A burocratização do professor universitário e outros ensaios sobre a universidade

A burocratização do professor universitário

Walter Praxedes

Em uma carta ao professor Fernando de Azevedo, datada de 13 de novembro de 1935, o sociólogo Gilberto Freyre confessa ao amigo que jamais assumiria “deveres definitivos de professor” e se explica: “tenho medo de me burocratizar – e a burocracia pedagógica é a mais esterilizante”.

Qualquer professor universitário sabe que suas obrigações rotineiras o deixam muito longe de realizar o seu projeto de vida como alguém voltado para a busca do conhecimento e para a ação educativa.

Membro de comissões de inquéritos administrativos, autor de inúmeros e inúteis relatórios e participante de reuniões intermináveis, o professor universitário tem seu tempo de pesquisa e de ensino roubado. Some-se a tudo isso o tempo dedicado às articulações políticas em defesa ou ataque à sanha competitiva dos pares e encontraremos um pseudo-educador que precariamente pesquisa, escreve e leciona.

Como já advertia Florestan Fernandes nos anos setenta, o professor universitário corre o risco de deixar de ser um investigador, um cientista, para tornar-se um mero funcionário com horário marcado e ponto para assinar, deixando, assim, embaixo do tapete do cumprimento das normas a sua covardia, mediocridade e falta de criatividade.

Sufocado pela burocracia e corrompido pela competição por cargos e prestígio institucional, resta ao professor universitário tornar-se repetidor mecânico daqueles pensadores que conseguiram fazer de seus projetos de vida o oposto do que nós estamos fazendo com o nosso.

A sentença para a nossa decadência já foi proclamada por Hegel: “Naquilo com que um espírito se satisfaz, mede-se a grandeza de sua perda”.

A competição meritocrática da vida universitária pode até produzir gênios, mas todos nós sabemos como produz também neuróticos e esquizofrênicos. A concentração obsessiva facilmente se transforma em introversão narcisista. O medo de ousar na busca do novo tem nos tornado a cada dia mais conformistas.

Acredito que temos que pensar em novas possibilidades de reeducação daqueles que têm como missão a educação das novas gerações. Venho tentando imaginar alternativas que apontem para a nossa reeducação. Ainda não cheguei a nenhuma conclusão que possa ser apresentada para o debate, mas não tenho dúvidas de que a responsabilidade pela passividade, evasão ou oportunismo e falta de compromisso com o conhecimento por parte de muitos dos nossos alunos pode ser atribuída aos exemplos que lhes apresentamos.

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Entrevista ao jornalista Bruno Franco, Jornal da Universidade Federal do Rio de Janeiro  – UFRJ, em 27 de outubro de 2010.

Bruno Franco: Em seu artigo A burocratização do professor universitário, o senhor critica o excesso de obrigações rotineiras que inviabilizariam o projeto de vida de professores voltados à ação educativa e à produção de conhecimento. Quais seriam essas obrigações?

W.P. Os professores e pesquisadores ingressaram na carreira universitária para construir conhecimento, formar novos pesquisadores e profissionais, estabelecer diálogo e parcerias com os segmentos externos à universidade através da extensão. Todas as atividades que subtraem o tempo e a energia que os professores dedicam a estas atividades deveriam ser minimizadas ou eliminadas. Alguns exemplos: preencher os inúmeros relatórios desnecessários que jamais serão lidos ou que só servem para o controle e a vigilância do trabalho intelectual por parte das instituições; participar de comissões de sindicância com reuniões puramente formais e inúteis. Indicado pelo meu departamento, há alguns anos participei de uma sindicância que durou um semestre, porque foi feita uma denúncia de que havia uma carcaça de cpu com o tombo da universidade na casa de um aluno. O aluno ganhara a carcaça já descartada no ferro velho da universidade. Foi necessário o trabalho de 4 professores, 2 servidores e um representante dos alunos para a coleta de dezenas de horas de depoimentos, até a conclusão de que o aluno acusado e que fora expulso da universidade era inocente. Mas existem muitas atividades administrativas necessárias e relevantes que funcionam na prática como subterfúgios quando os docentes ficam desmotivados para o ensino e a pesquisa exatamente porque aparentam ser imprescindíveis.. Cada instituição tem o seu histórico de atividades que jamais deveriam justificar um professor ausentar-se da sala de aula, do seu laboratório, do atendimento aos alunos ou mesmo de suas atividades de lazer fora do horário de trabalho.

Bruno Franco: A institucionalização da competitividade entre professores, e as instituições às quais pertencem, gera efeitos perniciosos para o ensino e a pesquisa no país?

W.P. Escrevi em um artigo que o resultado da concorrência no mercado acadêmico combina uma precária satisfação com a própria obra com o ressentimento em relação à obra que não realizamos, mas que acena da janela do currículo Lattes de um concorrente real ou imaginário. A competição pode motivar alguns espíritos à busca de um melhor desempenho, mas o seu efeito colateral é a desagregação dos grupos de pesquisa, departamentos e de toda a universidade. Encarar os nossos colegas e alunos como adversários e competidores por uma posição mais prestigiosa, por bolsas de produtividade e cargos leva à destruição da solidariedade necessária para a construção de conhecimento. Melhor seria se aprendêssemos a trabalhar coletivamente, assumindo as limitações individuais e a importância do diálogo para superá-las.

Bruno Franco: O modelo atual de avaliação de produtividade acadêmica prioriza a ampla divulgação em conferências e revistas, sobretudo estrangeiras. Em que medida essa orientação prejudica outras atividades acadêmicas como o ensino, o acompanhamento acadêmico dos estudantes e as atividades de extensão? Seria necessária uma readaptação do modelo, de forma a valorizar mais essas atividades acadêmicas que vêm sendo depreciadas?

W.P. A produção científica universitária é resultado da obediência, convicta ou a contragosto, das normas vigentes nos órgãos oficiais de financiamento à pesquisa, comitês editoriais das revistas científicas e associações acadêmicas profissionais, que nas palavras de Edward Said, no livro Representações do intelectual, transformam os professores “em técnicos de sala, altaneiros e impossíveis de compreender, contratados por comissões, ansiosos para agradar a vários patrocinadores e agências, eriçados com credenciais acadêmicas e com uma autoridade social que não promove debate, mas estabelece reputações e intimida os não-especialistas”.

Muitos excelentes professores não são considerados “pesquisadores”. Professores que contribuem para a formação intelectual e exercem influência marcante sobre a identidade dos seus alunos não necessariamente se dedicam ao que é oficialmente denominado como “pesquisa científica”.  O poder dos pesquisadores com alta produtividade dentro do mercado acadêmico, impõe como critério de avaliação da competência dos professores a publicação de artigos em veículos considerados prestigiosos, nacionais e principalmente internacionais. Esse critério leva à desvalorização e até à humilhação de vários educadores extraordinários, levando-os algumas vezes ao desespero, à depressão e ao absenteísmo. Na minha instituição a publicação de um artigo científico em veículo indexado nacional agrega 200 pontos ao relatório bianual de atividades de um professor, o mesmo que lecionar 400 horas de aulas, ou aproximadamente 6 disciplinas de 68 horas cada, com a participação de centenas de acadêmicos, aos quais lecionamos, orientamos, avaliamos e fazemos sugestões às suas produções e assim por diante. Esta é uma distorção que leva nitidamente à desvalorização do ensino.

É mais útil para o país que um pesquisador produza numerosos artigos ou se concentre em produzir uma ou poucas obras, que necessitem de um maior tempo de maturação, mas mudem o estado-da-arte na sua área de conhecimento científico?

W.P. A pergunta parte de um paradoxo que não precisa ocorrer na prática. Muitos pesquisadores são ótimos elaboradores de artigos para jornais e revistas ou papers para apresentação em congressos. Outros trabalham vários anos na escrita de uma obra mais aprofundada e extensa.  Todas as modalidades de trabalho acadêmicos são válidas, sejam elas dissertações, teses, monografias, artigos, livros, ensaios, romances, poemas, partituras, etc, e nenhum modelo de trabalho intelectual pode ser erigido como o único correto e prestigioso, levando à desvalorização das demais formas de produção acadêmica, como ocorre atualmente, quando um artigo publicado em tal revista internacional se transforma no critério de relevância de uma produção, desqualificando as demais.

Há um desequilíbrio entre a produção de pesquisas voltadas ao mercado e pesquisas que não tragam grandes retornos econômicos? É natural e desejável que isso ocorra?

W.P. Esse desequilíbrio é gerado pelo controle que as organizações empresariais exercem sobre a atividade de pesquisa, e não propriamente pela produção de um conhecimento que possa ser utilizado no mercado (que é uma forma de sociabilidade historicamente vigente nas sociedades modernas). A ciência é uma forma de produção de conhecimento internacional. A maior parcela das pesquisas científicas realizadas no mundo ocorre em laboratórios e fundações controladas por empresas transnacionais localizadas nos países mais ricos do hemisfério norte. O cientista se transformou em mais um trabalhador alienado, para usarmos uma expressão clássica da sociologia do trabalho. Aproximadamente a metade das investigações tem fins militares. As pesquisas científicas realizadas nos laboratórios das empresas multinacionais e agências da indústria bélica transformam a atividade de pesquisa voltada para melhorar as condições de vida no planeta em atividades marginais e pouco influentes na vida social. É nesse contexto científico internacional que devemos entender a relevância de construirmos na universidade brasileira aqueles conhecimentos que sirvam de contraponto e resistência à produção científica dominante, cujos fins estratégicos são a dominação política e a lucratividade. Para isso, ao invés de nos destruirmos mutuamente através da competição cotidiana por prestígio, cargos e recursos, deveríamos criar e fortalecer os grupos de pesquisa e demais coletivos e associações universitárias realmente interessados na construção de novos conhecimentos e não na ocupação das posições de privilégio nas hierarquias sociais.

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Sobre ensino superior, favor e compadrioWalter Praxedes

O ensino superior brasileiro atual, nas modalidades pública e privada, se estrutura através de duas formas de sociabilidade distintas, muito embora complementares e quase nunca excludentes uma em relação à outra.

Na universidade pública o que solda os relacionamentos entre docentes, servidores e alunos, muito mais profundamente do que a formalidade das regras institucionais, é a relação de troca de favor. O favor gera a dependência da pessoa, que passa a ter suas atitudes toleradas como exceções à  regra que atendem ao interesse mútuo e se completa com a cumplicidade entre os agentes. Na universidade pública o favor está presente em todas as instâncias, mesmo que combinado com o mérito acadêmico. É o “toma-lá-dá-cá” do cotidiano, quase sempre disfarçado e, de preferência, nunca explícito. É assim que se criam as identidades dos grupos de pressão e de interesse que tornam privado o que apenas formalmente é público. Alguém se recorda de uma atividade política ou acadêmica relevante que tenha ocorrido no interior das nossas universidades sem resultar do compadrio, do  conluio, em suma, da troca de favor?

Max Weber, em sua conferência “A ciência como vocação”, proferida no já distante ano de 1918, alertava para o fato de que “nenhum professor universitário gosta que lhe recordem as discussões sobre nomeação, pois raramente são agradáveis.”

A troca de favor é um traço característico da sociabilidade entre os brasileiros, como nos ensina Roberto Schwarz no descortinador ensaio “As idéias fora do lugar”, que serviu para lembrar-nos  de que “…com mil formas e nomes, o favor afetou no conjunto a existência nacional… Esteve presente por toda parte, combinando-se às mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção européia, não devia nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade e o funcionário para o seu posto.”

O ensaísta se refere ao nosso século XIX, mas alguém pode se levantar para dizer que a interpretação acima não se refere à docência universitária na atualidade, tanto no ensino público quanto no privado?

As idéias continuam fora do lugar. Enquanto abraçamos as idéias que propõem as formas mais generosas de sociabilidade, continuamos com a prática do “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Cabe aqui recordar ao leitor um editorial do jornal Folha de São Paulo (13/10/1997): “Sabe-se que, em alguns cursos, muitas defesas de tese são rituais meramente formais, viciados por práticas de favores, compadrio e corporativismo. Hoje, a composição da banca de examinadores é uma atribuição do orientador, que escolhe aqueles que deverão julgar seu orientado. Trabalhos acadêmicos, que deveriam ser apreciados segundo critérios de impessoalidade e mérito, podem continuar subordinados a interesses de grupos e panelas”.

É preciso um parágrafo para lembrar que no ensino privado as indicações, imprescindíveis para o exercício da profissão, e os conluios internos devem estar submetidos ao resultado do caixa. Quem ingressa no ensino privado, como aluno, professor ou empresário, sabe que está entrando numa relação de compra e venda de serviços educacionais. Esta relação de troca mercantil de equivalentes é que torna possível a atividade de ensino no seu interior.

Levando-se em consideração que a autonomia da pessoa, a universalidade da lei, a cultura desinteressada e a remuneração objetiva não estão entre as opções realmente existentes, o que é melhor, troca de favores ou de equivalentes monetários?

Trocar favor pode parecer uma opção mais atraente, ainda mais porque é uma forma de sociabilidade que está presente no nosso inconsciente colonial. As relações mercantis, como nos ensina Marx, transformam os relacionamentos humanos em simples troca de mercadorias.

Entre o céu da proteção do grupo e o inferno da competição do mercado pode haver muito mais do que vã sociologia. Pode haver a respeitabilidade apenas aparente daquele que faz parte do grupo dos escolhidos para ingressar na universidade bem pouco pública; ou a alegria passageira daquele que se entrega ao canto das sereias do sucesso no mercado educacional. Muito melhor seria a superação de ambas as formas de sociabilidade, ou pelo menos da hipocrisia que nos faz agarrar a uma ou à outra como tábua de salvação e única verdade.

Parafraseando André Gide, resta desculpar-me reconhecendo que tudo isso já foi dito, mas, como ninguém escuta, é preciso repetir sempre.

A solidão do professor universitário

Freqüentemente caímos no engano de debater a estrutura da universidade brasileira como uma construção sem construtor, como um aparelho inumano que corrompe os agentes que estão no seu interior.

Muito mais proveitoso para a análise seria considerar que os nossos atos e as relações que estabelecemos no mundo acadêmico se objetivam em estruturas cujas finalidades fogem ao controle dos seus autores. A matriz dessas estruturas monstruosas que recebem o nome de universidades está entre os próprios professores universitários e suas incríveis relações sociais com os demais servidores, alunos e com a comunidade externa. Acho que não devemos nos eximir de nossas responsabilidades pela criação dessas estruturas coercitivas e corrompidas culpando apenas os governos e o Banco Mundial.

Em sua experiência cotidiana, a conduta desse ser social, o professor universitário, é a de alguém que pesquisa e profere aulas, orienta os novos pesquisadores e participa da gestão universitária para ganhar a vida e alcançar a glória, mesmo quando edulcora sua posição na divisão do trabalho com uma representação revolucionária sobre os próprios atos.

Talvez um pouco antiga, uma reflexão de Mario Vargas Llosa sobre a nossa hipocrisia parece-me a cada dia mais atual:

“Embora seja extraordinário que esteja inscrito num partido revolucionário e cumpra com as tarefas sacrificadas da militância, se autodefina como marxista e sempre proclame sua convicção de que o imperialismo norte-americano – o Pentágono, os monopólios, a ofensiva cultural de Washington – é a fonte de nosso subdesenvolvimento… é um candidato permanente às bolsas das fundações Guggenheim e Rockefeller (que quase sempre consegue)… Quem é ele? O intelectual progressista”. [1]

Podemos até imaginar que a nossa atividade é revolucionária. Efetivamente, porém, qualificamos a força de trabalho que na melhor das hipóteses irá alienar-se ao capital e, na pior, engrossará o exército de desempregados.

As conseqüências das nossas ações educativas são imprevisíveis e quase sempre não coincidem com nossas intenções. Ao aluno que ministro aulas de sociologia marxiana no curso de Direito está à espera um posto de delegado, e quero crer que não contribuo para a formação de futuros torturadores.

Acho que precisamos reconhecer que a verdade da nossa práxis imaginária está na práxis real. Não é por que se arroga o monopólio do saber sobre a realidade natural e social  que o professor universitário deva deixar de ser estudado e interpretado como um burocrata típico que difunde os seus interesses específicos como se fossem universais, escondendo os bastidores de um cotidiano marcado pelas disputas mais mesquinhas e desleais.

Competindo com os próprios pares e amigos, como um político hábil, o professor universitário é aquele que consegue conversar horas a fio, até com quem possui intimidade, sem deixar escapar suas reais intenções, suas estratégias para publicar, conseguir uma bolsa de estudos ou um convite para viajar ao exterior.

Pode até soar antipático, mas vou recordar uma análise cortante do professor Milton Santos, para quem, no Brasil,  “…a vida intelectual ainda está organizada em torno de clubes, de clãs e do enturmamento, sendo às vezes mais útil passar as noites em reuniões sociais com os colegas que mandam, do que “queimar as pestanas”, como antigamente se dizia, em frente aos livros”. [2]

A concorrência leva-o a se isolar em seu labor intelectual. Solitário e desprezado, muitas vezes o caminho que encontra para conviver com os colegas, também solitários e a quem também despreza, é se conflitando. Competir e conflitar é uma forma de convivência que pode até ser tensa, mas satisfaz a necessidade de presença do outro. Por isso construímos verdadeiros infernos departamentais, sem os quais muitos de nós não conseguem viver.

Não quero ficar me escondendo atrás das citações, outro costume nosso bem típico, mas não consigo deixar de concluir com um trecho de uma carta de Martin Heidegger para Hannah Arendt, que expressa a solidão característica da nossa condição, e que tem levado muitos de nós ao desespero, à depressão, ao vício e até ao suicídio:

“Se em geral me retraio há um longo tempo, isso se dá porque me deparei em todo o meu trabalho com uma falta de compreensão aflitiva e não pude ter mais do que umas poucas experiências pessoais belas em minha atividade docente. Já perdi aliás há muito tempo o costume de esperar dos assim chamados alunos um agradecimento qualquer ou mesmo uma meditação sincera.” [3]

 

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P.S.: Agradeço os comentários e sugestões dos professores Roberto Romano e Paulo Roberto de Almeida ao meu artigo Ensino superior, favor e compadrio, publicado no número anterior da nossa revista. É um alento saber que os dois reconhecem que a vida universitária brasileira entrou num descaminho que quase sempre encobrimos para que possamos reproduzir o existente sem culpa.

[1] LLOSA, Mário Vargas. “O intelectual barato”. In: LLOSA, M.V. Contra vento e maré. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora, 1985.

[2] SANTOS, Milton. “A era da inteligência baseada na máquina”. In: TRINDADE, Azoilda L. (org.) Multiculturalismo – mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro, DP&A, 1999.

[3] LUDZ, Úrsula (org.). Hannah Arendt – Martin Heidegger: Correspondência. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2001.

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O intelectual sem qualidades

paris 611

Walter Praxedes

Ainda não debatemos suficientemente sobre os limites do conhecimento científico e da capacidade dos cientistas. Até o presente, nenhuma teoria científica foi eficaz o bastante para expressar a densidade da vida, como os sentimentos envolvidos em um olhar, o olhar sobre o outro e sobre si mesmo. Nenhum esquema racional dá conta de esgotar os significados das relações entre as existências individuais e as sociedade e épocas em que transcorrem, os prazeres e sofrimentos provocados pelos nossos pequenos ou grandes vícios, o amor e o desamor, os sentimentos confusos em relação à morte, a alegria e a tristeza de viver, a crueldade e a piedade; enfim tudo que pode nos despertar os sentidos diante do que consideramos belo, que pode nos causar dor ou prazer, ou que nos leva à entrega da fé é estranho ao saber metódico e racional.

No entanto, persiste nas sociedades contemporâneas um verdadeiro culto ao cientista como um ser de exceção, a quem cabe o privilégio incontestado de viver para construir e analisar símbolos e significados para tudo explicar racionalmente. Um culto que é o produto de vários esquecimentos, dentre as quais é o bastante recordarmos a lista incompleta com os limites do conhecimento científico apresentada acima; e a singela constatação de que é a divisão do trabalho, que separa a teoria da prática social, que leva à supervalorização da mente em relação ao corpo, e por conseqüência da atividade de pensar em relação à de fazer.

É esse mesmo esquecimento que legitima a hierarquização dos membros da sociedade entre aqueles que se dedicam às atividades mentais e os demais, que dedicam o seu trabalho no campo ou na cidade, à produção das condições materiais necessárias para a existência de todos.

Muito mais adequada parece ser a idéia de Antonio Gramsci, para quem, “não há atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um “filósofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para suscitar novas maneiras de pensar” (Gramsci, 2006, p. 53). Em resumo, para Gramsci, “todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens tem na sociedade a função intelectual” (Gramsci, 2006, p. 18).

Nas sociedades contemporâneas, a formação dos intelectuais profissionais ocorre nas relações que eles mantêm com os outros membros da sociedade, a exemplo da maneira como se formam todos os humanos, dos quais muitas vezes nos tornamos tão distantes que ignoramos as circunstâncias em que vivem.

Os pesquisadores e professores são formados, assim, através da disputa por cargos, que são posições no mercado de trabalho de prestação de serviços educacionais, ou no mercado nem tão dissimulado da venda de pesquisa considerada científica para o Estado ou para as empresas. Para sermos aceitos nos tornamos obsessivamente obedientes às normas da ABNT, da ortografia e gramática oficiais e das leis do Estado, nos submetendo à dominação simbólica baseada na autoridade da ciência.

Na produção científica universitária a cooptação dos intelectuais se traduz na obediência, convicta ou a contragosto, das normas vigentes nos órgãos oficiais de financiamento à pesquisa, comitês editoriais das revistas científicas e associações acadêmicas profissionais, que nas palavras de Edward Said, transforma os professores “em técnicos de sala, altaneiros e impossíveis de compreender, contratados por comissões, ansiosos para agradar a vários patrocinadores e agências, eriçados com credenciais acadêmicas e com uma autoridade social que não promove debate, mas estabelece reputações e intimida os não-especialistas” (Said, 2005, p. 77).

A disputa por prestígio é a competição por uma forma de reconhecimento que o narcisismo não dispensa como alimento da nossa vaidade. Um narcisismo autoengrandecedor das próprias capacidades de pensamento e elaboração que se alimenta da transformação de tudo e todos em objeto para o livre pensamento de um ser que se considera um sujeito acima dos simples mortais.

O resultado da concorrência no mercado acadêmico combina uma precária satisfação com a própria obra com o ressentimento em relação à obra que não realizamos, mas que acena da janela do currículo Lattes de um concorrente real ou imaginário.

A crença em uma liberdade de espírito fictícia se torna o fermento da vaidade da qual dificilmente escapamos e impede reconhecermos a nossa falta de independência em relação aos poderes estabelecidos do Estado e das empresas, graças a uma autocensura inconsciente e esterilizante que é ao mesmo tempo produto e produtora de um saber fragmentário e disciplinado que tenta se legitimar na especialização produtivista atestada pela quantificação matemática.

Por sinal, a matemática, de uma forma de lógica de pensar foi transformada em uma religião moderna, que “entrou em todos os campos de nossa vida como um demônio”, escreveu Robert Musil, para quem

“Foi a matemática que arruinou a alma, …a matemática é a fonte de uma inteligência perversa que faz do homem senhor da terra mas escravo da máquina. A secura interior, a monstruosa mistura de sensibilidade para os detalhe e indiferença para o todo, o enorme desamparo do ser humano num deserto de minúcias, sua inquietação, maldade, a incrível frieza do coração, cobiça, crueldade e violência que caracterizam nossa era, seriam, segundo estes relatos, resultado dos prejuízos que um aguçado pensamento lógico traz à alma […] a matemática, mãe da ciência natural exata, avó da técnica, também é mãe ancestral daquele espírito do qual finalmente brotaram gases venenosos e os pilotos de guerra”. (Musil, 2006, p. 58-59)

O mesmo Robert Musil redigiu um sensível e duro julgamento das conseqüências do avanço dos conhecimentos científicos nas sociedades modernas:

“Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; Também não devemos passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro: quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho” (Musil, 2006, p. 58)

Infelizmente as vozes discordantes do modelo de intelectual produtivista a serviço do poder muitas vezes aceitam como destino a inação e o ressentimento.

Mas como alternativa ao silêncio, penso que o docente universitário e pesquisador científico pode realizar o seu trabalho intelectual como um artista amador se dedica a uma obra artesanal, atendendo a alguns apelos em sua atividade de ensino e pesquisa:
a) o apelo do conhecimento, que consiste no seu compromisso com as obras e metodologias construídas no passado, e que aguardam pela mediação do docente pesquisador para a sua persistência no futuro;
b) o apelo da imaginação, essencial para a formulação de novos problemas teóricos e empíricos que orientarão suas pesquisas;
c) o apelo da dúvida, que coloca o existente sob suspeição, abrindo o caminho para o aparecimento do pensamento crítico e para a aceitação dos limites da própria obra científica;
d) o apelo da ética, responsável pela conciliação entre sonho e realidade, através da defesa da igualdade e da democracia, em suma, da responsabilidade para com o outro;
e) o apelo do belo, que nos suspende do imediato para a fruição daquelas manifestações estéticas que contribuem para o desenvolvimento dos sentidos humanos;
f) o apelo do lúdico, que nos ensina a brincar e cada um a rir de si mesmo, nos protegendo contra os pensamentos pretensiosos;
g) o apelo da prática, que nos incita à comunicação e à articulação política para transformarmos intenções em realizações.

Uma possibilidade para eliminarmos o que tem de fictício na liberdade dos trabalhadores intelectuais, não é o retorno a um modelo messiânico de intelectual. Pode gerar melhores resultados a construção de um conhecimento livre das pressões dos poderes estabelecidos, uma busca que ao invés de esgotar-nos psiquicamente na competição dissimulada pelo “sucesso”, por dinheiro ou cargos, deverá ser sempre coletiva e legitimada pela solidariedade entre os trabalhadores intelectuais e as pessoas destituídas de poder, mas que criam as condições materiais de existência para todos com o seu trabalho cotidiano.

Referências
SAID, Edward W. Representações do intelectual – as conferências Reith de 1983. São Paulo : Companhia das Letras, 2005.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2006.
KUNDERA, Milan. A arte do romance. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1988.
MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2006.

Por uma nova ciência

Walter Praxedes

paris 596

A ciência é uma forma de saber que é difundida como a mais importante para a vida das sociedades modernas. É considerada como um conjunto de conhecimentos imprescindíveis pertencente a toda a humanidade, sem o qual não teremos acesso às novas tecnologias e, portanto, ao desenvolvimento econômico necessário para o bem estar, à qualidade de vida e uma forma de organização social e política civilizada.

Bem, pelo menos este é o discurso oficial sobre o significado do termo “ciência”. O uso que fazemos da palavra “ciência” esconde que no passado o termo de origem na língua latina – “Scientia“ – era utilizado para designar o conhecimento de um modo geral, não especializado e sem um método único. Muitas formas de conhecimento eram chamadas de ciência. Ao estudarmos os usos da palavra ciência nos últimos séculos na Europa e nos países colonizados pelos europeus podemos constatar uma disputa entre os estudiosos, uma verdadeira luta política, para se decidir quais os significados aceitáveis para a “ciência” e quais as atividades que podem ser consideradas como científicas.

Escrevo sobre esta luta política sobre a definição da noção de ciência por dois motivos: primeiro, porque inúmeros cientistas e filósofos europeus como Lineu, Blumenbach, Voltaire, Hume, Kant, Hegel, Comte, Durkheim, etc.- a lista é muito extensa – utilizaram a definição que criaram de ciência para se referirem aos povos não-europeus, como raças inferiores incapazes intelectualmente, já que estes não teriam criado a mesma forma de conhecimento primeiramente filosófico e depois científico; em segundo lugar, porque a definição de ciência baseada nos paradigmas das ciências naturais que acabou prevalecendo até o presente no ocidente moderno nega que outras formas de conhecimentos sejam dotadas de racionalidade, como os saberes populares, cosmologias, artes, e até mesmo as religiões ocidentais, o direito, a história e a filosofia.

O professor Walter Mignolo (2004, pág. 670) avalia que “o conceito moderno de conhecimento e de ciência foi concebido e usado para descartar conhecimentos e formas de saber” como as cosmologias dos povos africanos e indígenas das américas, as religiões e os saberes islâmico-árabes ou os confucionistas-chineses”, por exemplo. “As consequências práticas das realizações científicas e a ideologia que as acompanha são hoje visíveis por todo o lado desde o extermínio da natureza até à marginalização e extermínio de seres humanos”, completa Mignolo (2004, pág. 677).

Mesmo que algumas vozes do pensamento europeu como os polêmicos Heidegger e Wittgenstein, ou os teóricos da chamada Escola de Frankfurt e, no final do século XX, o pensamento pós-colonial de Frantz Fanon, Amilcar Cabral, Edward Said, Anibal Quijano e Enrique Dussel, se oponham à concepção restritiva de ciência, no ocidente acabou prevalecendo nesta disputa um conjunto de significados que provocaram e ainda provocam muitos problemas para a produção de conhecimento e para a vida em sociedade.

O conceito de “ciência” permanece capturado por estudiosos que infundiram uma concepção que restringe e limita a atividade de pensar e estudar, pois se tornou burocrática, disciplinada e excessivamente especializada em alguns casos. A ciência ainda contribui para a corrupção das formas de convivência entre os humanos, já que possibilita a dominação política, as guerras tecnológicas, e a exploração econômica das classes dominadas através das tecnologias que gera e que são dominadas pelas empresas e Estados capitalistas mais ricos. Devemos recordar, ainda, o uso predatório do meio ambiente transformado em manancial de recursos naturais para as grandes empresas. É necessário, portanto, uma crítica severa à concepção dominante de ciência, para libertarmos o conhecimento das limitações que foram introduzidas pelos filósofos e cientistas modernos desde Descartes e Bacon.

A sociologia da ciência de Pierre Bourdieu

No último curso que lecionou como professor do Collège de France, no ano letivo de 2000-2001, portanto, pouco antes de se aposentar e falecer em janeiro de 2002, Pierre Bourdieu se dedicou a uma sistematização de uma vertente importante de sua obra que é a sociologia da ciência. No prólogo de seu curso Bourdieu argumenta que escolheu como tema a sociologia da ciência por considerar que a autonomia científica, que se realiza com a independência dos cientistas em relação aos poderes estabelecidos, políticos, econômicos e religiosos, estava sendo ameaçada.

Para Bourdieu, os cientistas infelizmente não formam uma comunidade de pensadores voltados para a busca do bem e da verdade, mas formam aquilo que denominou como um “campo científico”, no qual a competição mais mesquinha por prestígio e recursos orienta a relação conflituosa entre os pesquisadores. “Todos conhecem a verdade das práticas científicas, e todos continuam a fingir não saber e a acreditar que isso se passa de outro modo. (BOURDIEU, 2004, pág. 108).

Para realizar o seu trabalho de investigação o cientista não pode ignorar esta realidade que o condiciona e constrange. Mas seria um erro grosseiro tanto pensarmos que os cientistas formam uma comunidade encantada de sacerdotes do saber, quanto imaginá-los como uma matilha de arrivistas cínicos e interesseiros, preocupados apenas com prestígio e poder político. Como afirma Bourdieu, “a ciência é dependente de toda uma tecnologia de investigação. A ciência tem uma história cumulativa, recursos acumulados, metodologias, instrumentos, bibliotecas, laboratórios” (BOURDIEU, 2004, pág. 100), aos quais os cientistas deverão ter acesso para a realização de sua vocação de pesquisadores. Então, como avalia Bourdieu, “o sujeito da ciência não é o cientista singular, mas o campo científico”, a partir das relações de concorrência, comunicação, baseadas na argumentação e na verificação. “Os cientistas nunca são os “gênios singulares” de quem se faz a história hagiográfica…, mas sujeitos coletivos… que trabalham no seio de grupos coletivos com instrumentos que pertencem à história coletiva…” (BOURDIEU, 2004, pág. 99). Não podemos, então, entender os cientistas, como vivem e suas obras, se os considerarmos como seres isolados que fazem descobertas geniais, já que todos nós dependemos das teorias e experiências científicas que nos foram transmitidas pelos cientistas do passado, dependemos de condições de vida, educacionais e culturais, enfim, das universidades, laboratórios, editoras e meios de comunicação que existem na nossa sociedade.

Uma consequência desta argumentação é que o conhecimento científico é gerado pela relação de diálogo e muitas vezes de conflito entre os pesquisadores, ainda mais porque deverão ser os membros da comunidade científica que deverão reconhecer como válida e importante uma descoberta científica. Quando um cientista critica o trabalho de outro ele está colaborando para o seu aprimoramento e para a validação do trabalho.

Um outro aspecto muito importante é o grau de internacionalização que chegou a ciência, uma vez que “o campo científico é internacional. Não se fecha nas fronteiras nacionais”, de modo a que não podemos ignorar a existência de pesquisas nas universidades, laboratórios e empresas de outras partes do mundo, para não sermos condenados a realizar pesquisas que em outros lugares já trouxeram resultados muitas vezes desastrosos.

Esta interpretação sociológica da ciência proposta por Bourdieu evidencia o porque de não ocorrer em nossa sociedade uma distribuição igualitária das oportunidades para a formação de novos cientistas, de realização de pesquisas e de acesso às informações sobre os conhecimentos produzidos pelas pesquisas científicas, uma vez que os próprios cientistas buscam o privilégio advindo do monopólio sobre o saber científico, o que faz com que a maioria dos membros da sociedade brasileira e dos povos espalhados pelo mundo não tenham acesso à produção e ao consumo dessa modalidade conhecimento.

Superar a concepção moderna de ciência

O filósofo Charles Taylor (2000) é um outro autor que podemos recorrer em uma discussão sobre as limitações da concepção moderna de ciência. Ele sintetizou suas críticas em três idéias. A primeira crítica é à idéia de que o cientista deva ser um sujeito dotado de um pensamento autônomo que realiza sua atividade de investigação de forma independente em relação à comunidade ou sociedade em que vive.

Em segundo lugar, Taylor também critica a idéia ilusória de que o cientista deva ser um indivíduo totalmente racional, que estuda os mundos natural e social de forma instrumentalizadora, “como senhores e proprietários da natureza” na expressão célebre de Descartes, ou seja, tomando os seres humanos e a natureza como objetos passivos para a experimentação científica.

Por último, Taylor ainda critica a idéia de que não deva existir nenhum entrave aos propósitos individuais do sujeito do conhecimento, o cientista como indivíduo empreendedor, que realiza egoísticamente o cálculo dos meios que deseja utilizar para alcançar os seus fins.

O problema que nos cabe discutir neste artigo é que os filósofos e cientistas modernos conseguiram difundir no mundo todo a idéia de que ciência é um conhecimento produzido por um sujeito individual racionalista, neutro, sem valores ou sentimentos, dotado de uma mente separada do corpo e desconectada dos mundos natural e social em que vive.

Uma nova ciência

Como afirmou Marcuse, “o método científico que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza passou assim a fornecer tanto os conceitos puros, como os instrumentos para a dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem através da dominação da natureza” (citado por HABERMAS, 1975, pág. 305.) O cientista de um modo geral já foi transformado em um trabalhador controlado administrativamente e de forma autoritária dentro das empresas e universidades, para trabalhar na produção de conhecimentos que não lhe pertencem, nem à sua comunidade, e dos quais ele não controlará o uso, transformado em tecnociência que pode ser usada tanto para a produção de um medicamento como de uma nova forma de matar as pessoas.

Para homenagear os 70 anos de seu amigo Herbert Marcuse, o filósofo Jürgen Habermas apresenta algumas possíveis soluções para os limites e os problemas gerados pelo conhecimento científico na modernidade propondo “uma nova ciência alternativa” que

“em vez de tratar a natureza como objeto passivo de uma possível manipulação técnica, podemos dirigir-nos a ela como a um parceiro numa possível interação. Em vez da natureza explorada podemos ir em busca da natureza fraterna. Ao nível de uma intersubjetividade ainda incompleta, podemos atribuir a subjetividade aos animais, às plantas e até mesmo às pedras e comunicar-nos com a natureza, em vez de nos limitarmos a trabalhá-la, quebrando a comunicação. E a idéia de que uma subjetividade da natureza ainda agrilhoada não possa emergir antes de que a comunicação entre os homens se torne livre, essa idéia – e isso é o mínimo que dela se pode dizer – continua a ter uma força de atração toda especial. Só se os homens pudessem se comunicar sem coação e se cada homem pudesse reconhecer-se no outro, só então a espécie humana poderia eventualmente reconhecer a natureza como um outro sujeito – não a natureza como um seu outro, como pretendia o idealismo, mas a si mesma como sendo o outro desse sujeito. (HABERMAS, 1975, pág. 308).

Para nos contrapormos à concepção dominante de ciência devemos considerar que não é possível ser um agente humano, sem outros seres humanos com os quais construímos nossas identidades individuais e coletivas e nossas formas práticas de vida. O ser humano é um ser social e histórico dotado de cultura, que depende das relações sociais que estabelece com outros seres humanos para construir sua existência corpórea e sua identidade. Também é evidente que somos parte da natureza. Para vivermos individualmente temos que viver em sociedade e no meio natural, e por isso o conhecimento não pode ignorar estes vínculos, como se pudéssemos como cientistas, tratar o mundo natural e os outros seres humanos como objetos que nos sirvam como instrumentos e vítimas de nossas descobertas científicas e invenções tecnológicas. Temos que pensar em uma forma de ciência alternativa que nos ajude a restabelecer nossos vínculos comunitários e com o meio natural como agentes humanos e não como sujeitos isolados do mundo com objetivos egoístas.

Se opor a produção de conhecimento “científico” voltado para servir à lógica da competição de mercado entre as empresas e tornar prevalecente uma nova concepção de ciência: estes são os grandes desafios reservados para os cientistas na atualidade.

Referências
BOURDIEU, Pierre. Para uma sociologia da ciência. Lisboa, Edições 70, 2004.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. In: BENJAMIN, W. HORKHEIMER, M. ADORNO, T. HABERMAS,, J. Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1975.

MIGNOLO, Walter. “Os esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1999.

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

SANTOS, Boaventura de Sousa. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.

TAYLOR, Charles. “Superar a epistemologia”. In; TAYLOR, C. Argumentos filosóficos. São Paulo, Edições Loyola, 2000.