A presença da literatura na obra de Pierre Bourdieu

Walter Praxedes

Introdução

A teoria social construída por Pierre Bourdieu (1930-2002) sintetiza diferentes fontes intelectuais. A literatura é uma dessas fontes que foi combinada de forma criativa pelo sociólogo francês com a assimilação que realizou das obras científicas, filosóficas, artísticas e com a realização de pesquisas empíricas em busca da construção de suas representações sobre a realidade social. Com uma abordagem própria da  sociologia da literatura, discutirei a seguir as possíveis relações entre ciências sociais e literatura na obra de Pierre Bourdieu.

Quando lemos os livros, artigos científicos, textos de entrevistas e conferências de Pierre Bourdieu percebemos a forte influência que a leitura de obras literárias exerceu sobre o seu pensamento e na construção de suas categorias de percepção da realidade, sugestionando-o para a pesquisa de temas e problemas da realidade ou da teoria social e para a elaboração de hipóteses interpretativas. Segundo as palavras de Bourdieu,

“[…] las investigaciones en apariencia más formales de Virginia Woolf, Faulkner, Joyce o Claude Simon me parecen ahora mucho más “realistas” (si esta palabra tiene algún sentido), más verdaderas desde el punto de vista antropológico, más cercanas a la verdad de la experiencia temporal, que los relatos lineales a los cuales nos ha acostumbrado la lectura de las novelas tradicionales” (BOURDIEU; WACQUANT,, 1995, p. 152-153).

Um pressuposto inicial adotado é o de que a literatura tem uma importância e uma incidência muito mais extensiva na formação do pensamento de Bourdieu do que tem sido enfatizado pelos trabalhos dedicados à interpretação de sua obra, mesmo aqueles que tratam direta ou indiretamente de sua sociologia da literatura. A tese de doutorado de Speller (2017), publicada como livro com o título “Bourdieu e a literatura” é um trabalho abrangente que discute detidamente o método de pesquisa em sociologia da literatura presente nos textos reunidos na obra As regras da arte (BOURDIEU, 2002) enfocando desde aspectos epistemológicos até as concepções de políticas públicas educacionais propostos por Bourdieu, levando em consideração a sua recepção por estudiosos que fizeram trabalhos importantes em vários países. Casanova (2002) expande consideravelmente a teoria dos campos para investigar a emergência de uma “República mundial da literatura” sob a influência da literatura francesa desde o século XVI, mas também como reação pós-colonial à chamada “missão civilizadora” da França. Jurt (2004) pode ser considerado o mais entusiasta adepto da abordagem da teoria dos campos sociais ao estudo da literatura, enfatizando a importância da pesquisa sobre a gênese histórica dos campos literários, bem como o efeito que nele exercem as diferentes obras.  Cardoso de Lima (2009), considera a sociologia da literatura de Bourdieu reducionista e inadequada para a pesquisa das várias dimensões de uma obra literária.  Martins (2004) realiza uma síntese da discussão sobre a relevância e os limites do emprego do conceito de campo literário.

Problemas e hipóteses

Como problema central que orientou a elaboração deste ensaio discuto as homologias entre as obras literárias, na forma como foram lidas e recepcionadas por Pierre Bourdieu, com a sua obra sociológica. Dispersas em toda a obra de Bourdieu, encontramos citações de narrativas literárias sendo mobilizadas para ilustrar suas análises sociológicas como o fez citando passagens das obras de Balzac, Flaubert, Proust, Claude Simon, Virgínia Woolf e tantos outros autores. Desde a sua juventude as pesquisas teóricas e empíricas de Bourdieu, a começar pelas realizadas na Argélia, são informadas pelas obras literárias de forma mais frequente do que propriamente seria uma análise sociológica das obras literárias típicas de uma sociologia da literatura, encontrando nas “obras literarias indicaciones o vías de investigación prohibidas o disirlluladas por las censuras propias del campo científico (sobre todo estando, como lo estamos hoy día, dominados en las ciencias sociales por una filosofía positivista)” (BOURDIEU; WACQUANT, 1995, p. 152). Bourdieu também se dedicou à análise e interpretação sociológica da literatura, tomando a obra de Flaubert, especialmente o romance A educação sentimental, como objeto de investigação.

Em síntese, pode-se afirmar que a sociologia da literatura é uma dimensão importante na obra de Pierre Bourdieu, mas as narrativas literárias se fazem presentes de maneira mais frequente, com citações espalhadas em quase toda as suas obras sendo mobilizadas para ilustrar seus argumentos. Como afirmou Speller (2017, p. 175-176),

 “Bourdieu se inspirou em textos literários e escritores quando desenvolveu sua teoria. Ele encontrou soluções para os problemas de como comunicar entrevistas no estilo livre indireto de Flaubert. Ele foi inspirado por escritores que romperam com as narrativas lineares tradicionais, como Faulkner, nos Estados Unidos, e Robbe-Grillet, na França, para enxergar além das interpretações convencionais e relatos de histórias da vida. E ele encontrou na prosa em várias camadas de Proust, e na polionomasiologia de Flaubert, de Joyce ou de Faulkner, técnicas para ajudá-lo descrever a complexidade da realidade. O conceito-chave de Bourdieu, “campo’: foi, além disso, desenvolvido durante sua pesquisa sobre Literatura e cultura. Tudo isso prova que a Literatura e a Sociologia, embora opostas e, por vezes, conflitantes, têm muito a aprender uma com a outra”. 

A noção de campo social, por exemplo, já se encontra prenunciada por Balzac em Ilusões perdidas:

“A literatura está dividida, primeiro, em várias zonas, mas nossas sumidades estão repartidas em dois campos. Os escritores monarquistas são românticos, os liberais são clássicos. A divergência das opiniões literárias junta-se à divergência das opiniões políticas, e segue-se uma guerra com todas as armas, torrentes de tintas, sarcasmos a ferro afiado, calúnias pontiagudas, apelidos sangrentos, entre as glórias nascentes e as glórias decadentes. Por uma singular anomalia, os monarquistas românticos pedem a liberdade literária e a revogação das leis que dão formas convencionais à nossa literatura; ao passo que os liberais querem manter as unidades, o ritmo do alexandrino e as formas clássicas. Portanto, as opiniões literárias estão em desacordo, em cada campo, com as opiniões políticas”. (Balzac, 2010, p. 280)

Neste pequeno fragmento encontramos a representação das disputas estéticas e políticas entre os autores em busca de reconhecimento, que relegam os perdedores às posições consideradas ultrapassadas e decadentes. Na linguagem empregada por Bourdieu, Balzac realiza uma objetivação das estratégias de subversão, dos novos pretendentes ao ingresso no campo, reclamando seu direito de entrada, contra os já estabelecidos que se aferram às estratégias de conservação, defendendo as concepções dominantes visando a manutenção de sua posição no campo.

Nas páginas seguintes de Ilusões perdidas, o narrador apresenta o diálogo entre as personagens do jornalista e escritor Étienne Lousteau com Lucien de Rubempré, jovem poeta de origem provinciana e pobre que tenta se estabelecer na capital do País, repetindo a história “de mil a mil e duzentos jovens de província em Paris” (BALZAC, 2010, p. 246), situação vivida pelo próprio Bourdieu em sua juventude. O diálogo trata das relações de competição e conflito entre jornalistas, editores, livreiros, diretores de jornais, escritores, autores, atores, diretores, dramaturgos e empresários que lutavam entre si na  “horrível odisseia pela qual se chega a que se deve chamar, segundo os talentos, a voga, a moda, a reputação, o renome, a celebridade, a aceitação pública, esses diferentes degraus que levam à glória” (BALZAC, 2010, p. 290), prenunciando a disputa por reconhecimento social que Bourdieu denominaria como o capital simbólico em disputa no campo intelectual francês ainda em formação no século XIX.

A concepção segundo a qual a vida intelectual francesa era marcada pela luta entre os agentes em disputa no campo é enfatizada pelo próprio Balzac, que emprega literalmente o termo “campo” quando atribui ao experiente jornalista Lousteau a incumbência de advertir o jovem Lucien de Rubempré quanto aos sofrimentos que lhe serão impostos pelas situações conflituosas que encontrará pela frente ao se tornar também jornalista e escritor, e este responde resignado e confiante: “Lutar nesse campo ou em outro, terei de lutar.”  (BALZAC, 2010, p. 293) — “Lutter sur ce champ ou ailleurs, je dois lutter, dit Lucien”.

Bourdieu sistematiza essa noção de campo intelectual em seu ensaio “Campo intelectual e projeto criador”, publicado na França em 1966 e no Brasil em 1968, portanto, no início da formulação da teoria dos campos:

“Mas é no interior e por todo o sistema de relações sociais que o criador estabelece com o conjunto de agentes que constituem o campo intelectual num dado momento do tempo – outros artistas, críticos, intermediários entre o artista e o público, como os editores, os compradores de quadros ou os jornalistas encarregados de apreciar imediatamente as obras e torna-las conhecidas do público (e não de analisá-las cientificamente como o crítico propriamente dito), etc. – que se realiza a objetivação progressiva da intenção criadora, que se constitui esse senso público da obra do autor, pelo qual o autor é definido e em relação ao qual se deve definir”.  (BOURDIEU, 1968, p. 120)

Em uma citação que também pode ser considerada homóloga ao fragmento do romance Ilusões perdidas citado acima, o ensaio “Campo intelectual e projeto criador”, tem como epígrafe uma afirmação de Proust, em Sodoma e Gomorra, que também trata da relação de competição no interior do campo intelectual: “As teorias e as escolas se devoram reciprocamente, como os micróbios e os glóbulos, e asseguram por sua luta a continuidade da vida”.

Outros exemplos podem ser recordados para ilustrar a correspondência entre as obras literárias, a obra e até mesmo a trajetória de Pierre Bourdieu.. Em uma entrevista concedida à sua colaborada Yvette Delsaut, em novembro de 2001, dois meses antes do seu falecimento, questionado sobre alguns comportamentos aparentemente intransigentes de sua parte, Bourdieu responde: “O que me irrita um pouco é que possam crer que obedeço a uma irreprimível pulsão de gascão (que sem dúvida está presente em algumas de minhas manifestações, com freqüência um pouco fingidas…)  (BOURDIEU, 2005, p. 206). A rejeição a essa “pulsão de gascão” que Bourdieu se refere nesse trecho de sua entrevista pode ser considerado como uma rejeição às disposições atribuídas a um estereótipo dos falantes da variedade linguística do Sudoeste francês, a sua região natal, e que assim aparece caracterizada por Balzac em Ilusões perdidas: “Lucien tinha no mais alto grau o caráter gascão, astuto, corajoso, aventuroso, que exagera o bem e enfraquece o mal, que não recua diante de uma falha se ela o faz lucrar, e que menospreza o vício se dele pode fazer um degrau” (BALZAC, 2010, p. 40).

Adversários intelectuais e até alguns amigos atribuíam a Bourdieu essas disposições que Balzac coloca na personagem que é considerada o seu alter ego, Lucien de Rubempré, o protagonista de Ilusões perdidas. Jean-Claude Passeron, seu principal parceiro intelectual no início da carreira atribui ao amigo “a voracidade no exercício da profissão de pesquisador”, uma “obstinação impiedosa na conquista da notoriedade intelectual”, além de “seus abusos de autoridade” (PASSERON, 2005, p. 37).

Em seu Esboço de auto-análise Pierre Bourdieu realiza uma reflexão sobre o próprio habitus, assumindo algumas influências culturais atribuídas à sua origem regional:

“Sobretudo talvez pelo olhar dos outros, descobri aos poucos as particularidades de meu habitus, as quais, a exemplo de certa propenso ao orgulho e à ostentação masculinos, um gosto pronunciado pela querela, quase sempre um pouco encenada, a tendência a indignar-se “por ninharias”, hoje me parecem estar ligadas às particularidades culturais da minha região de origem, que fui percebendo e compreendendo melhor por analogia com o que lia a respeito do “temperamento” de minorias culturais ou linguísticas, como os irlandeses” (BOURDIEU, 2005, p. 113)

Além da influência regional, a origem familiar também compõe o exercício de reflexão de Bourdieu. De acordo com suas palavras, sua mãe era descendente de uma “grande família” camponesa e tinha uma grande “preocupação de respeitabilidade” e “respeito pelas convenções e pelas conveniências” (BOURDIEU, 2005, p. 112). A maneira como Bourdieu se identifica com Flaubert, assumindo essa identificação em seu Esboço de auto-análise, ao afirmar que “Flaubert ou Manet era alguém como eu”, não deixa dúvida quanto à associação da própria trajetória com a vida e a obra do romancista francês. O mesmo raciocínio realizado para identificar a influência de sua mãe em seu temperamento, Bourdieu emprega para interpretar a influência da mãe sobre Flaubert: “Essa mulher de cabeça forte, saída de uma família de pequena nobreza de província, transferira para seu filho todas as suas ambições de restabelecimento social” (BOURDIEU, 2002, p. 25).

A associação entre a própria trajetória com a do autor de A educação sentimental continua quando Bourdieu menciona as tristes lembranças de Flaubert do seu período de internato: “Desde os 12 anos colocaram-me em um colégio: ali vi o resumo do mundo, seus vícios em miniatura, seus germes de ridículo, suas pequenas paixões, suas pequenaS igrejinhas, sua pequena crueldade; vi o triunfo da força, misterioso emblema do poder de Deus” (Flaubert, citado por Bourdieu, 2002, p. 390). Em seu Esboço de auto-análise Bourdieu se inspira diretamente em Flaubert quando recorda as humilhações, as carências, as violências e a solidão sofridas durante o seu período de internato na cidade de Pau e depois em Paris: “[…] a experiência do internato desempenhou um papel determinante na formação de minhas disposições; principalmente pelo fato de me inclinar a uma visão realista (flaubertiana) e combativa das relações sociais…” (BOURDIEU, 2005, p. 118). Nesse período de sua vida, Bourdieu era chamado de “mau gênio”, chegando a receber mais de 300 suspensões e reprimendas durante sua vida escolar (BOURDIEU, 2005, p. 115)

Ao mencionar as personagens de Balzac, o jovem Eugene Rastignac, e de Flaubert, o jovem Frédéric Moreau, através da análise literária Bourdieu realiza indiretamente uma reflexão sobre sua própria trajetória, se referindo a personagens que vivenciaram condições sociais análogas às enfrentadas por ele no início de sua vida de jovem provinciano em Paris. Bourdieu chega a se referir “ao afluxo de uma população muito importante de jovens sem fortuna, oriundos das classes médias ou populares da capital e sobretudo da província, que vêm a Paris tentar carreiras de escritor ou de artista, até então mais estreitamente reservadas à nobreza ou à burguesia parisiense” (Bourdieu, 2002, p. 70), colocando em prática uma estratégia de busca de reconhecimento intelectual e de uma mobilidade social ascendente análoga à estratégia realizada por ele.

Na obra As regras da arte, publicada pela primeira vez em 1992, um estudo de P.G. Castex sobre A educação sentimental, é citado por Bourdieu, para recordar a atitude de Rastignac, que sonha em ser sepultado um dia no prestigioso cemitério Père Lachaise, como um desafio que um jovem provinciano “pequeno burguês em ascensão” lança à capital Paris (Bourdieu, 2002, p. 392), curiosamente se referindo ao mesmo cemitério que Bourdieu viria a ser sepultado dez anos depois.

As formas de percepção e representação da realidade presentes nas obras de Balzac, Flaubert e Proust exercem uma grande influência sobre a percepção da realidade e sobre a reflexão a respeito da própria trajetória realizadas por Bourdieu. Mas também ocorre que a trajetória de Bourdieu o leva a selecionar e considerar aqueles autores e obras com os quais se identifica.

Justificativas

Investigar a presença da literatura na obra de Pierre Bourdieu é uma tentativa de demonstrar que embora com abordagens diferentes a literatura e as ciências sociais podem ser intercambiadas na construção do conhecimento, possibilitando que os pesquisadores científicos elaborem hipóteses a partir da representação das relações entre personagens de uma narrativa, de suas intuições e sentimentos na forma como foram expressos pelos autores. Para Bourdieu, mesmo como registros diferentes, entre literatura e sociologia não existe uma “oposição irredutível” (BOURDIEU; WACQUANT; 1995, p. 152). Ao escrever sobre A dominação masculina, por exemplo, Bourdieu se inspirou “na lucidez inquieta e indulgente” dos romances de Virgínia Woolf, segundo ele, “seria preciso toda a acuidade de Virgínia Woolf e o infinito refinamento de sua escritura para levar até as últimas consequências a análise de uma forma de dominação inscrita em toda a ordem social e operando na obscuridade dos corpos, que são ao mesmo tempo lugares de investimento e princípios de sua eficácia”. (Bourdieu, 2003, p. 99).

Os escritores também podem se inspirar nos conhecimentos verificados através dos métodos científicos para a elaboração de suas narrativas. Mas Speller (2017, p. 113) chega a considerar que “os escritores estão, em certo sentido, à frente dos sociólogos na medida em que já romperam com a cronologia, com a ordem lógica dos acontecimentos e com narrativas unilineares que, em nossa memória subjetiva e experiência, podem ser borradas e ambíguas”.

A complementaridade entre os conhecimentos presentes na sociologia e na literatura foi abordada por Pierre Bourdieu (2011, p. 75-77) ao realizar uma “tradução em linguagem sociológica do conteúdo de A educação sentimental”, de Flaubert, obra na qual o autor, ao buscar “dizer a verdade sobre o mundo social”, evidencia de forma realista a estrutura social vigente, incluindo as estratégias de dominação das classes dominantes. “E é isso sem dúvida que faz com que a obra literária possa por vezes dizer mais, mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com pretensão científica” (Bourdieu, 2002, p. 48).

“En resumidas cuentas, creo que la literatura, contra la cual numerosos sociólogos, desde el principio y aún en la actualidad, han creído y creen que deben reafirmar el carácter científico de su disciplina (como lo explica Wolf Lepenies  [1991]  en Les Trois Cultures), está más adelantada, desde varios puntos de vista, que las ciencias sociales y encierra todo un acervo de problemas fundamentales —por ejemplo, la teoría de la narración— que los sociólogos deberían esforzarse por retomar y poner en tela de juicio, en vez de guardar ostentatoriamente sus distancias con respecto a formas de expresión y de pensamiento que ellos juzgan comprometedoras”. (Bourdieu; Wacqant, 1995, p. 152-153).

A literatura pode expressar a experiência individual como dotada de significados que transcendem sua singularidade, como uma representação figural da complexidade das relações sociais em um contexto histórico.  Mas como Bourdieu também sugere, “o encanto da obra literária deve-se sem dúvida, em grande parte, a que fale das coisas mais sérias sem pedir”, e por isso o narrador pode até se afastar da sequência de sua narrativa para apresentar uma digressão que sintetize o seu pensamento. É o que faz Flaubert, por exemplo, quando deixa momentaneamente de lado as dificuldades amorosas enfrentadas pelo protagonista de A educação sentimental, para apresentar ao leitor, em estilo ensaístico, um raciocínio que podemos considerar homólogo à teoria da alienação do jovem Marx, afirmando que “há situações em que o menos cruel dos homens se acha tão alheado dos outros, que era capaz de assistir, sem a menor emoção, ao desaparecimento do gênero humano” (FLAUBERT, 1959b, p. 92 )

A leitura sociológica de uma obra literária pode, assim, evidenciar o que o autor apresentou de forma difusa, metafórica, alegórica ou figural em uma narrativa. Por empregar a forma artística ficcional, o texto literário pode abordar aspectos da realidade social que ficariam vedados às metodologias empregas pelas ciências sociais.

No diálogo que realizou com Roger Chartier, Bourdieu (2011, p. 75), também se refere a Balzac como um autor que “chegou a considerar-se sociólogo, reivindicou tal qualificativo”, mas para ele foi Flaubert “o inventor da sociologia, o mais sociólogo dos romancistas” e, ainda, “o mais realista, do ponto de vista sociológico”.

Para Roger Chartier essa relação entre sociologia e literatura não deixa de ser problemática:

“[…] em determinado momento, quando o discurso sociológico não está constituído como tal, a literatura – ou, talvez, outras produções simbólicas – ocupa todo o terreno. Ela é, ao mesmo tempo, literatura e, de algum modo, sociologia. A partir do momento em que se entra em uma situação de competição, concorrência e dualismo, a sociologia pode ser estigmatizada como um discurso inferior, uma vez que ela é incapaz de traduzir na linguagem mais legítima, que é a da literatura, objetos que não deixam de ser comum a ambas.” (CHARTIER, In BOURDIEU; CHARTIER, 2011, p. 78)

Bourdieu (2011, p. 79) também avalia que “os romancistas estão, muitas vezes, adiantados, por exemplo, na compreensão das estruturas temporais, na compreensão das estruturas da narrativa, na compreensão dos usos da linguagem”, em relação aos sociólogos, que, em seu trabalho, necessitam da exposição descritiva e controlada das evidências empíricas buscadas para testar suas hipóteses diretrizes.

Objetivos

Como objetivos que orientaram a elaboração deste ensaio, através da investigação das homologias entre as obras literárias e as obras científicas das ciências sociais, mesmo que minimamente, buscamos contribuir para a superação das barreiras disciplinares que dificultam a construção do conhecimento sobre as relações sociais. Com os procedimentos adotados poderemos estabelecer as correspondências entre a teoria e as pesquisas sociológicas de Bourdieu com as obras literárias.

Do ponto de vista educativo, o desenvolvimento desta pesquisa visa demonstrar como o acesso às fontes literárias é uma dimensão muito importante nos processos formativos, pois como afirmou Antonio Cândido a literatura é uma necessidade universal imperiosa e um direito das pessoas de qualquer sociedade, por considerá-la fundamental a um processo de humanização que confirme “no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor…” (MELLO E SOUZA, 1986, p. 117). Concebidos como uma modalidade de sistema simbólico de comunicação intersubjetiva, os romances abordados envolvem “…um comunicante, no caso o artista, um comunicado, ou seja, a obra; um comunicando, que é o público a que se dirige; graças a isso define-se o quarto elemento do processo, isto é, o seu efeito”. (MELLO E SOUZA, 2000: 20). Este último, no momento de elaboração da obra, só pode ser virtual, uma intenção do autor, consciente ou não, muito embora seja presumido neste estudo como pedagógico. (PRAXEDES, 2001, p. 13)

Metodologia

A metodologia empregada nesta pesquisa foi amplamente desenvolvida na sociologia da literatura de Pierre Bourdieu, notadamente presente em sua obra As regras da arte (BOURDIEU, 2002). Por outro lado, dando continuidade à pesquisa que nos levou à elaboração da tese de doutorado “Elucidação pedagógica, história e identidade nos romances de José Saramago” (PRAXEDES 2001), o método de investigação adotado é um empréstimo do pensamento de Lucien Goldmann (1967) que propôs em sua obra a pesquisa sobre as homologias existentes entre as correntes intelectuais, as criações literárias e a realidade social e histórica moderna. Como mencionamos anteriormente (PRAXEDES, 2001, p. 15), para Goldman existe “…na história da cultura ocidental, uma relação de homologia, assaz estrita, entre as grandes correntes filosóficas e as grandes criações literárias” (GOLDMANN, 1972: 33). Segundo este autor, através da forma romanesca realiza-se “…a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista nascida da produção para o mercado. Existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance, tal como acabamos de definir, e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral; e, por extensão, dos homens com os outros homens, numa sociedade produtora para o mercado (GOLDMANN, 1967: 16).

Como procurei demonstrar com a comparação das passagens citadas da obra Ilusões perdidas, de Balzac, e do ensaio de Bourdieu “Campo intelectual e projeto criador” através da investigação dessas fontes pudemos perceber as homologias entre a formulação inicial da teoria sociológica dos campos e a representação do universo intelectual parisiense exposta por Balzac em Ilusões perdidas. Conforme escreveu Speller (2017, p. 114), para Alain Caillé “a obra de Bourdieu seria uma espécie de continuação sociológica de La Comédie humaine, de Balzac”.

Posteriormente Bourdieu expressou sua insatisfação com essa primeira formulação de sua teoria, considerando que a mesma enfatizava excessivamente a importância das interações entre os agentes em relação no interior dos campos, em detrimento da formulação que ele passou a considerar mais apropriada para a sua teoria, que prioriza a representação das “relações objetivas entre as posições relativas que uns e outros ocupam no campo, ou seja, a estrutura que determina a forma das interações” (Bourdieu, 2002, p.  208).

Nos textos e entrevistas concedidas por Bourdieu constantemente nos deparamos com representações que ele formula sobre as situações e as relações sociais que podem ser encontradas tanto diretamente nas obras literárias, como simplesmente inspiradas pela leitura dessas obras. O que considero interessante destacar nessa intertextualidade entre as obras literárias e a obra de Bourdieu é, sem dúvida, a presença de uma cultura livresca literária na formação do seu habitus, mas também a maneira como o autor seleciona fragmentos das obras lidas por ele que podem ser relacionados com a sua própria trajetória e experiências de vida.  Através da análise literária Bourdieu realiza uma reflexão sobre a própria trajetória. Outro aspecto da maneira como Bourdieu elabora suas representações, é percebermos como tais representações são referidas ou inspiradas no repertório intelectual proporcionado pela vivência na cultura francesa e que por isso também aparecem expressas nas obras da literatura francesa.

Considero relevante a “leitura sistemática da representação do mundo social subjacente” às obras literárias, como sugere Florent Champy (2000, p. 346) em relação à obra de Marcel Proust. Mas seria um equívoco considerar o estudo de uma criação literária como se fosse a observação, análise e interpretação de uma sociedade existente, ou que apenas as grandes narrativas literárias modernas da Europa conseguem representar a realidade de forma relevante. Um aspecto que torna relevante uma obra de literatura é a representação construída pelo autor e que pode ser considerada homóloga às representações que constam nas obras científicas, contribuindo, assim, para que sejam transpostas as fronteiras entre as diferentes modalidades de produção de conhecimento.

Como salienta Boaventura de Sousa Santos (2008, p. 86-87), na construção de um novo paradigma de conhecimento, a criação científica “assume-se como próxima da criação literária ou artística, porque à semelhança destas pretende que a dimensão activa da transformação do real (o escultor a trabalhar a pedra) seja subordinada à contemplação do resultado (a obra de arte). Por sua vez, o discurso científico aproximar-se-á cada vez mais do discurso da crítica literária.”

Podemos, então, verificar inúmeras homologias existentes entre as representações científicas presentes na obra de Pierre Bourdieu com as representações expressas nas obras literárias, mas não para atestar a coincidências entre as mesmas, e sim para problematizar as relações entre as diferentes modalidades de representação do real.

As representações construídas por Balzac, Victor Hugo, Flaubert, Zola e Proust, por exemplo, salientam como a sociedade francesa é profundamente desigual e hierarquizada em obras que são contemporâneas à criação da sociologia na França. Em sua obra, Pierre Bourdieu combina a busca da representação realista através da literatura com a construção de uma metodologia para a investigação científica da realidade social. A profissão de sociólogo, obra dedicada à reflexão sobre os fundamentos da atividade de pesquisa social, publicada pela primeira vez em 1968, se inicia com uma longa citação de um texto de Augusto Comte, em que o fundador da sociologia propõe que “o método não pode ser estudado separadamente das pesquisas nas quais é utilizado”, afirmação que Bourdieu concorda, afirmando, logo em seguida à citação, que “nada haveria de acrescentar a esse texto” (Bourdieu, 1999, p.7-8)

As ciências sociais representam a realidade com base na construção de conceitos, problemas e verificação de hipóteses nas evidências empíricas observadas na realidade e que também são construídas como relevantes, de acordo com os pressupostos metodológicos adotados.  Por outro lado, as representações construídas em uma obra literária da perspectiva intuitiva e ficcional do autor também podem levar em consideração as evidências observadas na realidade, como fica demonstrado pelas pesquisas prévias realizadas pelos romancistas citados, antes da escritura de suas obras.

Referências

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Resumo

“A presença da literatura na obra de Pierre Bourdieu” é um projeto de pesquisa teórica que parte do pressuposto de que as ciências sociais e a literatura, embora com abordagens diferentes, podem ser combinadas na construção do conhecimento sobre o mundo social. A partir do enfoque próprio da sociologia da literatura, investigaremos como problema central quais as homologias que podem ser estabelecidas entre a obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) e a literatura.  Para Bourdieu (2002, p 48), a obra literária pode “por vezes dizer mais, mesmo sobre o mundo social, que muitos escritos com pretensão científica”. A partir da verificação da hipótese de que ocorrem inúmeras interações e correspondências entre a obra de Bourdieu e a literatura, buscamos alcançar os objetivos de contribuir para a superação das barreiras disciplinares que frequentemente separam a arte e a ciência, dificultando, assim, a construção do conhecimento sobre as relações sociais; e, de uma perspectiva educativa, demonstrar como o acesso às obras literárias é também uma dimensão muito importante nos processos educativos e de construção do conhecimento científico. A investigação proposta neste projeto de pesquisa será realizada através da análise e interpretação de fontes bibliográficas, envolvendo narrativas literárias publicadas em livros, artigos científicos, ensaios, dissertações e teses acadêmicas e livros. A metodologia empregada nesta pesquisa aborda as homologias existentes entre as correntes intelectuais, as criações literárias e a realidade social e histórica moderna.

 

Palavras-chave: Sociologia; Literatura; Homologias; Pierre Bourdieu.

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Edward Said leitor de Erich Auerbach

Walter Praxedes

Lendo a obra do crítico literário e ativista defensor dos direitos humanos Edward Said aprendemos como os saberes atravessam fronteiras identitárias, polinizam as culturas e promovem o florescimento de novos conhecimentos.

Edward Said

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Nascido em 1 de novembro de 1935 em Jerusalém, na Palestina, Edward Said ainda jovem migrou com sua família para viver no Cairo, Egito, após a criação do Estado de Israel, em 1948. Filho de uma família abastada, ele pode estudar nas mais prestigiosas universidades dos Estados Unidos e se tornar professor de Colúmbia, Nova York.

Um dos intelectuais mais influentes do Século XX, em virtude do humanismo e qualidade literária de sua obra, Said também ficou conhecido pelo seu engajamento em defesa dos direitos do povo palestino, até falecer em Nova York em 25 de setembro de 2003, acometido por uma leucemia.

Esse trânsito geográfico e cultural foi responsável pela complexa e sofisticada formação intelectual de Said, sem que isso jamais compensasse o sentimento que o acompanhou sempre de uma “perda desorientadora” que desestabiliza a consciência das pessoas que vivem uma condição de exílio.

Em seu livro Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente, Said recorda como a sua experiência pessoal o motivou a escrever. Segundo as suas palavras “a vida de um árabe palestino no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos, é desanimadora”, pois “a teia de racismo, dos estereótipos culturais, do imperialismo político e da ideologia desumanizante que contém o árabe ou o muçulmano é realmente muito forte, e é esta teia que cada palestino veio a sentir como seu destino singularmente punitivo” (Said, 1990, p. 38).

Erich Auerbach

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Crítico literário de geração anterior à de Said, Erich Auerbach nasceu em 9 de novembro de 1892, em Berlim, Alemanha, em uma rica família de origem judaica e na maturidade também teve que conviver com a necessidade de “transcender os limites nacionais ou provinciais” na condição de exilado (Said, 2001, p. 59). Lutando como soldado do exército alemão na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Auerbach foi gravemente ferido, mas se recuperou e passou a se dedicar à carreira universitária.

Originalmente formado em direito, Auerbach realizou o doutorado e se dedicou à filologia românica, atuando como docente da universidade de Marburg, até ser exonerado pelo regime nazista, em 1935, e migrar para a Turquia, onde passou a lecionar na Universidade de Istambul. Em 1947 Auerbach migrou para os Estados Unidos, para atuar como professor e pesquisador de Teoria Literária nas universidades da Pensilvânia, Princeton e Yale, até falecer em New Haven, em 13 de outubro de 1957. (Auerbach, 2012, p. 377).

O problema da representação da realidade na literatura ocidental

Como estudioso da literatura, Edward Said se tornou um profundo admirador da teoria construída por Erich Auerbach para a interpretação dos textos literários. Em 1969 Said e sua esposa Mariam chegaram a traduzir o texto “Filologia da literatura mundial”, publicado por Auerbach na Alemanha, em 1952, para refletir a respeito das diferentes representações sobre a realidade histórica.

O mesmo objetivo orientou a produção do livro Mimesis, escrito durante a Segunda Grande Guerra, quando o autor vivia em Istambul, e publicado em alemão em 1946, discutindo uma diversidade muito grande de textos literários, desde aqueles atribuídos a Homero, na antiguidade, até algumas obras clássicas do século XX, como as de Proust e Virgínia Wolf.

É muito significativo que Edward Said estava atento para o que chamou de “centralidade da Europa” no pensamento não só de Auerbach, mas também de Lukács e Adorno, autores que ele lia com igual atenção, e que, no seu entendimento, deixavam a descoberto “uma nova consciência geográfica de um mundo descentrado ou multicentrado, um mundo não mais selado dentro de compartimentos estanques de arte, cultura ou história , mas misturado, confuso, variado, complicado pela nova e difícil mobilidade das migrações, por novos Estados independentes, novas culturas que emergem e desabrocham” (Said, 2003, p. 226), trazendo para o debate intelectual as demandas materiais, simbólicas e as diferentes formas de resistência e protesto das classes e povos subalternos.

Mas esta evidenciação de um limite político da obra de Auerbach, paradoxalmente também expressa sua grande contribuição teórica, ao demonstrar, na obra Mimesis, segundo Said (2007, p. 145), “que a mente humana, ao estudar as representações literárias do mundo histórico, só pode realizar esse estudo… a partir da perspectiva limitada do seu próprio tempo e do seu próprio trabalho. Não é possível nenhum método mais científico e nenhum olhar menos subjetivo…”.   Por isso Said se concentrou em recuperar os procedimentos investigativos adotados por Auerbach, que no seu entendimento possibilitavam “captar a experiência humana e seus registros escritos em toda a sua diversidade e particularidade” (Said, 1995, p. 410).

Auerbach apresentou uma síntese da sua abordagem do texto literário no último capítulo de Mimesis, sua principal obra dedicada à “interpretação da realidade através da representação literária ou “imitação””. Para tanto, na sua visão, é necessário que o intérprete selecione em um conjunto de textos de uma época as representações expressas diretamente nos próprios textos. (Auerbach, 2013, p. 499-501).

A leitura de Mimesis realizada por Edward Said adota como ponto de partida da interpretação do texto literário uma perspectiva próxima ou derivada de Erich Auerbach, segundo a qual “para sermos capazes de compreender um texto humanista, devemos tentar entende-lo como se fôssemos o autor desse texto, vendo a realidade do autor, e assim por diante, tudo pela combinação de erudição e simpatia que é a marca da hermenêutica filológica.” (Said, 2007, p. 117)

O orientalismo e a representação do “outro não-europeu”

A influência dos procedimentos interpretativos adotados por Auerbach na pesquisa realizada por Edward Said fica bem evidenciada já na introdução de Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente. Para Said as representações sobre um “outro não-europeu” se constituem como o ponto de partida de suas análises e levam à conclusão de que

[…] o discurso cultural e o intercâmbio no interior de uma cultura que costuma circular não é “verdade”, mas representação… A própria linguagem é um sistema altamente organizado e codificado, que emprega muitos dispositivos para exprimir, indicar, intercambiar mensagens e informação, representar e assim por diante. Em qualquer exemplo, pelo menos da linguagem escrita, não existe nada do gênero de uma presença recebida, mas sim uma re-presença, ou uma representação. (Said, 1990, p. 33)

Em seguida, Said continua acompanhando de perto a maneira como Auerbach trabalhava:

Decidi, portanto, examinar não só os trabalhos eruditos mas também as obras literárias, as passagens políticas, os textos jornalísticos, livros de viagens, estudos religiosos e filológicos. Em outras palavras, minha perspectiva híbrida é amplamente histórica e “antropológica”, considerando que eu acredito que todos os textos são materiais e circunstanciais em maneiras que variam (é claro) de gênero a gênero e de período histórico a período histórico. […] A minha análise emprega leituras textuais detalhadas cuja meta é revelar a dialética entre o texto ou autor individual e a complexa formação coletiva para a qual a sua obra é uma contribuição. (Said, 1990, p. 34-35)

Os resultados do trabalho interpretativo de Said foi a demonstração de como o “Oriente” foi construído na experiência da Europa ocidental “como um lugar de romance, de seres exóticos, de memórias e paisagens obsessivas, de experiências notáveis” (Said, 1990, p. 13).

Tais  representações possibilitaram o nascimento do “Orientalismo” como um campo de estudos criado para o sistema colonial europeu “…negociar com o Oriente – negociar com ele fazendo declarações a seu respeito, autorizando opiniões sobre ele, descrevendo-o, colonizando-o” (Said, 1990, p. 15) a partir do pressuposto de uma identidade europeia “superior em comparação com todos os povos e culturas não-europeus” (Idem, p. 19), considerados atrasados.

A partir da apropriação da obra de Auerbach, particularmente do conceito de “representação da realidade”, Said analisa, evidencia e questiona as representações europeias sobre o “Oriente”, para buscar novas alternativas para o estudo das diferentes culturas e povos “desde uma perspectiva libertária, ou não repressiva e não-manipulativa.” (Said, 1990, p. 35)

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SAID, Edward W. Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

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______. Humanismo e crítica democrática. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

A compulsão pela leitura e outros ensaios insólitos

A compulsão pela leitura


Walter Praxedes

Meses atrás, enquanto aguardava o horário de embarque em um vôo para Maringá, encontrei no aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro, um ex-professor dos tempos de graduação, que chegava de uma conferência em Portugal e esperava um vôo para uma capital do Sul do País, onde receberia uma homenagem. Nossa conversa durou o tempo que faltava para o seu embarque, em torno de uma hora, e despertou-me para o problema da compulsão pela leitura entre os acadêmicos.

Para evitar constrangimentos, vou comentar o tema a partir de algumas confidências do meu estimado ex-professor, sem, contudo, apresentar detalhes que poderiam levar à sua identificação pelos leitores, uma vez que se trata de assunto de sua vida privada.

Depois de muitos anos de pesquisa e ensino em grandes universidades do Brasil e do exterior, e de ter publicado duas dezenas de obras que estão entre as mais prestigiosas das ciências humanas em nosso país, o Professor Z, é assim que vou nominá-lo, confessou-me que se cansou da disciplina intelectual que o levava a ler e a reler tudo que lhe caía nas mãos, de textos clássicos a artigos científicos e relatórios de pesquisas recentes, dissertações e teses, passando pelas infindáveis produções de seus alunos e orientandos, além das incontáveis mensagens que congestionavam o seu correio eletrônico.

Como um portador de obesidade mórbida que realiza uma intervenção cirúrgica para a redução do tubo digestivo, o Professor Z saiu de casa certa manhã e vendeu por qualquer preço todos os seus livros, incluindo os de sua própria autoria, para o primeiro sebo que se dispôs a retirar imediatamente o acervo de sua residência.

Foi, segundo ele, a maneira mais rápida que encontrou para desobstruir dois quartos e os corredores do seu apartamento não tão pequeno, e de tornar o ambiente mais propício à habitação, sem o volume exagerado e os fungos da cultura ocidental impressa que acumulara.

A partir do raciocínio – singelo para um estudioso de ciências humanas – de que na maior parte da História os humanos não precisaram da escrita para se comunicarem entre si, e de que para bilhões de habitantes atuais do planeta a escrita simplesmente não existe, nosso professor tomou a decisão de ignorar por completo as imposições da indústria da palavra escrita, impressa ou virtual, e seus lançamentos contínuos.

O mais difícil, contou-me, foi livrar-se do vício obsessivo-compulsivo pela leitura. Desde a adolescência um dos princípios que orientavam a sua vida cotidiana era a máxima “se algo foi escrito e publicado, é necessário que seja lido”.

Quando decidiu desintoxicar-se dos efeitos da decodificação excessiva de sinais gráficos, para ele isso foi tão penoso como livrar-se da dependência química de álcool, nicotina ou comida.

Depois da venda da sua biblioteca resolveu cancelar suas várias assinaturas de jornais diários, revistas semanais de variedades e publicações especializadas nos cinco idiomas que domina. Também deixou de abrir as mensagens que recebia pela Internet. Passou, então, a se comunicar com os colegas de trabalho, amigos e alunos apenas por telefone ou pessoalmente.

O primeiro dia sem ler até que não foi difícil passar, segundo a descrição do Professor Z. Ele lecionou pela manhã uma aula há muito memorizada, almoçou em casa com a esposa e filhos e dormiu um pouco até o meio da tarde. Saiu, então, para passear pelas ruas da cidade, tomou um suco de goiaba em um quiosque, um café expresso em uma padaria, e nem percebeu que ao voltar para casa já era noitinha. Jantou em companhia dos filhos, pois a esposa havia saído para uma reunião profissional. Assistiu ao jornal da noite na televisão, um capítulo de telenovela e um documentário sobre golfinhos. Tomou um banho e dormiu assim que deitou, antes que a esposa tivesse chegado.

No dia seguinte não deu aulas e teve a primeira recaída. Ao sair novamente para passear pelo centro da cidade parou por incontáveis minutos diante dos jornais expostos em uma banca. Foi um dia que demorou muito para passar, segundo suas recordações, deixando-o entediado e irritadiço. No terceiro dia do regime de restrição total à leitura a que se impusera, passou o dia todo em reunião na congregação de sua faculdade e chegou em casa exausto, jantou pouco, conversou com o filho mais velho que precisava de dinheiro para pagar o conserto da moto e assistiu televisão até se recolher para o banho e o sono. A esposa estava em casa e sua companhia ajudou-o a não se lembrar dos livros. No quarto dia percebeu que estava se acostumando à nova vida.

Ao final do primeiro mês sentiu-se livre e com um ânimo novo. Por conta própria deixou de tomar a medicação anti-depressiva receitada pelo seu médico contra o seu permanente humor intratável. Com isso melhorou a sua convivência com os familiares e amigos de todas as horas. Escrevo “amigos de todas as horas” porque antes do seu rompimento com a palavra escrita só mesmo esses o suportavam na intimidade, reconheceu o professor em suas confidências, que já me pareciam surpreendentes e excessivamente detalhadas.

Atualmente o Professor Z participa de um grupo de ajuda mútua que se reúne semanalmente para conversar e, assim, contribuir para que os seus membros se libertem da compulsão pela leitura. Nestes tempos de ditadura da palavra escrita o lema do grupo não poderia ser mais surpreendente e inviável para um professor: “evite a primeira palavra escrita”.

Carlos Saura sempre

Walter Praxedes

Carlos Saura (1932-)
Carlos Saura (1932-)

Assisti a alguns filmes do cineasta espanhol Carlos Saura na década de 1980. Voltei a assisti-los agora, após um intervalo de 30 anos.

A sensação de aceleração da passagem do tempo e a representação do espaço planetário como estreitado pela globalização, sentimentos que nos envolveram nestas últimas três décadas, não foram suficientes para que diminuísse o encantamento com a memória que os filmes de Saura nos transmite.

E é este encantamento com a memória o tema que transforma o reencontro com A prima Angélica em um poema cinematográfico; ou que nos faz duvidar que seja possível esquecer nossos ressentimentos com as situações trágicas da vida, como ocorre com as crianças órfãs de Cria Cuervos, tendo ao fundo o som tornado inesquecível de Por que te vás, da cantora Jeanette.

Para o cinema de Saura as décadas de 1980 e 90 não foram nada perdidas. Mas o sucesso hollywodiano de Carmen e o virtuosismo do cineasta pra retratar as sucessivas crises vividas pela sociedade espanhola em filmes como Deprisa, Deprisa e Taxi, não suplantaram a sua capacidade de transpor para a tela a dor e a desagregação social provocadas pela longeva ditadura do general Franco, nem o seu otimismo nada ingênuo com a lenta transição para a democracia no início de uma nova época para os espanhóis, como alegoricamente aparecem em Mamãe faz cem anos, que tanto nos comove como nos faz rir.

filmes carlos saura

Após recordar alguns dos mais conhecidos filmes de Carlos Saura, fico com a sensação de que são tantos e tão extraordinários aqueles não mencionados que gostaria de convidar o leitor a deixar de lado os lançamentos mais recentes da indústria cinematográfica para se reencontrar com a poesia na forma de cinema, e com um cineasta que aos 82 anos continua a trabalhar com a sensibilidade e a maestria estética que o tornaram para sempre inesquecível.


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Ódio, amizade, namoro, amor, casamento: a vida cotidiana nos contos de Alice Munro

Walter Praxedes

alice

Lemos lentamente os contos de Alice Munro. Aproximamo-nos aos poucos das vivências que habitam a sua escrita. De preferência em silêncio, com todos os eletrônicos dormindo seu sono quase impossível e depois que as crianças também dormiram. O cansaço que restou do esforço da rotina diária ainda não levou embora o mínimo de concentração. Foi também dessa maneira que muitos dos contos foram escritos por esta escritora que nos chega da zona rural de Ontário, no interior do Canadá.

Podemos permanecer assim por poucas páginas. Mas já é o bastante para nos envolvermos no estilo direto e detalhista da escrita de Alice Munro. Como se entre profundidade e leveza só pudesse existir conciliação.

O diálogo de duas amigas em uma praia remota do Canadá nos aproxima de toda a intimidade possível entre pessoas amigas que falam sobre seus sentimentos de angústia e esperança, lamento e aceitação, tentando sobreviver longe dos “surrados refúgios masculinos com seus odores furtivos mas penetrantes, a aparência acanhada mas resoluta de resistência aos domínios femininos”.

alice contosO ritmo lento da leitura também contribui para que não deixemos passar desatentamente algumas palavras, orações, parágrafos ou mesmo páginas inteiras que possam abreviar o fim da introspecção trazida pelos livros de Alice Munro, publicados com o título de uma brincadeira de criança: “Ódio, amizade, namoro, amor, casamento”; ou de um sonho convencional e às vezes impossível de muitos homens e mulheres: “O amor de uma boa mulher”.

A vida cotidiana de mulheres, homens e crianças de diferentes gerações e classes sociais transformados em suas personagens aparece em cada conto como “o próprio centro do bem viver”, levando ao paroxismo aquela idéia do filósofo Charles Taylor, discutida no livro As fontes do self, de que as civilizações modernas se baseiam na importância atribuída ao cotidiano na vida humana.

O pano de fundo dos contos de Alice Munro penso que é a idéia de que a vida cotidiana deva ser vivida com dignidade.  A própria família pode ser definida como uma forma de sociabilidade baseada na convivência cotidiana com vínculos de afetividade, comprometimento e cuidado. A menina que recebeu uma educação cristã presbiteriana se transforma na escritora atenta aos mínimos detalhes das vivências conflituosas e opressivas. Nada que contrarie as possibilidades de se conviver em família sem a perda da dignidade entre os seus membros deve permanecer velado.

Mas não vamos encontrar nos contos de Alice Munro generalizações que possam encobrir as sutilezas da busca de cada ser singular pelos vínculos fraternos, onde quer que eles possam ser mais inesperados ou ilusórios, em meio aos mais intensos conflitos no cotidiano familiar ou profissional.

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A tentação do plágio

Walter Praxedes

Para expiação do pecado capital do mundo do conhecimento que é o plágio, um primeiro passo pode ser a simples confissão. Nos livramos da culpa do plágio citando a fonte de uma informação ou argumento.

Quando um autor perde a capacidade de resistir ao mal o plágio se consuma. O ato de plagiar é então considerado um crime hediondo. Em seu julgamento o réu será acusado de premeditação, falta de escrúpulos, desonestidade, falta de ética profissional. Aos poucos os argumentos condenatórios resvalarão para o campo da moral. No comportamento anterior do réu serão buscados indícios de vileza, vulgaridade e lascívia. Com tão pungente peça acusatória o veredicto final só poderá ser a condenação ao ostracismo intelectual.

É claro que a defesa poderá sempre alegar que o crime foi passional, argumentando que o acusado não resistiu a um impulso irracional de apropriação indevida da criação alheia e agiu por amor, não por inveja ou cobiça.

Se um texto é uma espécie de filho que colocamos no mundo, a moral nos ensina que o melhor é que não seja fruto de um incesto. O plágio é um incesto que realizamos com um irmão ou irmã de ofício, que nos seduziu através do seu texto. A atração por plagiar é como um desejo incestuoso do qual nos afastamos se resignando à imperfeição do nosso próprio texto.

Quer seja o plágio considerado como um vulgar crime motivado pela falta de ética, ou como um ato passional, e até mesmo um incesto, no mundo das letras não conseguimos evitar um sentimento misto de repulsa e compaixão pelo criminoso plagiário, considerado mais uma pobre vítima de uma tentação demoníaca.

Ao autor considerado pelos pares como sério, consistente e inovador pode ser relevada uma falta até grave em sua vida privada. Dificilmente, porém, lhe será concedido o perdão por um plágio comprovado e às vezes apenas presumido.

Podemos, então, concluir que uma interdição tão severa como a que paira sobre o ato de plagiar só pode mesmo ser explicada pela existência de um desejo de transgressão que tenha a mesma intensidade.

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Das comunicações vigiadas à reconstrução da democracia


Walter Praxedes

Sempre pensamos que a globalização é a época das comunicações instantâneas entre todas as regiões do planeta. Agora precisamos acrescentar que essa instantaneidade é também vigiada via satélite.

Houve um tempo, não muito distante, em que a maior acusação que poderia ser feita contra os então chamados países comunistas da hoje já extinta União Soviética e do leste europeu, era a da falta de liberdade dos seus habitantes. Seus estados eram acusados de exercer uma vigilância policial sobre a vida das pessoas, violava suas correspondências, gravava suas conversas ao telefone e seguia os seus passos para onde quer que fossem. Os nomes da KGB soviética (sigla russa para Comitê de Segurança do Estado), e da temida Stasi, polícia política e secreta da Alemanha oriental, representavam as mais invasivas, opressivas e odiosas agências de espionagem da vida cotidiana dos indivíduos.

Mas os Estados Unidos venceram a Guerra Fria, a União Soviética foi extinta, foi destruído o Muro de Berlin. O “comunismo” teria mesmo que fracassar, pois não respeitava os direitos humanos à liberdade e à privacidade. Seria impossível imaginarmos que os seres humanos se submeteriam indefinidamente à opressão de ter as suas correspondências lidas e viver sendo monitorados por anônimos agentes dos serviços secretos.

Então veio a difusão em larga escala das tecnologias informacionais e de comunicação. Seduzidos pela praticidade e pelo culto da tecnologia, bilhões de seres humanos espalhados pelo planeta ingressaram em uma rede de informação e comunicação com seus computadores pessoais e telefones celulares dotados de acesso à Internet, redes sociais, correio eletrônico. E assim se submeteram espontaneamente à mais poderosa e eficiente rede de espionagem, franqueando aos estados e seus serviços secretos todas as informações que achávamos tão opressivo e odioso que os países da Cortina de Ferro roubassem dos seus habitantes.

Da mesma forma como acabou a ilusão no socialismo burocrático e policial da antiga União soviética, quem sabe agora ocorra o fim da ilusão na democracia ao estilo norte-americano, baseada em espionagem, terrorismo de estado, perseguição, tortura, guerra, massacre de populações civis como ocorreu no Iraque e no Afeganistão, patrocínio a golpes de estado no mundo todo e muito cinismo, afinal, os EUA ainda se intitulam os defensores da liberdade no mundo.

Já se falou que a democracia é uma forma de convivência social e política que deve ser reconstruída a cada geração. Chegou o momento e a nossa vez de a reconstruirmos sem monitoramento das comunicações, sem tortura e sem pobreza.

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Um país sem passado

Walter Praxedes

… O passado é cheio de vida e seu rosto irrita, revolta, fere, a ponto de querermos destruí-lo ou pintá-lo de novo. Só queremos ser mestres do futuro para podermos mudar o passado. Lutamos para ter acesso aos laboratórios onde se pode retocar as fotos e reescrever as biografias e a História.
Milan Kundera. O livro do riso e do esquecimento.

No dia do velório do ex-todo-poderoso empresário das telecomunicações vários ex-combatentes da luta pela democratização do país declararam publicamente seu pesar pelo falecimento daquele senhor que havia sido um verdadeiro nacionalista, alguém que amara o seu país mais do que todos, e que foi um dos principais artífices da democratização e da integração nacional, um grande defensor da cultura e da liberdade de expressão.

Vi e ouvi depoimentos com o conteúdo acima pronunciados por alguns companheiros que ocupam postos importantes no governo com o mesmo constrangimento que de vez em quando, por força do ofício de professor, revejo algumas gravações de depoimentos de militantes torturados em épocas passadas (não estou mais seguro de que tenha ocorrido nesse passado não tão distante algo que possa ser nomeado como “ditadura militar”, ou mesmo de que o empresário falecido tenha se beneficiado do apoio que dava ao regime ditatorial), que eram levados a público em rede de televisão para se declararem arrependidos pelo envolvimento em atividades subversivas contra a pátria e denunciarem ex-companheiros que continuavam realizando ações terroristas.

Penso que chega a ser uma obrigação ética de quem não foi torturado absolver de qualquer culpa os arrependidos que renegavam a própria trajetória em um depoimento à televisão para escapar da dor provocada pelas sessões de tortura e salvar a vida. Apesar disso, depois desses episódios, como forma de autopunição, vários arrependidos fugiram para o esquecimento e se transformaram em sombras de si mesmos.
Talvez tenhamos também o dever de relevar as palavras e gestos afoitos dos companheiros ocupantes de postos importantes no governo. Mesmo que esses atuais arrependidos não estejam sofrendo ameaças à sua integridade física. É possível que num futuro não muito distante os seus nomes sequer sejam lembrados, pois acho que eles estão se transformando em sombras de si mesmos.

Mas é provável que nesse mesmo futuro seja muito bem lembrado e estudado nas escolas o nome e a obra do grande empresário das telecomunicações que entrou para a História como o artífice da democratização e da integração nacional do país, um grande defensor da cultura e da liberdade de expressão.

P.S.: Para escrever sobre um país que reinventa diariamente o seu passado não é necessário citar nomes de pessoas, lugares ou datas que acabarão no esquecimento.

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Para que serve a literaturaWalter Praxedes

Conta-se que no final da Segunda Guerra Mundial, quando chegaram num campo de concentração que contava com inúmeros prisioneiros inocentes, os soldados de uma das divisões das tropas aliadas surpreenderam alguns dos seus inimigos nazistas sentados e calmamente lendo uma das obras mais importantes e humanistas da literatura universal: nada menos do que Fausto, de Goethe.

A leitura daquele livro não tornava seus leitores menos culpados pelo horror que estava sendo cometido por eles próprios. Também não impedia que cada um daqueles soldados literatos cumprissem  com suas atribuições de prender, torturar e matar seus semelhantes como nenhum outro animal além do humano é capaz de fazer.

Nada mais desconfortante para os defensores da literatura como forma de humanização do que a idéia de que o homem pode combinar a satisfação estética sentida após a leitura de uma peça de Shakespeare com uma prática anti-humana, perversa e cruel.

Apesar disso, como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um de nós “…aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.

A literatura serve, por certo, para dar prazer e satisfação para todos, mas só os bons levam a sério suas mensagens humanistas: os demais permanecem indiferentes. Bons livros não convencem uma pessoa má a melhorar. Pode-se supor que alguém que tenha sido pago para assassinar, na sua infância tenha sido um leitor entusiasmado de Monteiro Lobato.

As mensagens humanistas dos livros só atingem as pessoas predispostas para a sua recepção. É provável que os romancistas estejam condenados a “pregar aos convertidos”, a convencer aos convencidos, como tinha o costume de escrever o sociólogo Pierre Bourdieu.

Mesmo assim, um pioneiro investigador dos segredos humanos como Freud não dispensava os conhecimentos propiciados pela literatura. Para o fundador da psicanálise “…os poetas e romancistas são aliados preciosos, e seu testemunho deve ser tido em alta estima pois eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas com as quais nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar. Eles são para nós, que não passamos de homens vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois se banham em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência.”

Com tudo isso, não deixo de pensar que após a leitura de um livro como Levantado do Chão, de Saramago, que descreve o sofrimento e a luta dos trabalhadores rurais portugueses, nenhum dirigente do Fundo Monetário Internacional deixará de impor aos países devedores as medidas econômicas que levam a fome e o sofrimento para milhões de pessoas em todo o mundo.

Talvez a literatura sirva mesmo é para convencer os convencidos a permanecerem contra todas as formas de opressão do humano. Se servem para tanto, isso já é um grande bem, pois, embora aqueles que não praticam o bem continuem difundindo o mal, não conseguirão jamais impor a idéia de que ser humano é ser apenas como são.

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Aos prolixos, excluídos e solitários que publicam na rede

Walter Praxedes

Os prolixos

É difícil percebermos quando nos tornamos prolixos. No dia de sua diplomação o nosso novo presidente até reconheceu que nunca havia falado por apenas cinco minutos. Foi uma exceção.

Escrever também pode tornar-se uma obsessão. Isso ocorre quando as palavras que digitamos e aparecem na tela não fazem concessão e exigem sempre mais. Cobram intermináveis complementações, esclarecimentos, adequações, aquela expressão exata. Muitas vezes tudo isso é desnecessário, pois o leitor vai sempre preencher os brancos do texto que lê com a sua imaginação e o seu discernimento. Mas não, o autor prolixo considera como essencial emendar, fundamentar e ilustrar até que o leitor se canse e descubra a verdade do mouse.

Pela escrita podemos fugir da realidade com o pretexto de investigá-la. É assim que suplantamos os limites do existente. Analisar, descrever, interpretar e explicar se revelam, então, vícios incorrigíveis.

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Os excluídos

No Brasil dos anos trinta, apenas algumas centenas de escritores publicavam nos jornais e revistas de norte a sul do país. Agora são centenas de milhares de escritores que reclamam o direito de expressão pública.

Tudo indica que a rede será transformada em um veículo perene, uma vez que vem crescendo o número de pessoas que escrevem, enquanto os canais de divulgação mais prestigiosos tendem para a centralização.

Escrever e publicar na Internet faz esquecermos que os veículos mais lidos e tomados a sério estão fechados para a turba de digitadores implacáveis que compomos.

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Os solitários

Quando publicamos na rede lançamos inúmeras garrafas ao mar com um  pedido de socorro. Esta imagem pode ser usual, mas me parece irresistível e apropriada. Desde o instante em que lançamos a primeira garrafa passamos a cultivar a esperança de que alguém a encontre. Isso quase aconteceu comigo quando uma leitora enviou-me uma mensagem instigante: “Li o seu artigo sobre o professor universitário e achei-o muito interessante numa primeira leitura”. Não é fácil se entregar a um desconhecido, reconheço.

Quando compramos um livro, podemos conferir a procedência da obra, a credibilidade da editora, o currículum do autor. Nas grandes editoras os autores são mais conhecidos. Acho impensável um raciocínio do tipo: “Li o livro de Saramago e achei-o muito interessante numa primeira leitura”. Simplesmente confiamos. Podemos ser efusivos, amar ou odiar um texto de um escritor célebre desde a primeira leitura das primeiras linhas. Quanto aos desconhecidos que habitam o mundo virtual é preciso evitar um engano. Nunca se sabe quem está do outro lado da rede.

Mas ocorre também de uma de nossas garrafas virtuais ser encontrada. Então, uma resposta que recebemos e interpretamos como sincera, substitui os leitores anônimos, sem rosto ou opinião que desconhecemos ou que nunca conquistaremos, nos livrando da sensação de esquecimento por algum tempo. Por isso continuamos lançando garrafas ao mar.