboração entre o Estado e a Igreja. Comprometeu-se a implementar medidas como a liberação de verbas para obras de infraestrutura, a realização de projetos habitacionais, fomento à agroindústria, construção de hidrelétricas e modernização do porto de Recife, entre outras, visando promover o desenvolvimento econômico e combater a miséria da região.

No final do encontro de Campina Grande, ocorrido entre 21 e 26 de maio de 1956, foi divulgado um comunicado onde já aparece consolidada a idéia de que a Igreja deva se envolver nas questões terrenas:
“A ninguém cause estranheza ver-nos envolvidos com problemas de ordem material. Para o homem, unidade substancial de corpo e alma, a inter-relação entre questões materiais e questões espirituais é constante”.

Mas, para mais espanto dos conservadores de dentro e fora da instituição católica, os bispos ainda declararam a Igreja “sem nenhuma vinculação com as situações injustas” e se colocaram “ao lado dos injustiçados, para cooperar com eles numa tarefa de recuperação e redenção”.

No II Encontro dos Bispos do Nordeste, realizado em Natal, no discurso proferido em 24 de maio de 1959, o Presidente Juscelino manifestaria o seu apoio aos bispos brasileiros e às suas metas de modernização do Nordeste:
“Essa iniciativa do Governo Federal é devida, forçoso é proclamar, à inspiração caridosa da Igreja e ao desejo enérgico de salvar da miséria tantos valores patrícios nossos, manifestado pelos pastores espirituais do Nordeste, desde o primeiro encontro de Campina Grande”.

A condição de representante do episcopado brasileiro na época, levou Dom Hélder a apoiar o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo Governo Federal, e que se constituiu como uma iniciativa inédita dos católicos no campo da educação popular.

Inspirado na experiência das Escolas Radiofônicas de Sutatenza, cidade colombiana, criadas pelo padre José Joaquim Salcedo, o bispo-auxiliar de Natal Dom Eugênio Sales, com o apoio da Ação Católica Brasileira, criou a Emissora de Educação Rural de Natal para promover a educação dos trabalhadores rurais. Essa experiência foi bem sucedida e se estendeu para várias cidades nordestinas.

A partir de Natal, Dom Eugênio Sales passou a dirigir o Secretariado de Ação Social da CNBB e, com a assessoria de Marina Bandeira que trabalhava no Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, articulou a atuação das emissoras de rádio católicas para que promovessem o desenvolvimento do trabalho de educação de base.

Logo depois, segundo Marina Bandeira, “Dom Távora, já então bispo de Aracaju, propôs a criação de um novo organismo, que se ocuparia em toda a extensão de educação popular. Teve o pleno apoio do presidente Jânio Quadros, que viu esse trabalho funcionando no interior de Sergipe e se propôs ajudar. Criou-se então o MEB, Movimento de Educação de Base, entidade patrocinada pela CNBB (inicialmente até o nome era Movimento de Educação de Base da CNBB), com verbas do Ministério da Educação, segundo convênio assinado com Jânio”.

Dom Helder foi com Dom Távora até o Palácio da Alvorada, em Brasília, para conversar com o presidente Jânio Quadros sobre o projeto do MEB. Logo no início da conversa ficou claro “o entusiasmo de Jânio pela idéia”. Depois de receberem a confirmação de que contariam com o apoio do governo federal para o MEB, os dois bispos sairam “vibrando” do encontro.

O objetivo do MEB não era simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes. Na formação dos educandos deveria ocorrer um processo de “conscientização” que começaria com a alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade através da ação comunitária dos trabalhadores: “Viver é Lutar”, sintetizava o título de uma cartilha do MEB, que trazia a proposta de aliar a alfabetização com a conscientização para a participação política, como pode ser lido em algumas de suas estrofes:

Seu José sabe que o povo
precisa se organizar,
que progresso, nesta vida,
sozinho não vai achar.
Reuniu seus companheiros,
p’ra um sindicato fundar.
Um sindicato decente
mostra o caminho da gente,
p’ra justiça procurar.

‘Lutemos unidos todos,
sem temor e sem vaidades;
pois unidos venceremos
as nossas dificuldades.
Unidos tudo podemos,
unidos seremos fortes;
a mão de Deus ajudando,
garanto, seremos fortes’.
Mutirão – segundo caderno de leitura
do Movimento de Educação de Base.

Como escreveu o professor Luís Eduardo Wanderley, que participou ativamente do MEB, foi a partir de iniciativas como essa que se redefiniu “a atuação prática dos cristãos na sociedade brasileira… Os leigos assumiram novas tarefas, trouxeram reflexões teóricas e teológicas para o interior da Igreja no Brasil e introduziram a questão política de uma maneira aguda, que iria se reascender nos anos pós-1970.”

A contribuição de Dom Hélder Câmara para o surgimento e a estruturação do Movimento de Educação de Base aparece bem ressaltada no relatório confidencial elaborado para subsidiar a decisão do Comitê Nobel do Parlamento da Noruega, que avaliou a possibilidade de conceder ao ex-arcebispo de Olinda e Recife o Prêmio Nobel da Paz, para o qual foi indicado entre os anos 1970 e 1974. Segundo o relatório elaborado por Jacob Sverdrup, professor de filologia da Universidade de Oslo, na Noruega:

“Deve-se mencionar o grande programa de educação de adultos, onde Hélder Câmara figura como protagonista. A elaboração do programa demonstra bem a filosofia de Câmara. O ensino era apenas um meio para tornar os alunos membros cientes e ativos da sociedade. Esse despertar social foi guiado num certo sentido – para libertar o povo das forças que o oprimiam. Através do ensino, o povo deveria ser ativado para um processo de desenvolvimento social”.

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Referências

BRUNEAU, Thomás. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974.
PILETTI, Nelson e PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997.
PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.
SVERDRUP, Jacob. “Relatório sobre Dom Hélder Câmara”. Prêmio Nobel da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.
WANDERLEY, Luiz Eduardo. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984.
* Walter Praxedes é doutor em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e professor de sociologia da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

Dom Helder Camara, 100 anos

Walter Praxedes

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Na noite de quarta-feira, 28 de janeiro de 2009, o Instituto Maximiano Campos, a Livraria Saraiva e a Editora Contexto abriram, em Pernambuco, as festividades do centenário de Dom Helder Camara, com o lançamento do livro, Dom Helder Camara. O Profeta da Paz, de Nelson Piletti e Walter Praxedes. Além de Antônio Campos e Walter Praxedes, compunha a mesa Zezita [Maria José Duperron Cavalcanti], a secretária de Dom Helder, testemunho vivo do ‘Santo Rebelde’ com quem conviveu, servindo, durante 35 anos.

Ao completar o centenário do nascimento de Dom Helder Camara, ocorrido em 7 de fevereiro de 1909, faz-se oportuno e justo recordar alguns momentos marcantes de sua trajetória e o testemunho de sua densa religiosidade e do seu compromisso com os excluídos.

Nascido em Fortaleza, Ceará, no seio de uma influente família de jornalistas, advogados, políticos e professoras, e na qual faltava um padre para confirmar a tradição das famílias ilustres do início do século, o jovem Helder Pessoa Camara foi ordenado sacerdote em 1931, aos “22 anos e meio”. Desde o início, Hélder Câmara combinou o seu apostolado com a ação política e, já em 1932, a convite de Plínio Salgado, ingressa na Ação Integralista Brasileira (AIB) – versão tupiniquim do fascismo italiano –, tornando-se o principal propagandista do movimento em seu estado.

A partir do final da década de 1930, o então padre Hélder passou por um longo e demorado percurso de conversão para as idéias democráticas e humanistas. O radicalismo fascista dos integralistas tornou-se inconveniente até para um regime ditatorial como o de Getúlio Vargas, que colocou a AIB na ilegalidade. A Igreja Católica tinha um pacto informal de colaboração com o Governo de Vargas e isso fez com que o Cardeal Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, na época a maior autoridade eclesiástica no país, ordenasse o afastamento do jovem padre Hélder Câmara da Ação Integralista Brasileira. Aqui é importante destacar duas importantes contribuições intelectuais na vida do padre Hélder: a leitura da obra Humanismo Integral, de Jacques Maritain, e a convivência, no Rio de Janeiro, com o intelectual e líder leigo Alceu Amoroso Lima, que também passava por uma transição para o pensamento democrático.

Na década de 1940, o Brasil passava por um intenso processo de industrialização e de urbanização, com grandes ondas migratórias do campo para as cidades e, após o fim da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, estava também democratizando a sua vida política sob forte influência dos movimentos sociais e do Partido Comunista nas áreas urbana e rural. Nesse cenário, a Igreja Católica começava a se deparar com a expansão das denominações protestantes, então, Padre Hélder Câmara propôs e organizou uma vigorosa participação do laicato católico na vida política do país através dos movimentos de Ação Católica, com ênfase nos específicos para a juventude, a exemplo da Juventude Operária Católica (JOC) e da Juventude Universitária Católica (JUC). Com isso, ele conseguiu difundir entre os católicos a idéia de uma missão temporal, de responsabilidade de todos com o cuidado com as condições de vida, com a integridade dos mais pobres, ao invés da preocupação exclusiva com a salvação da alma dos fiéis, que caracterizava o ideário católico até então. De acordo com as palavras de Thomás Bruneau:

Antes da ação da Igreja na promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade. A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição, incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes, cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos jovens e ativos (1974, pág. 147).

Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder defendia a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o Estado para a promoção de reformas sociais de base.

No mesmo período, agregou os bispos brasileiros na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que ele funda e comanda como Secretário Geral até 1964 e que viria a se tornar a instituição de mais influência sobre a atualização da inserção política e social da Igreja Católica no Brasil nos últimos 50 anos.

A condição de representante do episcopado brasileiro, na época, levou Dom Hélder a apoiar o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo Governo Federal, que se constituiu como uma iniciativa inédita dos católicos no campo da educação popular. O objetivo do MEB não era simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes. Na formação dos educandos, deveria ocorrer um processo de “conscientização” que começaria com a alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade através da ação comunitária dos trabalhadores.

Já como arcebispo de Olinda e Recife e bem-relacionado com a cúpula militar, que tomaria o poder no país após o golpe de 1964, assume uma difícil posição de “neutralidade e expectativa” que o leva a se encontrar várias vezes com os presidentes Castelo Branco e Costa e Silva, visando “aparar as arestas” no relacionamento entre a Igreja e o regime ditatorial, até passar a ser também perseguido em razão da defesa que fazia dos presos políticos. Dom Hélder teve a coragem de dizer “não” aos poderosos ao denunciar publicamente que o Regime Militar promovia torturas e o extermínio físico de membros da oposição ao governo. Sua atuação foi, de fato, heróica e destemida, um exemplo extraordinário de um homem indignado com as circunstâncias em que viviam os seus semelhantes em nosso país.

No plano internacional, Dom Hélder contribuiria para a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e, nos bastidores do Concílio Vaticano II (1962-1965), trabalharia em favor de reformas internas na Igreja Católica, mas procurando não entrar em confronto com as orientações do Papa Paulo VI, com quem mantinha uma grande amizade. Requisitado conferencista internacional, a defesa que fazia pelos direitos humanos, pelo fim da exploração dos países pobres pelos ricos e pela paz mundial valera-lhe inúmeros prêmios, distinções e doutorados Honoris Causa, concedidos pelas mais prestigiosas instituições mundiais, credenciando-o como candidato ao Prêmio Nobel da Paz nos anos 1970.

Após ser cogitado pelo embaixador Charles Elbrick, dos Estados Unidos, como um possível presidente do Brasil em uma virtual saída civil à ditadura militar, os ocupantes do poder trataram de evitar o crescimento do seu prestígio dentro e fora do país e conseguiram inviabilizar sua candidatura ao Prêmio Nobel através de uma sigilosa campanha que contou com a colaboração de empresários noruegueses e brasileiros, dentre os quais os donos do jornal O Estado de São Paulo, para influenciar na decisão do Comitê do Parlamento Norueguês, responsável pela atribuição do prêmio. Para silenciá-lo, o governo brasileiro proibiu que notícias a seu respeito fossem veiculadas na imprensa. Vários de seus colaboradores foram perseguidos, presos e torturados, um dos quais chegando a ser barbaramente assassinado, o jovem padre Antonio Henrique Pereira Neto, em um crime ainda não totalmente esclarecido.

Devido a uma trajetória polêmica e conturbada, vivenciada na intersecção entre religiosidade e engajamento político, o L’Osservatório Romano, órgão oficial do Vaticano, comparou Dom Hélder Câmara a São Francisco de Assis, vendo-o como “um homem de Deus, um homem de Cristo, um homem dos pobres…”. Os adversários ora o consideraram como um “defensor dos adeptos de Adolf Hitler no Brasil”, ora como um “Fidel Castro de batina”.

Para o estudioso do catolicismo brasileiro Ralph Della Cava, “não resta dúvida que Dom Hélder faz par com Getúlio Vargas como líder político consumado” e, ao lado dos cardeais Arcoverde e Leme, “… está entre os maiores líderes religiosos no Brasil dos últimos 100 anos” (Della Cava, 1975, pág. 34).

Foi pelo seu exemplo de vida que Dom Hélder se tornou esta figura emblemática inesquecível. O boicote que Dom Hélder sofreu por anos por parte do regime militar brasileiro; o fato dele ter sido preterido várias vezes para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo o silenciamento que o Vaticano impôs sobre ele, restringindo suas viagens internacionais e suas manifestações públicas, considero que são episódios secundários diante da grandeza de sua obra e do seu legado. Ele não deixou de fazer o que acreditava que fosse a sua missão enquanto teve condições para isso e deixou-nos uma grande herança, como a firmeza dos seus princípios, sempre combinada com uma atitude totalmente aberta para o diálogo. Dom Hélder sabia onde pretendia chegar com a sua voz e com o testemunho da sua vida e, nesse sentido, ele pode ser considerado um grande estrategista, pois usava a sua capacidade pessoal extraordinária para defender os posicionamentos políticos mais democráticos e socialmente generosos. Nessa empreitada, não podemos esquecer o seu incansável e esperançoso esforço como religioso para reformar a Igreja de Cristo, livrando-a dos compromissos com os poderosos e aproximando-a cada vez mais das necessidades das camadas populares.

Dom Hélder faleceu em Recife no dia 27 de agosto de 1999. Como exemplo de vida nos deixou a sua capacidade inigualável de dialogar e conviver com pessoas comuns, grupos políticos e até religiosos que o consideravam como adversário. Também transmitiu-nos sua firmeza para denunciar desmandos e para propor mudanças sociais profundas, inclusive na estrutura da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, marcou-nos a sua serenidade na busca do entendimento através de uma atuação política pacífica. Hoje, quando propomos o respeito às diferenças e a tolerância nas relações sociais, não estamos apresentando nenhuma novidade em relação ao discurso e à prática de Dom Hélder nas décadas de 1960 e 1970. Esse missionário soube preservar e transmitir valores que atualmente animam os espíritos mais generosos e comprometidos com a construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

Referências
BRUNEAU, T. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974.

DELLA CAVA, Ralph. “Igreja e Estado no Brasil do século XX: sete monografias recentes sobre o catolicismo brasileiro, 1916/1964”. Estudos CEBRAP, nº 12, São Paulo, 1975, pp. 5-52.

PILETTI, N. e PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997.

PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.

SVERDRUP, J. Relatório sobre Dom Hélder Câmara. Prêmio Nobel da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.

WANDERLEY, L. E. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984.