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Paralelos entre a música de Glenn Gould e a literatura de Alice Munro

Walter Praxedes

O canadense Glenn Gould tornou-se conhecido como um dos maiores pianistas do século XX pela sua forma bem pessoal de interpretar as Variações Goldberg, compostas pelo músico alemão Johann Sebastian Bach em 1741. Experimente ver e ouvir um dos seus inúmeros vídeos e gravações disponíveis na Internet. É quase impossível não se sentir tocado desde os primeiros acordes.

Glenn Gould nasceu em 1932 e a escritora Alice Munro em 1931. O pai de Alice trabalhava como produtor de peles de raposas que eram comercializadas por sua mãe. O pai de Gould também era proprietário de uma empresa de trajes de peles. Ambos nasceram em Ontario, Canadá, ela em Winghan e ele em Toronto, em famílias econômica e socialmente modestas.

Mas existem outras importantes afinidades entre ambos, como a origem escocesa, branca, e a religiosidade protestante, puritana e calvinista presentes em sua educação, herdadas dos seus familiares e ancestrais que emigraram para o Canadá, e que revelam uma importante característica histórica da formação daquele país.

Embora os pais geralmente tenham muito menos influência sobre a educação dos filhos do que gostariam, ocorreu diferente com Alice e Glenn. O músico ouvia a mãe ao piano antes de nascer e começou a receber lições para reconhecer de ouvido as notas musicais desde os três anos.

A mãe de Alice era professora primária e seu pai depois de abandonar o negócio de peles e o trabalho de vigilante em uma fundição, se “pôs a escrever. Começou a escrever reminiscências e a converter algumas delas em histórias, que eram publicadas em uma excelente, porém efêmera, revista local. E pouco antes de morrer ele concluiu um romance sobre a vida pioneira intitulado The Macgregors” (Munro, 2014, p. 175).

Florence Greig Gould, a mãe de Glenn, também foi por um tempo professora de canto e se considerava descendente “de uma tribo escocesa bárbara, conhecida como os MacGregor” (Friedrich, 2000, p. 26), e do músico Edvard Grieg. Para ela isso justificava sua ligação com a música e o empenho em transformar o filho em um grande músico. Desde a infância a mãe levava o filho para tocar nas reuniões da Igreja Presbiteriana, em Toronto. (Idem, p. 42).

Otto Friedrich, um dos biógrafos de Gould, relembra que a primeira gravação das Variações Goldberg ocorreu em 1955 em um estúdio da Colúmbia, em “uma igreja presbiteriana abandonada no número 207, da East Thiertieth Street, Nova York” (Idem, p. 59). Pode-se dizer que a obsessão de Gould pelas Variações Goldberg tenham como origem a recordações dos hinos presbiterianos que ele ouvia na juventude.

Ainda jovem, aos 31 anos, Gould ficou estressado demais com a rotina das apresentações em concertos e se recolheu para uma vida ascética de pouquíssimo contato com o público, mas de quase completa dedicação ao piano e à realização de discos e filmes que mudaram a maneira de tocar e ouvir música, até falecer precocemente após um derrame, aos 50 anos, no dia 4 de outubro de 1982.

O crítico literário palestino Edward Said, também pianista, era um entusiasta admirador de Gould, considerando suas execuções de Bach “…uma guinada sísmica (para os padrões pianísticos) nas ideias sobre a interpretação. Bach não mais seria ignorado em favor do repertório-padrão – Bethoven, Chopin, Liszt, Brahms, Schumann. Sua obra não mais seria tratada como material inofensivo de abertura para recitais. A interpretação de Gould era notável não apenas pelo mero virtuosismo no teclado. Ele executava cada peça como se a radiografasse, interpretando cada um de seus componentes com independência e clareza. O resultado era, em geral, um único processo belo e fluido, com muitas partes subsidiárias. Tudo parecia pensado e, no entanto, nada soava pesado, artificial ou forçado” (Said, 2003, p. 82-83).

Tansformando vida em ficção, a moral puritana também orienta o olhar de Alice Munro sobre os acontecimentos cotidianos e relações entre as personagens dos seus contos. Ela própria assume a ancestralidade do calvinismo puro radical da Igreja da Escócia no livro “A vista de Castle Rock”, que formou a visão de mundo que herdou dos seus antepassados que migraram para o Canadá ainda no século XVIII. Para Alice Munro (2014, p.26), “todo lar presbiteriano na Escócia estava fadado a ser um lar devoto. A constante investigação da vida pessoal e torturadas reformulações da fé eram a base para garantir isso”.

É um ponto de vista formado a partir da moralidade presbiteriana que orienta a construção do texto de Alice Munro, muitas vezes apenas de forma implícita e outras vezes explicitamente para julgar as condutas das suas personagens.

A atenção da autora é direcionada para selecionar os aspectos da vida, os acontecimentos que serão narrados, com um critério de seleção puritano na medida em que o que é narrado foi o resultado de um impulso provocado pelos seus princípios religiosos talvez agredidos.

A impressão que temos é que a matéria ficcional que desperta na autora o impulso para ser escrita provocou antes uma inquietação que a instigou a escrever.

A importância que a vida cotidiana tem para o puritanismo provoca uma atenção detalhista sobre a rotina diária de cada ser humano fiel à crença protestante, levando a um controle de cada indivíduo através de “uma regulamentação de toda a conduta, que, penetrando em todos os setores da vida publica e privada era infinitamente mais importuna e levada a sério”, nas palavras de Max Weber (1985, p. 20) no seu clássico estudo “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.

Na narrativa sobre a “vida querida” de Alice Munro é perceptível “essa poderosíssima manifestação do puritanismo de apego ao mundo, de valorização da vida secular como um dever, [que] teria sido inconcebível da parte de um autor medieval” (Weber, 1985, p. 59).

Podemos interpretar a atenção de Alice Munro ao comportamento dos seus personagens como uma tentativa de controle que pode “combater uma desordem que ofende continuamente a sensibilidade de Deus” (Taylor, 2005, p. 295)

E assim lembramos com Alice Munro que as situações mais singulares e rotineiras que vivemos fazem parte de um contexto que na maioria das vezes nem nos damos conta, mas que o influencia de forma insuportável, fazendo com que as nossas “vidas comuns” voem pela janela.

Talvez por isso ela descreva as situações cotidianas como se fossem muito importantes e ao mesmo tempo inteiramente banais.

Também algumas situações muito relevantes são descritas sem exagero ou afetação, enfim, sem sentimentalismo, como se não passassem de ocorrências rotineiras pouco importantes fadadas a sucumbir no tempo e no esquecimento, mas que deixam uma marca definitiva.

Nos textos ficcionais de Alice Munro o estilo narrativo quase sempre deixa o leitor sem saber se a consciência moral que orienta a construção do sentido de cada história narrada é expressão dos valores do narrador, de uma personagem ou da própria Alice Munro, como se fossem as muitas vozes que contraditoriamente orientam as ações de cada ser humano.

Alguns contos apresentam um desenlace totalmente esperado e até óbvio, que contrasta totalmente com a variedade conflituosa de circunstâncias que tiveram que se combinar de maneira totalmente improvável para que um resultado tão previsível pudesse prevalecer. Exatamente como acontece nas nossas vidas.

É até lamentável que se possa simplificar o conteúdo e o significado de um ou outro conto descrevendo o seu final, pois, assim como na vida de cada ser humano, o que menos conta não é como vai ser o final, mas sim como foi o seu transcurso até chegar ao desfecho óbvio.

Que o leitor confira como Alice Munro conta histórias que se assemelham às nossas e a tantas outras, como se estivesse guiada por um mandamento retirado de um poema do poeta puritano Milton, que escreveu em seu Paraíso Perdido,

Conhecer
O que está diante de nós na vida cotidiana
É a sabedoria suprema.

Talvez seja com esta sabedoria suprema que entramos em contato quando ouvimos o piano de Glenn Gould.

No Brasil a recepção da obra de Glenn Gould pode ser percebida e admirada na gravação das mesmas Variações Goldberg que tornou reconhecido o pianista João Carlos Martins, responsável, inclusive, pela inauguração do memorial Glenn Gould, em Toronto. A obra de Alice Munro está sendo conhecida aos poucos, no ritmo das edições dos seus livros de contos em língua portuguesa, principalmente após a atribuição do Prêmio Nobel de Literatura, em 2013.

Referências

FRIEDRICH, Otto. Glenn Gould – uma vida e variações. Rio de Janeiro – São Paulo, editora Record, 2000.

MUNRO, Alice. A vista de Castle Rock. São Paulo, Globo, 2014.

______. Vida Querida. São Paulo Companhia das Letras, 2013.

SAID, Edward. “Em busca de cosias tocadas. Presença e memória na arte do pianista. (Sobre Glenn Gould”. In: SAID, E. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo, Companhia das Letras, 2003.

TAYLOR, Charles. As fontes do self – a construção da identidade moderna. São Paulo, Loyola, 1997.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo, Pioneira, 1985.

 

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A voz de Pablo Neruda

 

Trocando em miúdos é uma canção de Chico Buarque e Francis Hime que tocava insistentemente no rádio no final da década de 1970.  Quase no final da canção tem um verso que eu não entendia, mas que me deixava pensativo e não me saía da cabeça:“Devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu…” O leitor pode recordar a canção clicando abaixo:

Meu irmão Valder, sete anos mais velho do que eu, um dia chegou em casa com um livro emprestado da Biblioteca Municipal de Maringá e o deixou sobre algum móvel, onde pude ver o nome do autor em letras enormes e o título um pouco menor: Pablo Neruda – Para nascer nasci.

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O verso que não entendia na canção Trocando em miúdos de repente se tornou compreensível para mim. Abri o volumoso livro justamente na página que contém a epígrafe:

… para nascer nasci, para conter o passo de quanto se aproxima, de quanto me golpeia o peito como um um novo coração tremente.

Li esses versos e fiquei parado, pensando….

A partir de então os livros de Pablo Neruda se tornaram uma presença obsessiva na minha adolescência. Depois de ler Para nascer nasci, consegui emprestar Confesso que vivi na mesma biblioteca pública. Um livro de memórias escrito em linguagem poética que me apresentou um painel sobre o envolvimento do autor na história política e literária do século XX, sobre seu país, um Chile que não conhecia, mas que passei a amar a distância através da poesia de Neruda, e sobre os incontáveis personagens que povoaram a vida do poeta.

Depois também li o Canto geral, um poema de amor à América Latina e de resistência à opressão política e econômica. Por coincidência, uma amiga chilena que estudava psicologia na Universidade Estadual de Maringá, Jeanette Navarro Escobar, me emprestou uma fita cassete em que estava gravada a voz do poeta narrando os poemas do Canto geral  e que o leitor  também pode ouvir com um click.

Quando recordo aquele início da década de 1980 ainda ouço na minha imaginação a voz do poeta buscando “o vento para alcançar meus ouvidos”.

 

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As aulas de literatura de

Julio Cortázar

Walter Praxedes
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Foi por acaso que encontrei Alguém que anda por aí em uma pequena biblioteca de bairro que frequentava quando tinha quinze anos. O título aparentemente despretensioso  me provocou o impulso imediato de emprestar e ler aquele livro.  Ansioso por logo chegar em casa e começar a lê-lo, caminhava pelas ruas segurando-o nas mãos e às vezes arriscando ler algumas linhas rapidamente.
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Já se passaram trinta e cinco anos desde aquela tarde do verão de 1980. Eu nem imaginava que aquele escritor que desconhecia, naquele mesmo ano dava as suas Aulas de literatura na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, ensinando a arte de contar histórias com significados infinitos, quer seja na forma do conto, do romance ou das curtas, irreverentes e divertidas narrativas que compõem a obra do escritor argentino Julio Cortázar.
E eis que recebo pelo correio um livro encomendado pela internet com aquelas Aulas de literatura (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2015). Começo imediatamente a folhar o livro com a mesma ansiedade que não me deixou parar de ler até que chegasse ao fim a história de um ator de radionovelas na Buenos Aires da década de 1950.

Nunca entendi racionalmente como Cortázar consegue prender o leitor e torná-lo introspectivo e fascinado com suas narrativas sobre um congestionamento de carros em Todos os fogos o fogo ou, em O jogo da amarelinha, ao nos contar como Horacio Oliveira procurava a namorada na Pont des Arts, em Paris: Encontraria a Maga “andando de um lado para o outro da ponte” ou “imóvel, debruçada  sobre o parapeito de ferro, olhando a água”?

Oliveira e Maga teriam deixado um cadeado preso numa das grades do parapeito da ponte com os seus nomes gravados e depois lançado a chave na água? Uma das lições do professor Cortázar nas aulas em Berkeley é sobre a importância dessa ligação da literatura com vida cotidiana e não apenas com o virtuosismo estético.

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Em sua primeira aula Cortázar contextualiza a origem do seu impulso para escrever recordando que vivia “em um mundo em que o surgimento de um romance ou de um livro de contos significativo de um autor europeu ou argentino tinha uma importância capital para nós” (p. 16).

No Brasil também já houve um tempo assim. O exemplar de O jogo da amarelinha que ilustra este ensaio na foto abaixo, por exemplo, é de 1982 e pertencia à operária Nair Pinto Rosa, uma mulher que não teve oportunidade de passar pela educação escolar e mesmo assim era apaixonada pelos livros e pela literatura de qualidade.

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Mas os tempos são outros e até um livro como Aulas de literatura dependeu de subsídios governamentais da Argentina para chegar ao público leitor de língua portuguesa.

A escrita de Cortázar e suas histórias não são sempre divertidas como um jogo de amarelinha, um manual sobre como dar cordas em um relógio ou subir uma escada. O mais comum é nos depararmos com personagens que vivem em uma “angústia permanente”, e que compartilham com o escritor suas indagações sobre o “destino humano” e sobre os variáveis significados que a condição humana adquire nos diferentes povos espalhados pelo globo.

Não são muitos os escritores que conseguiram conciliar a qualidade literária do texto com a tentativa de participação ativa nos processos históricos. Cortázar o fez a partir de um sentimento de pertença a uma identidade latino-americana que temos dificuldade de compreender atualmente, mas que nos faz muita falta.