História e emancipação nos romances de José Saramago

Walter Praxedes

José Saramago

No ciclo de romances iniciado por Saramago em 1980 [1] a identidade nacional portuguesa é concebida como uma variável dependente do conhecimento coletivo sobre a história do país. Essa história, por sua vez, encontra em Saramago uma formulação própria, que se aproxima muito da concepção de história de Walter Benjamin (1991: 153-164), na qual o presente é concebido como “ponto de passagem” de uma apropriação do passado que preserva-o, mas também inova-o, simultaneamente.
Pode-se atribuir às narrativas criadas por Saramago a interpretação segundo a qual tudo o que este autor “…consegue perceber em termos de bens culturais, tudo, sem exceção, tem uma origem que ele não pode rememorar sem horror. Eles devem a sua existência não só aos esforços dos grandes gênios que os produziram, mas também à anônima servidão dos seus contemporâneos (BENJAMIN: 1991: 157).

Os vínculos entre história, memória e identidade são esclarecidos por Hobsbawm (1998: 288) quando este historiador escreve que “ler os desejos do presente no passado ou, em termos técnicos, anacronismo, é a técnica mais comum e conveniente de criar uma história que satisfaça as necessidades do que Benedict Anderson chamou “comunidades imaginadas” ou coletivos, que não são, de modo algum apenas nacionais”. Desta forma, a representação literária que Saramago realiza sobre a história portuguesa traz implícita uma responsabilidade ética atribuída à geração atual de redimir o sofrimento das gerações passadas, da mesma forma como o destino das gerações futuras está inscrito no seu horizonte. E é através da rememoração que se pode expressar a solidariedade com aqueles que sofreram no passado e que nos legaram o presente. Segundo Habermas (1990: 25), Walter Benjamin “…atribui a todas as épocas passadas um horizonte de expectativas insatisfeitas, e ao presente que se orienta para o futuro atribui a tarefa de experimentar em rememoração um passado correspondente de tal modo que possamos satisfazer as expectativas desse passado com a nossa débil força messiânica”.

Mesmo admitindo-se a inspiração que José Saramago receberá da chamada “Nouvelle Histoire” francesa para o tratamento literário da história portuguesa, sem deixarmos de reconhecer a influência de uma historiador como George Duby sobre o escritor português, influência esta, assumida pelo próprio Saramago [2] , e discutida por Braga (1999), considero mais pertinente a identificação do tratamento que Saramago dispensa à história do seu país a uma expectativa de transformação redentora e revolucionária da História, que guarda uma homologia direta com a concepção de história de Walter Benjamin. Como escreveu Jeanne Marie Gagnebin (1994: 19) a filosofia da história de Benjamin indica “…que a rememoração do passado não implica simplesmente a restauração do passado, mas também uma transformação do presente tal que, se o passado perdido aí for reencontrado, ele não fique o mesmo, mas seja, ele também, retomado e transformado”.

Na história portuguesa a realeza e a Igreja Católica influenciam diretamente na configuração da nação, porém a “identidade legitimadora” construída será problematizada ao longo da obra de Saramago: a tomada de Lisboa aos mouros, confrontada através de uma releitura do episódio proposta pelo revisor Raimundo Benvindo Silva em História do cerco de Lisboa; o cotidiano de opressão, mas também de fantasia, vivenciado pelos súditos de um rei perdulário e caprichoso, em Memorial do Convento; a saga e a redenção da população rural portuguesa, oprimida pelo Estado policial a serviço do latifúndio, em Levantado do chão; e uma pesquisa minuciosa sobre as bases políticas e culturais do cotidiano de implantação do nacionalismo ufanista próprio do salazarismo, em O ano da morte de Ricardo Reis; até a “dúvida existencial” da Península Ibérica, transformada por Saramago em uma Jangada de pedra, para avaliar a pertinência de sua identidade européia e a busca de um novo destino. Saramago revela através destas obras aquilo que Maria Alzira Seixo (1999:93) considera como seu gosto pela reescrita e pela “correção ou alteração do passado”, e, sobretudo, “a adoção, na narrativa, do ponto de vista do outro (o esquecido pela história oficial, o perdedor ou o “mau da fita”; o ponto de vista dos soldados e dos operários, em Memorial do convento; o ponto de vista dos árabes, em História do cerco de Lisboa; o ponto de vista do cidadão anônimo, entendido, aliás, como o efetivo fator das alterações sociais, em A Jangada de Pedra)”.

Em seu estudo A concepção de língua de Saramago – confronto entre o dito e o escrito, Miriam Rodrigues Braga interpreta que:

“O escritor endereça a língua à procura do sentido da história, do homem-história e da língua-história, num diálogo interdiscursivo e intertextual entre a verdade da história e a verdade da ficção… O escritor reconhece a importância do passado histórico na constituição da cultura e na salvaguarda da identidade nacional e individual. Porém, seu respeito pela história implica não só sustentar a continuidade desse passado, mas também a sua transcensão. É justamente essa ambivalência, projetada no devir de uma coletividade, que o escritor se encarrega de recriar pela linguagem ficcional, para tentar impedir a imobilidade da história, imputando à memória histórico-cultural um papel nuclear de contribuição para a legitimação da identidade histórica… Para ele, a cultura deve manter viva a dimensão histórica da língua, para favorecer a interação do indivíduo com o mundo em que vive, num constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significados. Sob esse enfoque, o reforço da identidade nacional passa a ser resultante da consciencialização de um acervo de informações que a memória cultural propicia, e do qual o discurso de identidade não se pode demitir, sem o inconveniente de se desgastar um conjunto de figuras, episódios e vivências históricas cuja evolução potencia a união entre os indivíduos” (BRAGA, 1999: 101-103).
Saramago busca o rejuvenescimento do gênero romanesco com o objetivo de fortalecer o idioma como um dos componentes essenciais da identidade nacional portuguesa, ameaçada que está a lingua portuguesa pelo inglês como língua franca da globalização. Com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da identidade nacional, o idioma, a memória e a cultura portuguesa são elementos revigorados intencionalmente na ficção saramaguiana. Daí a importância atribuída à releitura do passado e à memória coletiva. Para Saramago, “…todo o romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só não se acabou ainda de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se, ou se é a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances” (HCL: 56).

Por via das dúvidas, Saramago não deixa de escrever seus romances, ensinando-nos a não esquecermos do passado através de uma fabulação que reaviva a memória com o intuito de inspirar novas formas de vivência. Por tudo isso é que a Saudade, sentimento síntese da identidade de um povo que concebe o passado como paraíso, nas palavras de Eduardo Lourenço (1999: 14), e que pode ser explicado simplesmente como um olhar sobre o passado subtraindo deste o elemento contraditório, problemático, é superada por uma memória crítica da tradição, fundada na rememoração do conflito e das expectativas humanas tantas vezes frustrada, mas nem por isso menos perseverante e esperançosa de que a emancipação do homem será obra humana, afinal, como nos ensina o narrador do Evangelho segundo Jesus Cristo, “…milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores…” (ESJC: 77)

* Professor na Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
[1] A partir de 1980 o escritor português José Saramago pública os seguintes romances que tematizam a história portuguesa: Levantado do Chão (LC), 1980; Memorial do Convento (MC), 1982; O Ano da Morte de Ricardo Reis (AMRR), 1984; A Jangada de Pedra (JP), 1986; História do Cerco de Lisboa(HCL), 1989; O Evangelho Segundo Jesus Cristo (ESJC), 1991.
[2] Na data do falecimento do historiador George Duby, 3/12/1996, José Sarmago registrou em seu diário: “Morreu George Duby. Ficaram de luto os historiadores de todo o mundo, mas sem dúvida também alguns romancistas. Este português, por exemplo. Posso mesmo dizer que sem Duby e “Nouvelle Histoire” talvez o Memorial do Convento e a História do Cerco de Lisboa não existissem…”(CL, IV, 1996, 1999: 262).
BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter (1983). “O narrador”. In: Textos escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, pp. 53-85.
______ (1991). “Teses sobre filosofia da história”. In: KHOTE, Flávio R. (Org.) Walter Benjamin. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Ática, pp. 153-164.
BRAGA, Miriam Rodrigues (1999). A concepção de língua de Saramago – confronto entre o dito e o escrito. São Paulo, Arte & Ciência, 112 p.
GAGNEBIN, Jeanne Marie (1994). História e narração em Walter Benjamin. São Paulo, Perspectiva/ FAPESP : Campinas, Editoria da UNICAMP, 131 p.
GOBBI, Márcia V. Zamboni (1994). “A (outra) história do cerco de Lisboa: (des)arranjos entre fato e ficção”. Revista Letras, UNESP. São Paulo, nº 34, pp. 73-90.
HOBSBAWM, Eric (1998). A era dos extremos – o breve século XX (1914-1991). São Paulo, Companhia das Letras, 598 p.
______ (1998b). Sobre História. São Paulo, Companhia das Letras, 336 p.
HABERMAS, Jurgen (1993). “O idealismo alemão dos filósofos judeus”. In: FREITAG, Bárbara e ROUANET, Sérgio P. Op. cit., pp. 77-99.
______ (1983). Para a reconstrução do materialismo histórico. São Paulo, Brasiliense, 247 p.
______ (1990). O discurso filosófico da modernidade. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 350 p.
LOURENÇO, Eduardo (1999). Mitologia da saudade. São Paulo, Companhia das Letras, 154 p.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. “Formas e usos da negação na ficção histórica de José Saramago”. In: CARVALHAL, Tania F. e TUTIKIAN, Jane (organizadoras). Literatura e história: três vozes de expressão portuguesa. Porto Alegre, Ed. Universidade/UFRGS, pp. 101-108.
______ (1998). “As artimages de Saramago”. Jornal Folha de São Paulo, 6/12/98.
OBRAS DE JOSÉ SARAMAGO MENCIONADAS:
Levantado do chão (1996). Rio de Janeiro, São Paulo, Editora Record, Editora Bertrand Brasil, 366 p.
Memorial do convento (1997). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 352 p. 20ª Edição.
O ano da morte de Ricardo Reis (1998). São Paulo, Cia. Das Letras, 415 p.
A jangada de pedra (1999). Rio de Janeiro, Record, 317 p.
História do cerco de Lisboa (1998). São Paulo, Cia. Das Letras, 348 p.
O Evangelho segundo Jesus Cristo (1994). São Paulo, Cia. Das Letras, 445 p.

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