Dom Helder Camara

A trajetória de Dom Helder Camara: uma interpretação figural

Walter Praxedes

Nair Camara, irmã dois anos mais nova que Helder, em um rascunho de um relato escrito de memória no início da década de 1990, quando já se encontrava próxima dos 80 anos, conta-nos um pouco da história da família, apresentando algumas informações que ajudam a entender as impressões que os familiares e amigos tinham do menino e depois jovem padre Helder Camara:

 “O filho do Sr. João Camara, Helder Pessoa Camara, parece ter vindo de uma “Corte Celestial” pela sua pureza, nobreza, castidade, humildade, sinceridade, lealdade e caridade, incluindo a sua inteligência fora do comum. Em criança foi um menino exemplar, carinhoso, meigo, obediente e estudioso. Brincava como toda criança, porém o que mais gostava era de brincar de bolinha de gude e com santos, fazendo altar e depois que chegava da “Escola da Salomé”, e deixava os seus deveres em dia, no meio da criançada de sua rua inventava estórias fantásticas tipo “gibi”. Estórias sempre renovadas que encantava a todos que lhe ouviam.[…]

Dom Helder ordenou-se se não me engano no dia 15 de agosto de 1930 [na verdade 1931]. Eu era muito pequena, mas o admirava. Eu tinha umas vizinhas muito religiosas que me levavam todas as vezes que ele ia celebrar por perto, não só missa, como novenas. Quando eu estudava no Colégio de Dona Dorothéia, ia com a minha professora Esther Fiúza às novenas na Igreja do Patrocínio, ou fazíamos parte do coro. Na minha inocência eu me sentia um anjo, assistindo aquele Santo Padre falando de Santa Terezinha e nós cantávamos: Derramai vossa chuva de rosas, Terezinha excelsa [da Pátria e do amor”

Os fãs de Dom Helder o chamavam “O pequeno Grande São Francisco de Assis, Santo Padre que convertia até ateus com a sua palavra sacra”.

É evidente que este é um relato amoroso da irmã mais nova de Dom Helder, uma senhora que quando conhecemos já contava com mais de oitenta anos, mas que revela como os familiares e amigos tinham uma percepção de Helder como alguém com um jeito de ser próprio e características bem particulares. O relato revela também como a forma de pensar da irmã e dos amigos de Helder se aproximava de uma interpretação figural bíblica para atribuir a Helder a encarnação de um santo como São Francisco de Assis. Muito cedo nasceu esta identificação de Helder com a figura de São Francisco de Assis e que o acompanhará por toda a vida.

Uma interpretação figural do pensamento, da vida e da ação pastoral de Dom Helder Camara pode ajudar-nos a entender porque, passados quase duas décadas da sua morte, ocorrida em 27 de agosto de 1999, depois de iniciado o seu processo de beatificação e canonização, em 2015, e tendo recebido a autorização oficial da Congregação para a Causa dos Santos do Vaticano, que o declarou “Servo de Deus”, a Arquidiocese de Olinda e Recife, comandada pelo Arcebispo Dom Antônio Fernando Saburido, celebra em 19 de dezembro de 2018 a Sessão de Encerramento do Processo de Beatificação e de Canonização de dom Helder Camara, no Palácio dos Manguinhos, sede da Cúria Metropolitana, em Recife .

De acordo com a página oficial da Arquidiocese de Olinda e Recife na Internet, “concluída a chamada “Fase Diocesana”, sob direção do Postulador da Causa de Dom Helder Camara Frei Jociel Gomes, “a documentação é remetida para a Congregação da Causa dos Santos, onde os documentos, laudos, pareceres e testemunhos coletados serão analisados por comissões, e será elaborada a “Positio”, dando início, assim, à chamada “Fase Romana” do processo”. Na “Fase Diocesana” a Congregação das Causas dos Santos “exige que o candidato a santo tenha operado um milagre e que este seja comprovado”. Após a comprovação do milagre pelo Vaticano, o milagreiro é “declarado “Beato” e pode ser cultuado na região em que já tem fama de santidade”. Para a conclusão do processo de canonização é necessária a comprovação de um outro milagre. “Ele tem que ser a resposta de uma oração feita por um fiel ao candidato morto e não uma ação em vida”, explica Rodrigo Franklin de Sousa, coordenador de ciências da religião da Universidade Mackenzie (SP). Vencida a etapa, o santo é apresentado pelo papa para o culto da Igreja mundial. É necessário confirmar inclusive a real existência do candidato a santo. Para isso, uma exumação do corpo é solicitada.”

O sobrenatural no cotidiano

Quem conheceu pessoalmente Dom Helder Camara, presenciou seus sermões e homilias ou assistiu a uma de suas conferências, palestras, entrevistas, mensagens transmitidas pela televisão ou pelo rádio, certamente pode perceber o modo próprio com que ele expressava o seu pensamento, geralmente abordando de forma entusiasmada e otimista um problema da sociedade ou uma situação difícil vivida pelas pessoas, buscando encontrar um significado sobrenatural e cristão por trás da aparência dos acontecimentos.

E não havia para Dom Helder um tema que não fosse digno de constar em sua pregação, desde os problemas mais simples e cotidianos até aqueles que envolviam toda a humanidade ou a busca da salvação, da mesma maneira como Santo Agostinho, em A Trindade, recomendava aos pregadores cristãos que os grandes mistérios da fé fossem apresentados em linguagem simples e acessível a todos: “… a santa Escritura, acomodando-se aos pequenos, não evitou expressões designando esse gênero de coisas temporais, mediante as quais nosso entendimento, como que alimentado, pudesse ascender por degraus, às coisas divinas e sublimes.” (Santo Agostinho, 1994, p. 24)

Dentre incontáveis exemplos desta relação que Dom Helder estabelecia entre o dia-a-dia dos fiéis e o plano sobrenatural de busca da salvação, recordemos as suas palavras no programa “Um olhar sobre a cidade”, transmitido pela Rádio Olinda em uma segunda feira, dia 28 de julho de 1975, uma semana após uma grande enchente que ocorreu na cidade de Recife:

Meus queridos Amigos,

Passada a 1ª semana depois da Cheia, venho dividir com os queridos Rádio ouvintes, tristezas e consolos, angústias e esperanças que ficam de um balanço de quem tenta mergulhar na realidade que aí está diante de nós.

Quem vai áreas como o Formigueiro, Cajá, Alvinho, Campina dos Coelhos (e seria fácil citar dezenas de outras) encontra os Pobres em plena reconstrução dos Mocambinhos que ficaram de pé, embora esqueleto só e com partes inteiras derrubadas. E ainda há quem pense e diga que nossa Gente é preguiçosa… Que coragem! Que Fibra! […]

O Pai que imaginava que os filhos já nem fossem Cristãos, comoveu-se vendo os Rapazes jogarem-se n´água, arriscando a vida, para salvar Criaturas que se afogavam.

Quem não viu cenas tristes, mas também quem não soube de episódios profundamente consoladores como os lembrados aqui!?… Alimentemos a chama de nossa dedicação cristã, porque a reconstrução vai exigir de todos nós – Governo e Povo – muita dedicação e muito sacrifício.

O maior consolo que sinto, em meio de tanta angústia, é ver unidos, como irmãos, no mesmo esforço de ajuda fraterna, católicos e protestantes de todas as Agências de Serviço.

Sem vaidade, sem exclusivismo, os Cristãos temos um mesmo anseio: tentar ser a presença viva de Cristo no meio do sofrimento!

Na mensagem que Dom Helder quer transmitir, não há separação entre os acontecimentos terrenos provocados por uma enchente, que desestrutura as condições de vida das pessoas atingidas, e a busca de redenção através da ação coletiva coordenada em prol do bem comum em meio a todo o sofrimento. A fala tem uma aparência simples, pois visa ao entendimento de todos os ouvintes, que se encontram nas mais diferentes condições sociais e graus de escolaridade, mas sua mensagem de fundo tem um conteúdo sublime que é a união de todos e a busca da salvação. O estilo adotado por Dom Helder quando se dirigia aos seus ouvintes ou leitores buscava eliminar todas as barreiras que impedissem a comunicação de sua mensagem pastoral, adotando uma forma simples de expressão e um tom afetivo.

O ouvinte ou leitor concebido por Dom Helder é um irmão e amigo conclamado a participar ativamente de sua pastoral comunitária, não por acaso denominada “Encontro de Irmãos”, com a missão de ajudar a transformar as condições de vida de todos os que sofrem na terra e para que todos possam um dia viver como irmãos ao lado do Cristo. Por isso ele se dirigia a todos que o ouviam ou liam como um pastor e profeta que se preocupa com o corpo e com a alma dos fiéis em uma ordem terrena que deve ser o prenúncio de uma ordem celestial.

A partir da leitura das cartas circulares redigidas nas suas vigílias, poemas e até mesmo nos pequenos bilhetes dirigidos aos seus colaboradores, familiares e amigos; como também nas anotações pessoais e nos documentos oficiais, artigos e conferências que subscreveu e proferiu ao longo de sua trajetória como sacerdote e arcebispo católico, Dom Helder colocava em prática aquele ensinamento de Santo Agostinho em seu tratado A Doutrina Cristã, que indicava que quando discorremos “… a respeito da linguagem capaz de ensinar as verdades que nos preservam dos males eternos e nos fazem chegar à felicidade sem fim, recomendamos-lhes que considerem como grandes assuntos as questões que ele tiver de tratar em qualquer parte, seja diante do povo, seja diante de círculo íntimo, seja diante de uma única pessoa ou diante de muitos, seja diante de amigos ou inimigos, seja num discurso seguido ou numa conversa, seja em opúsculos ou em livros, seja em cartas longas ou brevíssimas.” (Agostinho, 2002, p. 244-245)

E Dom Helder apresentava os seus argumentos na posição de um ser humano religioso de confissão cristã católica que trazia tanto no seu interior como expressava nas suas manifestações orais e escritas, nas ações cotidianas e no seu apostolado, alguns pressupostos religiosos próprios do cristianismo, formados desde a sua educação familiar e de seminarista, com a assimilação da mensagem dos evangelhos, da filosofia e literatura católicas, para responder às necessidades do momento presente. E sua fala era animada para contar um acontecimento pitoresco e despertar o riso, ou concentrada para comentar uma situação grave, mas sempre afável, na tentativa de afastar quaisquer distâncias que pudessem existir entre ele e seus ouvintes ou leitores. Fazia isso dirigindo-se a alguém em particular, para solicitar uma opinião ou um testemunho, ou sentando no chão com as crianças para manter com elas uma comunicação horizontal.

O próprio Dom Helder reconheceu em um texto em que fez uma reflexão sobre as próprias ideias, redigido no início da década de 1970 com o título “Como mudou meu pensamento”, que não se considerava portador de um pensamento novo e original, afirmando: “Deus sabe que estou convicto de nada ter de original como pensamento. Estou a serviço de umas tantas ideias que me parecem dignas de abrir caminho e pelas quais aceito, gostosamente, sofrer. Se me dão uma chance de focalizá-las, não me calo: minhas ou de outros, o importante é que elas sejam difundidas”.

A encarnação, o mistério da palavra que se transforma em carne, com o próprio Deus se tornando homem, é uma doutrina fundamental do cristianismo que Padre Helder comungava com uma fé fervorosa. Um dos meios que utilizou a vida toda para manifestar este fervor foi a poesia, considerada por ele como uma maneira de expressar as verdades do seu interior, por combinar a busca da beleza e da verdade divina através da expressão verbal. O seu estilo poético sempre foi o da adoção de uma escrita simples, transparente e compreensível a todos para expressar o sublime. Assim podemos ler em dois pequenos poemas escritos no início da década de 1950 transcritos a seguir:

Hino à Encarnação

O Verbo de Deus

– um dia se fez homem

– foi a suprema Encarnação

Notei encantado

Que tudo em volta de mim

Realiza um pensamento divino.

E escutei comovido

O hino das humildes encarnações

À grande Encarnação.

 

            Corpo Místico

Que medo pode causar-me

A encarnação de cada dia

E a morada entre os homens,

Se em mim

Apenas se prolonga

– de modo incompleto e humílimo –

A Encarnação do Verbo de Deus?

 

Este aspecto fervoroso da fé e da pregação de Dom Helder foi uma característica sua desde os tempos de seminário, na década de 1920, em Fortaleza, e com o passar dos anos, após sua ordenação sacerdotal em 1931 e episcopal em 1952 se intensificou ainda mais, em uma época em que paradoxalmente se ampliava o consumismo e a abrangência da indústria cultural nas sociedades capitalistas ocidentais, modernizando e liberalizando os costumes, promovendo o individualismo. O paradoxo a que chamamos a atenção do leitor é o da relação entre o pensamento e o apostolado de Dom Helder, que intensifica seu retorno às fontes evangélicas do cristianismo nos anos 1950, 60 e 70, em um mundo que parecia cada vez mais se afastar da mensagem cristã.

Desde muito jovem Helder buscava encarnar as virtudes cristãs, realizando orações e penitências, às vezes até recorrendo a jejuns e mortificações, mantendo nos seus relacionamentos com os homens e mulheres com quem convivia cotidianamente de uma forma afetiva, cordial e sublime e meditando de forma poética sobre a ajuda divina de que necessitava para resistir às tentações internas, como podemos ler em um poema do início dos anos 1950:

            Adelgaça-me

Purifica-me

Tu que tudo vês

Até as últimas dobras

Dos mais escondidos pensamentos,

Sabes que não estou pensando em mim

Só quero ser transparente

Só sonho ser translúcido

E para evitar

Que o meu barro

Esconda tua Luz! 

Este poema em forma de oração segue de perto o ensinamento presente em Marcos (14, 38) que recomenda aos cristãos “vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”.

O apego à mensagem do evangelho que o faz buscar coerência entre sua voz e sua consciência, também o torna crítico em relação aos problemas religiosos e às condições sociais, políticas e econômicas em que viviam as populações marginalizadas do Brasil e do então chamado Terceiro Mundo. As suas críticas aos problemas existentes são sempre otimistas e jamais céticas, embora não se possa dizer de Dom Helder que ele fosse um missionário ingênuo ou manipulado. Sagrado Bispo em 1952, assediado pelas elites dirigentes, Dom Helder poderia simplesmente ter se acomodado para o resto da sua vida em sua posição de dignitário católico, mas, ao contrário, ele recusa uma posição confortável na estrutura social para se dedicar à busca de soluções para os problemas religiosos, sociais e políticos de seu tempo.

Ao repensarmos sua trajetória, como jovem seminarista e sacerdote, Helder comungava interiormente com o modo de ver e interpretar a realidade cotidiana segundo um ângulo de visão próprio do cristianismo antigo. E com esta afirmação não estamos negando possíveis incoerências, contradições e conflitos entre intenções e gestos vividos por Dom Helder, e sim enfatizando a busca da coerência entre os pressupostos religiosos cultivados por ele e suas condutas e manifestações privadas e públicas. Desde a sua juventude, nos momentos mais críticos, quando se encontrava próximo do desespero, Helder se recolhia e “fugia para rezar”, pedindo ao Espírito Santo uma visão sobrenatural que iluminasse a situação vivida.

Desde que mudara para o Rio de Janeiro no final da década de 1930 Nair Camara morava com o irmão, então Padre Helder, carinhosamente apelidado de Padrezinho, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, e depois da mudança deste para o Recife em 1964, manteve o seu quarto conservado como um verdadeiro santuário pelo resto da vida, com a cama arrumada como se ele viesse à noite para dormir, alguns pertences e batinas no guarda roupas e inúmeros livros em uma estante. Nair inclusive esteve presente na cerimônia de sepultamento de Dom Helder.

Dom Helder retribuía este carinho que recebia da irmã com a mesma intensidade e dedicação, visitando-a sempre que conseguia, ou viabilizando que a irmã viajasse para visitá-lo em Recife. Em uma carta escrita por Dom Helder já com os seus 82 anos, temos contato com a forma íntima, carinhosa e cuidadosa como ele se dirigia à irmã:

Recife 23.9.1991

       Maninha querida

Por favor, entregue em meu nome, esta carta a nossa Amiguinha Leda. Gostaria de estar aí, para estar com ela, neste instante difícil.

E você com vai passando?

Pelo Amor que Você teve, tem e terá sempre

À Mãezinha

Ao Paizinho

Ao Luís

A mim

Traga-me sempre informado

– de sua saúde e de sua situação de dinheiro.

Ficarei muito triste se descobrir que você está passando necessidade, por falta de dinheiro.

Você, hoje, encarna para mim

– a Magaidinha

– o Paizinho

E você mesmo, sobrevivente querida, quando tanto partiram!…

Que Deus a guarde e proteja sempre mais!

Que o Luís já esteja na Casa do Pai – como eu tenho certeza.

Padrezinho

A forma carinhosa de se relacionar com a irmã também se estendia aos seus outros familiares, pai, irmãos, parentes e amigos. Quando Padre Helder completou 19 anos de sacerdócio o pai escreveu-lhe uma carta demonstrando não só carinho, mas também um profundo respeito pela vida sacerdotal do filho, revelando-nos assim como havia uma expectativa de que ele continuasse a encarnar de forma santificada os valores mais sublimes atribuídos ao cristianismo católico. O tom da carta é afetivo, mas o estilo é de uma escrita com linguagem formal e até exuberante, o que nos faz recordar que o Sr. João Camara atuara como jornalista na juventude, redigindo artigos de crítica literária e teatral para o jornal que era comandado pelo avô de Helder, entre o fim século XIX e os primeiros anos do século seguinte.

Meu Filhinho

Pelo muito que lhe quero desejaria viver ainda por longos anos para ter o prazer de oferecer-lhe, nesta data, uma lembrancinha qualquer, que, modestamente, embora pudesse exprimir toda a minha alegria pelo transcurso anual Desta abençoada data, que assinala o início da sua gloriosa carreira sacerdotal em que, até hoje, graças a Deus, jamais por qualquer motivo foi excedida em zelo e santidade.

Que as bênçãos do Bom Deus continuem a jorrar o fluxo sobre sua abençoada fronte, para que prossiga sempre com passo firme e intenção reta que sua edificante e santificadora jornada, são os mais ardentes votos de seu velho pai, quando já prestes a ir conhecer, de perto, os infinitos e insondáveis mistérios do Além-túmulo.

Em rememoração do advento desse grande Dia, consagrado à Terça e Santíssima, Parabéns para mim, a Você, de quem espero a graça de receber a Santa Hóstia em sua intenção, para que Deus o abençoe, ilumine, proteja e guie em todos os seus passos, pensamentos, obras e palavras. Estes são os anseios do amantíssimo coração de seu muito ditoso pai.

Rio, 15 de Agosto de 1950.

João Câmara

Padre Helder correspondia a este carinho recebido do seu pai, como podemos perceber numa carta que lhe escreve no ano seguinte. Sempre estava presente na sua escrita a expressão de sua religiosidade. Para entendermos melhor esta correspondência íntima trocada entre pai e filho, também é preciso recordarmos que ambos moravam no mesmo apartamento em Botafogo, na rua Francisco de Moura, na entrada do Morro Santa Marta, convivendo rotineiramente, e mesmo assim se sentiam motivados a registrar por carta a afeição e o respeito de um pelo outro, como podemos ler em uma carta escrita ao pai em 1951, então com 79 anos, quando o filho estava com 42.

Rio, 27.12.1951

       Querido Paizinho

O Senhor já se viu diante de um absurdo de carinho? A razão quer chamar contra o absurdo, mas o coração nos lembra quanta bondade, quanta fineza a agradecer.

Deus lhe pague, Paizinho!

Como as suas delicadezas de pai me falam da bondade infinita do Pai Celeste!

Que Ele – pai comum de todos nós – o cubra de bênçãos e encha ainda mais sua “maleta” para a Grande Viagem que todos teremos de fazer!

Abençoe, também o Senhor o seu filho agradecido

Padrezinho           

O amor filial e a religiosidade estão expressos em um estilo sublime nesta carta. Nesta troca de correspondência entre pai e filho não aparece nem insinuação de um possível conflito, mas sim uma comunhão que revela a tradicional associação bíblica entre o pai terreno e o pai celestial. Talvez seja difícil pensar em uma forma de comunicação mais sublime do que esta em termos de valores morais e gentilezas, superando os conflitos cotidianos. Padre Helder, o Padrezinho, vê nas bênçãos paternas os sinais das bênçãos divinas, tornando sublime a convivência cotidiana, a exemplo da relação entre Pai e Filho nos evangelhos, que supera todas as distâncias entre a vida terrena e a vida celestial.

Humilhações

O assassinato do Padre Antonio Henrique Pereira Neto, em 26 de maio de 1969, pode ser recordado para entendermos como um acontecimento histórico específico é interpretado por Dom Helder como fazendo parte da perspectiva religiosa universal do cristianismo, representando uma escolha de Deus para a realização dos seus desígnios insondáveis. Tendo celebrado a cerimônia de sua ordenação sacerdotal no Natal de 1965, Dom Helder considerava o padre Antonio Henrique como um filho. Depois de todo o seu sofrimento e combate pela justiça contra a impunidade dos responsáveis pelo assassinato, na sua vigília da madrugada do dia 24 de agosto de 1969, Dom Helder redige com amargura e resignação um poema que interpreta o trágico episódio como um acontecimento terreno que representa um momento já prenunciado do plano divino do texto bíblico, que é o sacrifício de Isaac por seu pai Abraão. Recordemos as palavras do próprio Dom Helder em um poema:

Ele me prometeu

Que minha descendência

Seria numerosa

Como as areias da praia

E as areias do céu…

Sabe-me velho

E me pede o holocausto

Do filho único.

Estou no momento exato

Em que amarrei o meu filho ao lenho

E vou erguer a espada para imolá-lo.

Se entrar nos planos divinos,

Apenas experimentar-me

E suspender-me o braço,

Não digo

Que não exultarei…

Se houver o mistério de a suspensão não vir,

Fecharei os olhos

e imolarei

implacável e confiantemente,

o meu Isaac!

Como Abraão, Dom Helder se submete às ordens divinas, sabendo que o seu apostolado de defesa dos direitos humanos e denúncia contra as torturas e ações terroristas dos grupos paramilitares que apoiavam o regime político no poder, provocava retaliações contra os seus colaboradores. Em 28 de abril de 1969, um mês antes do assassinato do padre Antonio Henrique, o estudante Candido Pinto de Melo havia sido baleado e a sede do Secretariado da Arquidiocese de Olinda e Recife e da Cúria metropolitana fora metralhada durante a madrugada. Como subscreveu na nota divulgada pela Arquidiocese, “Que o holocausto do Pe. Antônio Henrique obtenha de Deus a graça da continuação do trabalho pelo qual doou a vida e a conversão do seus algozes”. Para Dom Helder somente Deus sabia o sofrimento e o desespero com os quais ele se mantinha fiel à sua missão.

Uma das características de dom Helder era essa sua capacidade de interpretação sobrenatural da realidade imediata sem tentar escapar ou esquecer suas consequências práticas e muito menos as responsabilidades que tinha como cidadão e pastor. Na sua pregação e nos seus atos buscava sempre a superação efetiva dos problemas da realidade, como o fez no depoimento ao inquérito sobre a morte do Padre Antônio Henrique, redigido no dia 14 de abril de 1975 e prestado à Secretaria de Segurança Pública do Estado de Pernambuco e sua Delegacia de Homicídios, em que apela às autoridades para que investiguem a atuação do grupo terrorista denominado CCC – Comando de Caça aos Comunistas: “sob a fé do meu Sacerdócio, levo ao conhecimento da Segurança do Estado de Pernambuco e das demais Autoridades da Segurança Federal que, anunciado pela Imprensa, pelo rádio e pela TV, que eu seria convidado a depor no processo do Pe. Henrique, na 4ª e 5ª feiras da Semana Santa, recebi, pelo telefone, avisos de dever falar com extrema cautela, se eu não quisesse perder mais um de meus Padres. Os telefonemas concluíam: “Quem avisa é o velho CCC, agora redivivo no Gorilão”. Tratar-se-ia de trote? Será que o CCC cobriu-se de novo nome, mantendo o mesmo espírito e os mesmos métodos?”

O sofrimento de Dom Helder com a cruel perseguição aos seus colaboradores cotidianamente representava para ele que, mesmo se dedicando à realização da vontade divina revelada nos evangelhos, como um ser humano falível estava sujeito à desgraça e à humilhação, como a partida do seu Estado natal, para começar nova vida no Rio de Janeiro, as calúnias e difamações de que fora vítima e, depois de um longo e frutuoso apostolado na Arquidiocese do Rio de Janeiro, o seu afastamento indesejado da sua  querida Família Mecejanense e da cidade que o acolhera.

À morte prematura de seu amigo o Núncio Apostólico dom Armando Lombardi, após o Golpe Militar, seguiram-se as duras acusações recebidas do Tribunal do Santo Ofício em dezembro de 1964.

Em 1969 Dom Helder é aconselhado pela Secretaria de Estado do Vaticano a voltar-se prioritariamente para o trabalho na sua arquidiocese e evitar as viagens internacionais. Dom Helder interpretou a censura recebida do vaticano, em pleno pontificado do seu amigo Paulo VI, “com a sensação angustiante de uma facada no coração”.

Em Recife, desde 1968 já era sabido e divulgado pela imprensa local que a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) o havia “fichado” e o vigiava de perto, seguindo-o em todos os lugares, fotografando-o, grampeando seus telefonemas e monitorando sua ação pastoral, como ficou comprovado pela Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Camara em 2014.

Pessoalmente Dom Helder também sofria com a perda de algumas pessoas com as quais compartilhava a sua vida e apostolado. A sua antiga secretária e amiga Cecília Goulart Monteiro, carinhosamente chamada por ele de Frei Leão, porque como sua colaboradora tinha como missão velar pela “santificação de Frei Francisco”, falece após um atropelamento no Rio de Janeiro, em outubro de 1977, deixando-o profundamente abalado, sem ânimo sequer para escrever as “Circulares” em suas vigílias. No ano seguinte ocorreria a morte de Paulo VI, não menos sentida por Dom Helder.

Todos estes momentos dramaticamente sentidos por Dom Helder ocorreram quase que simultaneamente ao reconhecimento internacional de sua ação apostólica. Na década de 1970 Dom Helder se viu transformado em uma celebridade mundial, chegando a ser indicado quatro vezes para a premiação com o Nobel da Paz, o que não ocorreu em virtude da campanha contrária de que fora vítima, mas recebendo inúmeros prêmios, títulos e homenagens no mundo todo. Como se a vontade divina para se realizar necessitasse que Dom Helder constantemente tivesse que passar por experiências de humilhação e exaltação, em uma oscilação pendular do seu destino.

No poema “Deixa-te devorar”, Dom Helder expressa como ele interpretava estas situações limites em que muitas vezes se encontrava:

Deixa que te arrebentem

Todo o tempo

E te prendam,

E te triturem

E te devorem…

Não fazemos o mesmo

Com Jesus Cristo

Cada manhã?

Desde o seu início o cristianismo teve que lidar com o martírio dos seguidores de Cristo, gerando por isso uma mística da Paixão que chegou até nossos dias. As palavras de Dom Helder revelam-nos o seu acolhimento a este ideal de sofrimento sublime, como já ocorrera com inúmeros mártires e com o próprio Francisco, o santo que o guiava e que passou pelo “milagre da estigmatização”.

Em 1980, quando esteve em Recife, o Papa João Paulo II o saudou como “Irmão dos pobres. Meu irmão”. Mesmo assim, quatro anos depois, quando se aposentou na Arquidiocese de Olinda e Recife não conseguiu que o Vaticano nomeasse para sucedê-lo um dos seus fiéis colaboradores, Dom Marcelo Carvalheira ou seu bispo auxiliar dom José Lamartine Soares, que continuariam a sua obra pastoral. Ao contrário, o arcebispo nomeado pelo Vaticano para o seu lugar à frente da Arquidiocese, desde o primeiro momento atuou deliberadamente e de forma ostensiva para destruir o seu legado pastoral.

É muito difícil para qualquer ser humano entender estas reviravoltas tão frequentes na própria vida. Mas, para a compreensão sobrenatural que Dom Helder tinha da realidade, todos os acontecimentos faziam parte de um plano divino.

A humilhação era para Dom Helder um ensinamento que recebia de Deus “para entender as fraquezas dos outros e agradecer ao Pai a caminhada feita”. E uma das maiores humilhações que ele havia sofrido, segundo palavras redigidas por ele no texto “Como mudou meu pensamento”, em um tom de confissão de um pecado que lhe causava grande arrependimento, foi ter participado da Ação Integralista Brasileira (AIB) em sua juventude: “Para minha humilhação (Tu és bom porque me humilhaste”)… devo confessar que, ao ordenar-me sacerdote, em 1931 (com 22 anos e meio) me fiz integralista (fascismo brasileiro).”

Aprender com as humilhações sofridas é uma ideia importante na história do cristianismo. Inúmeras figuras bíblicas também tiveram que passar por grandes humilhações, a exemplo do que ocorrera com Adão, o primeiro homem criado por Deus à sua imagem e semelhança, depois expulso do Paraíso, ou Jacó vivendo como um fugitivo, José vendido como escravo, as seguidas humilhações sofridas por Jó, e o próprio filho de Deus em sua encarnação humana sendo açoitado em público e crucificado. Segundo a interpretação do crítico literário Erich Auerbach, estudioso das narrativas bíblicas, “percebe-se claramente como a amplidão da oscilação pendular está em relação com a intensidade da história pessoal – justamente as situações extremas, nas quais somos abandonados ou lançados ao desespero extremo, nas quais além de toda medida, nos sentimos felizes ou exaltados, conferem-nos, quando as superamos, um cunho pessoal que se reconhece como resultado de um intenso desenvolvimento, de uma rica existência”. (Auerbach, 2013, p. 15)

A figura de São Francisco de Assis

A origem social familiar de classe média urbana e intelectualizada de Dom Helder não o impediu de se identificar com a pobreza e com o ideal de uma vida simples, aproximando-se das pessoas mais necessitadas, e de lutar por uma Igreja servidora e pobre. Essa sua identificação com a pobreza foi uma forma pessoal de vivenciar a encarnação de Deus em um ser humano com uma origem social muito simples, que peregrinava pela terra nas mais difíceis condições, convivendo com pessoas muito pobres, doentes e estigmatizadas socialmente e que, depois, ainda foi açoitado publicamente, escarnecido e crucificado.

Além do próprio Cristo, o mesmo se pode dizer de Pedro, um humilde pescador do lago Genesaret na Galileia, sem educação erudita, mas que foi convertido em fundador do cristianismo. Erich Auerbach interpreta que essa origem popular do cristianismo contribuiu para que nascesse uma ética da humildade e da valorização das pessoas simples, uma vez que “Cristo apareceu não como herói ou como rei, mas como um homem da mais baixa extração social; os seus primeiros discípulos foram pescadores e artesãos, movimentava-se no mundo cotidiano do povo palestino, falava com publicanos e prostitutas, com pobres, doentes e crianças; e nem por isso suas ações e palavras deixaram de ter a mais elevada e a mais profunda dignidade; foram mais importantes do que tudo o que aconteceu em qualquer outro tempo” (Auerbach, 2013, p. 61).

Para Dom Helder viver segundo o Evangelho significava encarnar essa origem popular do cristianismo, que tornava a ética da humildade e o estilo de vida simples e despojado, em elementos importantes do ideal de santidade cristã que incorporara desde jovem. Por isso a figura de São Francisco, com o seu casamento com a pobreza, é aceita por Helder como guia para a vida terrena que antecipa a vida celestial. O Francisco de Assis representava, assim, a encarnação da plenitude que conduziria à presença de Cristo.

Inspirado em São Francisco de Assis, Dom Helder concebe para si a missão de profetizar o retorno a uma Igreja Servidora e Pobre, de acordo com os princípios que orientaram o famoso “Pacto das Catacumbas”, no qual participa da celebração com um grupo de padres e bispos no final do Concilio Vaticano II, na Igreja de Santa Domitila, em 16 de novembro de 1965. À frente da Arquidiocese de Olinda e Recife Dom Helder escolheu uma vida de simplicidade e despojamento, deixando de morar em palácio para viver em um pequeno quarto no fundo da Igreja das Fronteira, se deslocando muitas vezes a pé ou de carona, testemunhando, assim, com a própria vida o seu compromisso com o “Pacto da Catacumbas”.

A presença de São Francisco no mundo foi um acontecimento histórico interpretado pelos seus seguidores e por Dom Helder como prenuncio de outros acontecimentos históricos concretos. Por isso, em seu apostolado ele buscava colocar em pratica os ensinamentos de Francisco, encarnando a verdade anunciada pelo santo de Assis. Considerando Francisco como um precursor, encarnando-o em sua vida através de sua palavra e da sua ação, Dom Helder se legitimava dentro e fora da instituição católica para trabalhar em defesa dos pobres. Da perspectiva de muitos dos seus colaboradores, dos fiéis católicos e dos admiradores de todas as religiões espalhados pelo Brasil e pelo mundo Dom Helder preenche a demanda que muitas vezes sentimos por uma força messiânica, que encarne na vida real a figura de um líder religioso e até político com uma espiritualidade profunda e com um senso de realidade histórica para anunciar que um novo mundo é possível, inspirando e mobilizando muitos que estão insatisfeitos com o mundo existente.

Missão temporal

Desde a década de 1940, Dom Helder, então ainda Padre Helder, realizou um apostolado para que os católicos, leigos e sacerdotes não se preocupassem apenas com a salvação das suas almas, mas também com a melhora nas condições de vida dos seus irmãos. Podemos recordar o seu esforço para que os católicos atuassem politicamente em associações, sindicatos, partidos e até em equipes governamentais para a busca de soluções para os problemas sociais do país, para a superação da miséria e da injustiça. Antes mesmo de ser sagrado Bispo, Dom Helder foi o principal artífice da fundação da CNBB. Inspirado pelo famoso lema “Ver, Julgar e Agir”, ele incentivou o engajamento dos movimentos leigos da Ação Católica como a JAC, JEC, JIC, JOC e JUC, em prol da justiça e da democracia em nosso país, lutando sempre em defesa dos direitos humanos, da reforma agrária, enfim, para a construção de condições de vida melhores para os trabalhadores do campo e da cidade.

Após o Golpe Militar de 1964, ele teve a atuação mais visível de denunciar publicamente a prática de tortura em nosso país por agentes ligados ao Estado. Mas ele teve também uma atuação muito importante, embora pouco percebida para quem estava fora da instituição católica e não conhecia a sua vida interna. Dom Helder se manteve como um interlocutor das lideranças religiosas que dirigiram a CNBB e de vários leigos católicos influentes que buscavam um diálogo com os governos militares, procurando evitar o confronto aberto entre Estado e Igreja no Brasil, e promovendo a colaboração para que inúmeras pessoas, aprisionadas clandestinamente por grupos paramilitares, fossem localizadas e salvas dos interrogatórios com uso de tortura e libertadas. Mas ele também colocou em prática uma forma de ação pastoral protagonizada pelos próprios membros das camadas populares, denominada por ele como “Encontro de irmãos”, que funcionavam como as Comunidades Eclesiais de Base. Enfim ele foi uma liderança política e religiosa completa, pois tinha a visão de estadista que articulava tomadas de decisões da Igreja Católica, em âmbito nacional e internacional, e se envolvia diretamente na vida cotidiana das pessoas que mais sofrem em nosso país.

Podemos resumir a atuação de Dom Helder como uma difícil, mas corajosa ação pacífica em favor da justiça, da democracia, dos direitos humanos, que envolvia a denúncia das prisões e torturas, da concentração de renda que então progredia em nosso país, mantendo a tentativa de dialogar com os governantes a fim de influenciá-los para que atuassem a favor do retorno da democracia. A difícil atuação de Dom Helder muitas vezes não era compreendida por setores mais conservadores do episcopado brasileiro e da Cúria Romana, que o criticaram e tentaram limitar suas ações.

Dom Hélder deixou como marca inconfundível da Igreja Católica no Brasil o compromisso com a democracia e com a busca de soluções para os problemas sociais. A participação de sacerdotes e leigos em movimentos sociais e organizações da sociedade civil, a exemplo do que ocorre nos movimentos pastorais e em uma organização importantíssima como a CNBB, e em milhares de Organizações não-governamentais espalhadas pelo país, consideramos como a sua maior herança política. Sua maior herança religiosa foi o ensinamento de que a fé, por mais fervorosa que seja, como era a dele, não se coaduna com a injustiça, com a humilhação e a exploração do outro, enfim, que a fé também pode libertar os seres humanos do fanatismo e da intolerância.

Referências

AGOSTINHO, Santo. A Trindade. São Paulo, Paulus, 1994.

AGOSTINHO, Santo. A Doutrina Cristã: manual de exegese e formação cristã. São Paulo, Paulus, 2002.

Arquidiocese de Olinda e Recife. Arquidiocese convida para conclusão da fase local do Processo de Beatificação de dom Helder. Postado por Anna Beatriz em dez 4, 2018. https://www.arquidioceseolindarecife.org/2018/12/arquidiocese-convida-para-sessao-de-encerramento-do-processo-de-beatificacao-e-canonizacao-de-dom-helder-camara/. Acesso em 16.12.2018

AUERBACH, Erich. Ensaios de literatura ocidental. São Paulo, Duas Cidades; Editora 34, 2012.

______. Mimesis. São Paulo, Perspectiva, 2013.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara – o profeta da Paz. São Paulo, Contexto, 2008.

PRAXEDES,  Walter. Dom Helder Camara e a educação popular no Brasil. Programa de Pós-Graduação em Educação. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1997. (Dissertação de Mestrado)

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A Cruzada São Sebastião

 

Dom helder camara Cruzada São Sebastião.png

(Foto: Cardeal Giovanni Battista Montini – que se tornaria o Papa Paulo VI – em companhia de Dom Helder Camara em uma visita aos moradores da Favela da praia do Pinto, em junho de 1960. In: Nelson Piletti e Walter Praxedes. Dom Helder Camara: O profeta da paz. São Paulo, Contexto, 2008).

 

Para dar conseqüência pratica às suas propostas de engajamento dos católicos na busca de soluções para os problemas sociais do país, ainda em 1955 Dom Hélder conceberia e iniciaria a implementação de um projeto de moradia popular na cidade do Rio de Janeiro que recebeu o nome de Cruzada São Sebastião, cujo objetivo era “urbanizar, humanizar e cristianizar” as favelas da cidade.

Logo após ter organizado com sucesso o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, ocorrido no Rio de Janeiro em julho de 1955, para o qual conseguiu o engajamento da iniciativa privada, de vários órgãos governamentais e de um número considerável de leigos, tanto na organização do evento em si, como na execução de obras viárias, aterros e serviços de abastecimento de gêneros alimentícios que atendessem as centenas de milhares de peregrinos católicos vindos de todo o país e um grande número do estrangeiro, Dom Hélder foi desafiado por um dos participantes do Congresso, o Cardeal Gerlier, francês, a direcionar sua capacidade de trabalho para resolver o problema das favelas da cidade.

Aceito o desafio, ainda em setembro de 1955 Dom Hélder conseguiu que o jornalista Roberto Marinho, seu compadre, articulasse uma reunião com o presidente da República Café Filho para discutir a questão. O presidente resolveu apoiar a iniciativa e prometeu uma ajuda de 50 milhões de cruzeiros para início dos trabalhos, contando que “ainda em sua gestão fosse urbanizada uma primeira favela”, ou seja, até janeiro de 1956, quando encerraria seu mandato e ocorreria a posse do presidente eleito nas eleições de outubro de 1955 (Jornal O Globo, 27/04/1968).

Entre as cerca de 10 favelas então existentes na cidade, nas quais viviam aproximadamente 700 mil pessoas, foi escolhida a favela Praia do Pinto, conhecida também como República do Mengo, no bairro do Leblon, Zona Sul, para uma fase experimental do projeto. Imediatamente quatro empreiteiras iniciaram as obras “em ritmo acelerado, durante as 24 horas do dia, sem interrupção, para atender ao prazo estipulado pelo presidente da República” (Cruzada São Sebastião, 1961, p.1) Esse primeiro projeto da Cruzada São Sebastião incluía a construção de 10 edifícios residenciais com 910 apartamentos, escola, Igreja, centro social e um pequeno mercado.

Café Filho saiu do governo antes que expirasse seu mandato. Carlos Luz ocupou seu lugar, mas em poucos dias foi substituído por Nereu Ramos, no golpe preventivo liderado pelo general Lott, em novembro de 1955, para garantir a posse de Juscelino Kubitschek. Nesse ambiente político conturbado o Congresso Nacional não se empenhou em aprovar a mensagem pela qual seria concedida a liberação de verba para as obras da Cruzada São Sebastião. Em janeiro de 1956 Kubitschek assumiu a presidência e apesar de a verba oficial ainda não ter sido aprovada pelo Congresso, Dom Hélder conseguiu junto ao presidente a liberação de adiantamentos do Tesouro Nacional e vários empréstimos no Banco do Brasil e outras fontes, que possibilitaram a continuidade das obras durante o ano (Cruzada São Sebastião, 1961, p.2).

Em 1957 o departamento financeiro da Cruzada elaborou um “plano de auto financiamento” das obras, com o objetivo de resolver o problema da falta de recursos, e que consistia na obtenção, junto à União, de terras baixas e alagadiças de terrenos da Marinha, nas quais deveriam ser realizados trabalhos de drenagem, aterro, dragagem, e urbanização para posterior divisão em lotes destinados à venda.

Dom Hélder expôs o plano ao presidente Juscelino Kubitschek e obteve “entusiástico apoio”. Em julho de 1956, através de decreto presidencial, Kubitschek concedeu à Cruzada o direito de preferência ao aforamento de aproximadamente um milhão e duzentos mil metros quadrados de terrenos alagadiços existentes ao longo da Baia da Guanabara. Para maior valorização financeira dos terrenos, a Cruzada São Sebastião resolveu construir na Avenida Brasil o Centro de Abastecimento São Sebastião, com recursos obtidos através da venda prévia de armazéns, silos e pontos comerciais os empresários de horti-fruti-granjeiros.

Para levar a diante os projetos da Cruzada São Sebastião, Dom Hélder contou com uma dedicada equipe de leigos, formada por antigos militantes da Ação Católica Brasileira, que o assessoravam desde os anos quarenta, como sua secretária particular Cecília Monteiro, Marina Araújo, Aglaia Peixoto, Nair Cruz, Yolanda Bittencourt, Maria Luíza Amarante (secretaria executiva da Cruzada São Sebastião), o engenheiro Raul Santana (tesoureiro), várias assistentes sociais lideradas pela irmã Enny Guarnieri, além de banqueiros, empresários, engenheiros, advogados, economistas, professores, etc…

Em janeiro de 1956, sob a orientação direta de Dom Hélder, o grupo de assistentes sociais da Cruzada iniciou um processo de “organização social da comunidade”, para levar a efeito um “programa de trabalho comunal num conjunto residencial de ex-favelados” com os seguintes objetivos:

  1. a) Integrar a população da favela no respectivo bairro, a fim de fazer desaparecer as barreiras que podem existir entre essa parcela da população e outras classes mais favorecidas;
  2. b) Proporcionar oportunidade de desenvolvimento integral da pessoa humana, e de prática de vida cristã aos habitantes do novo conjunto;
  3. c) Dar, progressivamente aos moradores, o máximo de responsabilidade moral e material na manutenção do conjunto, tendo em vista a sua futura auto-suficiência;
  4. d) Capacitar para uma participação ativa na direção do Conjunto, como etapa para sua futura auto-direção. (Cruzada São Sebastião, 1961, p.2).

 

Dom Hélder participava diretamente desse trabalho de formação comunitária, como atesta uma reportagem do poeta e jornalista Thiago de Mello para a revista “Manchete”:

“Para que se tenha uma ideia do quanto já se conseguiu, nesse campo de instrução ética, basta cantar o seguinte fato. Há coisa de um mês, Dom Hélder convocou os homens da favela para uma reunião. Assunto importante. Tratava-se da criação da Ordem dos Cavalheiros de São Sebastião (santo forte ali na República, o predileto dos homens).

Dias depois, eram as mulheres que se reuniam com Dom Hélder, para debater o Código de Honra das Legionárias de São Jorge (santo de maior devoção das mulheres)… Aqui divulgamos esses dois códigos… Vamos ao dos homens:

1) Palavra de homem é uma só. 2) Ajude seu vizinho. 3) Bater em mulher é covardia. 4) Sem exemplo não se educa. 5) Homem que é homem não bebe até perder a cabeça. 6) Jogo só futebol. 7) Difícil não é mandar nos outro: é mandar na gente. 8) Comunismo não resolve. 9) Quero meu direito, mas cumpro minha obrigação. 10) Sem Deus nada.

Agora o código das Legionárias:

1) Questão fechada: casa limpa, arrumada e bonita. 2) Quando um não quer, dois não brigam. 3) Anjo de paz e não demônio de intriga. 4) Não vire a cabeça porque o marido não tem juízo. 5) Se o marido faltar, seja mãe e seja pai. 6) Educar de verdade, sem palavrão, sem grito e sem pancada. 7) Seja liga com os educadores de seu filho. 8) Não seja do contra: com jeito se vai à lua. 9) Nada mais triste do que mulher que degenera. 10) Mulher sem religião é pior que homem ateu.

Também as crianças terão seu código. Dom Hélder já o elaborou. Mas ainda não foi posto em discussão, o que acontecerá dentro de alguns dias, em reunião com os pais. Pequeninos de São Cosme e Damião, este o nome da ordem, cujo código a ser aprovado, é o seguinte:

1)Nem covarde, nem comprar de briga. 2) Desgosto aos pais, jamais. 3) Antes só do que mal acompanhado. 4) O que suja mão é pegar no alheio. 5) Menino de bem não diz palavrão. 6) Homem não bate em mulher. É triste uma mulher que se mete a homem. 7) Não minta nem que o mundo se acabe.8) Delicadeza cabe em qualquer lugar. 9) Quem não aproveita a escola, se arrepende o resto da vida. 10) Quem não reza é bicho” (MELLO, 1956, p. 73).

Promover iniciativas voltadas para a educação popular era um dos pilares do projeto. Na tentativa de atacar os problemas sociais de uma forma global, a Cruzada incentivava a auto-organização comunitária, instruindo os futuros moradores dos edifícios em construção sobre como formar um conselho e uma associação de moradores para tentar solucionar localmente os problemas de convivência, trabalho, segurança, abastecimento de água, higiene, lazer, esporte, educação escolar e formação profissional.

A partir de decisões tomadas nas reuniões entre assistentes sociais e moradores, foram criados alguns cursos profissionalizantes como de pintor, carpinteiro, pedreiro, bombeiro, eletricista e sapateiro. Para as crianças e jovens foram criadas oficinas de aprendizagem de artesanato de molduras para quadros, artesanatos de abajures e enfeites de arame e oficina de consertos de sapatos e carpintaria.

Como desde o início do projeto ficou evidenciado que nada menos que 90% dos adultos eram analfabetos, um curso de alfabetização iniciou-se no terraço do bloco que ficou pronto em janeiro de 1957, com aulas diárias das 20 às 22 horas. Quando ficou concluído o terceiro bloco, em meados de 1957, o curso de alfabetização, mudou-se para lá, contando com a freqüência média de 60 alunos. Em 1960 o curso deixou de ser de simples alfabetização e passou a ser supletivo, com quatro turmas de trinta alunos cada, e foi reconhecido pela Secretaria de Educação, que lhe designou, então, um grupo de professores da rede estadual.

Também passou a ser ministrado um curso para a “Formação de Líderes Operários”, inicialmente para um grupo de 40 alunos, que recebiam aulas de Direito Civil, Direito do Trabalho, Relações Humanas, Estudos Sociais (questões sociais), Religião, Geografia, História, Português e Matemática. Os professores eram dois advogados, um licenciado em filosofia e outro em Ciências Sociais, segundo o relatório do departamento de serviço social, “todos de ótima formação, ligados ao Movimento Familiar Cristão, realmente penetrados do espírito apostólico e com um desejo imenso de colaborar eficientemente na elevação do nível operário, de abrir-lhe os horizontes, de desenvolver-se a capacidade de liderança, de dar-lhe uma sólida base de conhecimento, informados pela doutrina social da Igreja, ajudando-o a tornar-se um líder operário cristão junto a seu meio.” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 9)

Na linha de um apostolado para a “salvação das almas”, a Cruzada ainda se encarregava de promover o que chamava de “vivencia cristã” na comunidade, ministrando cursos de catecismo para crianças, convertendo adultos através da “santificação” de uniões matrimoniais e primeira comunhão, cruzada eucarística, apostolado da oração, Liga Operária Católica e Legião de Maria.

Em 1958, graças a um convênio entre a Cruzada e a prefeitura municipal, foi criada a Escola dos Santos Anjos, para crianças em idade escolar. A Cruzada forneceu as instalações e a prefeitura se encarregou de enviar professoras e fornecer materiais escolares. Em 1961 a escola já contava com 1153 alunos matriculados. Patrocinadas pela Cruzada havia ainda atividades de recreação para crianças, um grupo de Bandeirantes, curso de corte e costura para senhoras e moças, artesanato para “mocinhas”, arte culinária e atividades domésticas, para as moças que desejavam trabalhar como empregadas domésticas. No clube de Mães se ensinava noções sobre “educação dos filhos, como conservar a harmonia do lar, compreender o marido, fidelidade conjugal, vida crista, problemas de adolescentes e outros” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 24).

Em uma análise crítica dos objetivos e da ideologia que orientavam a atuação de Dom Hélder e seus colaboradores no projeto da Cruzada São Sebastião, é fácil constatarmos o conteúdo tradicionalista dos valores sociais e religiosos transmitidos à população atendida, como nos exemplificam, a tentativa de evitar a “infiltração espírita e protestante” através da Legião de Maria, a preocupação de incluir o anticomunismo no código de honra dos homens e o machismo de certas formulações do código de honra das mulheres, a das orientações transmitidas no Clube das Mães, cujo pressuposto era proposição de um comportamento feminino submisso em relação aos homens, tolerante com os excessos masculinos, voltado para os serviços domésticos e a educação dos filhos e em dia com suas obrigações religiosas, pois “mulher sem religião é pior do que homem ateu” etc…, ou seja, valores tipicamente das camadas médias da época, que aos poucos se tornariam anacrônicos em relação à crescente participação da mulher no mercado de trabalho e o consequente papel mais ativo e menos submisso à autoridade masculina.

A estrutura de funcionamento da “Cruzada” e seus mecanismos de tomada de decisão não poderiam ser mais centralizados. A Cruzada deveria ser dirigida por um Conselho Geral formado pelos “cruzados” conselheiros membros do conselho deliberativo, do conselho fiscal e da diretoria executiva. Ocorre que os tais conselhos deveriam ser nomeados “por ato de sua Excelência o Arcebispo do Rio de Janeiro”, que era também o “presidente nato” do conselho deliberativo (na pratica Dom Jaime era representado pelo seu auxiliar Dom Hélder Câmara). Por sua vez, o conselho deliberativo, escolheria os membros do conselho fiscal (o órgão fiscalizador). A diretoria executiva era formada pelo presidente do conselho deliberativo, ou seja, Dom Hélder, que era quem escolhia o secretário geral e o tesoureiro da Cruzada.

Entretanto, apesar de todas essas características mais conservadoras, Dom Hélder vinculava politicamente o projeto da Cruzada às forças políticas e sociais que buscavam a modernização como caminho para a superação dos arcaísmos do país. Na opinião de Dom Hélder, na época,

[…] é evidente que favela é conseqüência. Para tentar resolver em profundidade o caso terrível das favelas cariocas era e continua ser indispensável ir às causas da Favela: as situações infra-humana em que se acha, regra geral, o meio rural brasileiro, a ponto de forçar os mais hábeis e mais ousados a tentar, de qualquer maneira, sorte menos dura nas cidades onde, a distância, tudo parece fácil. A Igreja, no Brasil, tem-se preocupado com a melhoria do meio rural. Basta lembrar os encontros dos Bispos do Nordeste (Campina Grande e Natal) que, além de resultados diretos e benfazejos, criaram clima para o surgimento da SUDENE. (CÂMARA, Apud Cruzada São Sebastião, 1961, p.1).

Embora apresentasse características marcadamente assistencialistas, por tentar minorar os males causados pelas desigualdades provocadas pelo processo de modernização capitalista do país, o projeto Cruzada, na concepção de Dom Hélder, deveria avançar para além da esmola, e promover o início de uma mudança social, que levaria à erradicarão de todas as favelas da cidade do Rio de Janeiro: “nosso plano é fazer com que o Rio comemore já sem favelas o seu quarto centenário”, declamaria à reportagem da revista Manchete.

Porém, num balanço de dezembro de 1963, apesar de ter realizado obras de urbanização e atividades sócio-educativas em mais de uma dezena de favelas cariocas, a Cruzada São Sebastião reconhece seu fracasso em relação aos primeiros objetivos a que se propôs: “A Cruzada São Sebastião sente-se feliz de ter contribuído, com a graça de Deus, para a colocação em pauta do problema das favelas. Agora, que o Governo da Guanabara dispõe de verbas adequadas, de plano hábil e de pessoal competente para a urbanização das favelas cariocas, a Cruzada São Sebastião se prepara para a sua segunda fase, especializando-se em humanização e cristianização dos favelados” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 1).

Referências

Cruzada São Sebastião: Estatutos. Relatórios dos Departamentos de Finanças, Jurídico, de Serviço Social e de Engenharia. Rio de Janeiro, maio de 1961, textos mimeografados.

MELLO, Thiago de. “Na favela até os cachorros já gostam de Dom Helder”. In: Revista Manchete. Rio de Janeiro, 14 de abril de 1956, pág. 73.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara- O profeta da paz.  São Paulo, Editora Contexto, 2009.

PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.

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São Francisco de Assis e Dom Helder Camara

Walter Praxedes

figura de São Francisco de Assis há mais de oito séculos vem cativando a admiração e o respeito não apenas entre os católicos, mas também em artistas, cineastas, escritores, acadêmicos e até fiéis de outras confissões religiosas.

Essa reverência a Francisco também parece crescer na medida em que se tornam praticamente inacessíveis as fontes com informações seguras sobre a vida, os pensamentos e as ações do santo que nasceu em Assis (Itália) em 1181 ou 1182 com o nome de Giovanni Bernardone, e faleceu em Porciúncula, em 1226, um ano depois de compor o seu famoso Cântico do irmão sol, sendo canonizado pelo Papa Gregório IX apenas dois anos depois da sua morte.

Mas como enfatizou o historiador Jacques Le Goff, toda a trajetória de Francisco passou por inúmeras revisões por parte dos seus seguidores, membros da Ordem religiosa que fundou e da própria Santa Sé católica, recebendo versões mais rigorosas, no sentido da observância aos votos de pobreza e simplicidade, ou mais espiritualistas, a depender dos pontos de vistas e até interesses dos revisores, a tal ponto que a historiografia franciscana pode ser dividida em duas tendências:

“De um lado, os rigoristas, que exigiam dos Frades Menores, a prática de uma pobreza total, coletiva e individual, a recusa a todo o aparato na liturgia dos ofícios da Ordem, assim nas igrejas e nos conventos, e a guardar distância da Cúria romana, suspeita de pactuar muito facilmente com o século. De outro lado os moderados, convencidos da necessidade de adaptar o ideal da pobreza à evolução de uma Ordem de frades cada vez mais numerosa, de não repelir, por uma recusa a toda a influência exterior, as multidões sempre mais densas que se voltavam para os Frades Menores, e da necessidade de ver na Santa Sé a fonte autêntica da verdade e da autoridade numa Igreja de que a Ordem era uma parte integrante. Onde situar o verdadeiro Francisco?” (Le Goff, 2001, p. 48-49).

Talvez a melhor resposta para a pergunta apresentada pelo historiador – Onde situar o verdadeiro Francisco? –  não seja nem a procura obsessiva por fontes que atestem o modo de vida e o pensamento do Francisco histórico, e nem uma tentativa de desconstrução do mito franciscano, mas a adoção da forma de interpretação figural de São Francisco proposta pelo crítico literário Erich Auerbach, interpretação esta que poderia prevalecer mesmo se contássemos com o acesso às fontes fidedignas sobre a vida do santo de Assis, uma vez que adotamos o modo de representar um acontecimento do passado como prenúncio de acontecimentos posteriores, considerando o fato anterior como anunciador e precursor de um acontecimento que ocorreu depois, ou este como realização e preenchimento de uma figura que o anunciava no passado.

O conceito de figura proposto por Auerbach é uma forma de interpretação tipológica da história e da realidade que dominou a Idade Média europeia e que chegou até o presente através do cristianismo, “que estabelece uma relação entre dois acontecimentos, ambos históricos, na qual um deles se torna significativo não apenas em si mesmo mas também para o outro, que, por sua vez, enfatiza e completa o primeiro. Nos exemplos clássicos, o segundo é sempre a encarnação de Cristo e dos acontecimentos ligados à encarnação que levaram à libertação e ao renascimento do homem…” (Auerbach, 1997, p. 79). Assim, a vida de São Francisco é considerada como uma imitação da vida humilde de Cristo. E foi assim que “nenhum outro estilo de vida, voz ou comportamento” da Idade Média teve tanta repercussão ao longo da história como a representação construída e difundida sobre a vida de São Francisco.  “Sua personalidade sobressai em virtude de seus muitos contrastes. Sua piedade, ao mesmo tempo solitária e popular, seu caráter, ao mesmo tempo doce e austero, e seu comportamento, ao mesmo tempo humilde e áspero, tornaram-se inesquecíveis” (Auerbach, 1997, p. 65).

É precisamente esta figura de Francisco de Assis que inspirou o romancista grego Nikos Kazantzakis a reescrever a sua biografia no livro O pobre de Deus. Adotando como foco narrativo do ponto de vista de Frei Leão, o mais próximo seguidor de Francisco, Kazantzakis narra como o futuro santo buscava a coerência com a vida de Cristo, mesmo em meio aos maiores sofrimentos, provações e angústias.

Também José Saramago não resistiu à figura de Francisco quando escreveu a peça A segunda vida de Francisco de Assis, enfatizando como muitos de seus continuadores e a própria Ordem que fundou adotaram práticas que seriam inaceitáveis aos olhos do santo. Adotando a figura da reencarnação de Francisco, Saramago discute na peça como seria constrangedor para o santo presenciar as ações temporais de sua Ordem.

Essa ideia de Saramago nos inspira a pensar como São Francisco se sentiria infeliz e frustrado vendo como a sua Ordem se tornou uma grande proprietária de escravos na época do Brasil colonial. Mas só podemos ter esse raciocínio comparativo sobre a prática da Ordem Franciscana no Brasil em relação à pregação da humildade, da pobreza, da igualdade e da dignidade humana por São Francisco, porque temos como parâmetro a sua figura exemplar.

No livro que o meu querido professor e amigo Nelson Piletti e eu escrevemos sobre a vida do inesquecível Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara: o profeta da paz, dedicamos um capítulo para tratar da identificação de Dom Helder com a figura de São Francisco. (Piletti; Praxedes, 2008, p. 123-130)

Para Dom Helder viver segundo o Evangelho significava encarnar a origem popular do cristianismo, que tornava a ética da humildade e o estilo de vida simples e despojado, em elementos importantes do ideal de santidade cristã que incorporara desde jovem. Por isso a figura de São Francisco, com o seu casamento com a pobreza, é aceita por Helder como guia para a vida terrena que antecipa a vida celestial. O Francisco de Assis representava, assim, a encarnação da plenitude que conduziria à presença de Cristo.

Inspirado em São Francisco de Assis, Dom Helder concebe para si a missão de profetizar o retorno a uma Igreja Servidora e Pobre, de acordo com os princípios que orientaram o famoso “Pacto das Catacumbas”, no qual participa da celebração com um grupo de padres e bispos no final do Concilio Vaticano II, na Igreja de Santa Domitila, em 16 de novembro de 1965.

A presença de São Francisco no mundo foi um acontecimento histórico interpretado pelos seus seguidores e por Dom Helder como prenuncio de outros acontecimentos históricos concretos. Por isso, em seu apostolado ele buscava colocar em pratica os ensinamentos de Francisco, encarnando a verdade anunciada pelo santo de Assis.

Considerando Francisco como um precursor, encarnando-o em sua vida através de sua palavra e da sua ação, Dom Helder se legitimava dentro e fora da instituição católica para trabalhar em defesa dos pobres. Da perspectiva de muitos dos seus colaboradores, dos fiéis católicos e dos admiradores de todas as religiões espalhados pelo Brasil e pelo mundo Dom Helder preenche a demanda que muitas vezes sentimos por uma força messiânica, que encarne na vida real a figura de um líder religioso e até político com uma espiritualidade profunda e com um senso de realidade histórica para anunciar que um novo mundo é possível, inspirando e mobilizando muitos que estão insatisfeitos com o mundo existente.

Referências

AUERBACH, Erich. Figura. São Paulo, Ática, 1997.

KAZANTZAKIS, Nikos. O pobre de Deus. São Paulo, Círculo do Livro, s/d.

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro, Record, 2001.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara – o profeta da paz. São Paulo, Contexto, 2008.

SARAMAGO, José. “A segunda vida de Francisco de Assis”. In: Que farei com este livro?. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

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Dom Helder Camara e a educação popular

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Antes de que um número considerável de sacerdotes e leigos católicos se engajassem na busca da “transformação do mundo” através dos trabalhos pastorais, como ocorreu a partir do final da década de 1950 no Brasil, foi preciso que no interior da Igreja, se consolidasse a idéia de que “a mensagem de Cristo incluía a criação de uma ordem social justa”, e por isso não deveria haver uma separação entre a fé cristã e a execução de uma “missão social” que apontasse para a superação ou alívio da miséria.

Para promover essa “missão social”, aos leigos caberia um papel apostólico muito mais ativo, incluindo até uma maior responsabilidade na eclesiologia católica, a fim de que pudessem atuar com desenvoltura onde faltassem sacerdotes em número suficiente.

O estudioso do catolicismo brasileiro Thomás Bruneau ressalta o papel fundamental desempenhado por Dom Hélder Câmara nessa nova forma de engajamento dos católicos no mundo. Ex-arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985), fundador e primeiro secretário-geral da CNBB, entre 1952-1964, Dom Hélder Câmara, nasceu em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, e faleceu em 27 de agosto de 1999, em Recife. Conhecido mundialmente por sua atuação destemida e ao mesmo tempo serena em favor dos excluídos, coube a Dom Hélder desempenhar o papel de orientador dessas mudanças nas concepções e nas ações dos católicos. De acordo com as palavras de Thomás Bruneau:
“Antes da ação da Igreja na promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade. A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição, incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes, cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos jovens e ativos”.

Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder defendia nos anos cinquenta, a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o Estado para a promoção de reformas sociais de base.

Em 1956 e em 1959, por exemplo, Dom Hélder organizou as históricas Conferências dos Bispos do Nordeste – a de Campina Grande, Paraíba, e a de Natal, Rio Grande do Norte. Na preparação desses encontros, além de contar com o importante apoio de Dom José Távora, Dom Expedito Lopes, Dom Manuel Pereira da Costa e Dom Eugênio Sales, Dom Hélder colocou vários técnicos leigos que o assessoravam na CNBB em contato com técnicos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), designados pelo governo para realizar estudos que subsidiassem as discussões dos bispos.

Nos dois encontros, o próprio presidente Juscelino Kubitschek esteve presente para celebrar com Dom Hélder um verdadeiro pacto de colaboração entre o Estado e a Igreja. Comprometeu-se a implementar medidas como a liberação de verbas para obras de infraestrutura, a realização de projetos habitacionais, fomento à agroindústria, construção de hidrelétricas e modernização do porto de Recife, entre outras, visando promover o desenvolvimento econômico e combater a miséria da região.

No final do encontro de Campina Grande, ocorrido entre 21 e 26 de maio de 1956, foi divulgado um comunicado onde já aparece consolidada a idéia de que a Igreja deva se envolver nas questões terrenas:
“A ninguém cause estranheza ver-nos envolvidos com problemas de ordem material. Para o homem, unidade substancial de corpo e alma, a inter-relação entre questões materiais e questões espirituais é constante”.

Mas, para mais espanto dos conservadores de dentro e fora da instituição católica, os bispos ainda declararam a Igreja “sem nenhuma vinculação com as situações injustas” e se colocaram “ao lado dos injustiçados, para cooperar com eles numa tarefa de recuperação e redenção”.

No II Encontro dos Bispos do Nordeste, realizado em Natal, no discurso proferido em 24 de maio de 1959, o Presidente Juscelino manifestaria o seu apoio aos bispos brasileiros e às suas metas de modernização do Nordeste:
“Essa iniciativa do Governo Federal é devida, forçoso é proclamar, à inspiração caridosa da Igreja e ao desejo enérgico de salvar da miséria tantos valores patrícios nossos, manifestado pelos pastores espirituais do Nordeste, desde o primeiro encontro de Campina Grande”.

A condição de representante do episcopado brasileiro na época, levou Dom Hélder a apoiar o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo Governo Federal, e que se constituiu como uma iniciativa inédita dos católicos no campo da educação popular.

Inspirado na experiência das Escolas Radiofônicas de Sutatenza, cidade colombiana, criadas pelo padre José Joaquim Salcedo, o bispo-auxiliar de Natal Dom Eugênio Sales, com o apoio da Ação Católica Brasileira, criou a Emissora de Educação Rural de Natal para promover a educação dos trabalhadores rurais. Essa experiência foi bem sucedida e se estendeu para várias cidades nordestinas.

A partir de Natal, Dom Eugênio Sales passou a dirigir o Secretariado de Ação Social da CNBB e, com a assessoria de Marina Bandeira que trabalhava no Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, articulou a atuação das emissoras de rádio católicas para que promovessem o desenvolvimento do trabalho de educação de base.

Logo depois, segundo Marina Bandeira, “Dom Távora, já então bispo de Aracaju, propôs a criação de um novo organismo, que se ocuparia em toda a extensão de educação popular. Teve o pleno apoio do presidente Jânio Quadros, que viu esse trabalho funcionando no interior de Sergipe e se propôs ajudar. Criou-se então o MEB, Movimento de Educação de Base, entidade patrocinada pela CNBB (inicialmente até o nome era Movimento de Educação de Base da CNBB), com verbas do Ministério da Educação, segundo convênio assinado com Jânio”.

Dom Helder foi com Dom Távora até o Palácio da Alvorada, em Brasília, para conversar com o presidente Jânio Quadros sobre o projeto do MEB. Logo no início da conversa ficou claro “o entusiasmo de Jânio pela idéia”. Depois de receberem a confirmação de que contariam com o apoio do governo federal para o MEB, os dois bispos sairam “vibrando” do encontro.

O objetivo do MEB não era simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes. Na formação dos educandos deveria ocorrer um processo de “conscientização” que começaria com a alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade através da ação comunitária dos trabalhadores: “Viver é Lutar”, sintetizava o título de uma cartilha do MEB, que trazia a proposta de aliar a alfabetização com a conscientização para a participação política, como pode ser lido em algumas de suas estrofes:

Seu José sabe que o povo
precisa se organizar,
que progresso, nesta vida,
sozinho não vai achar.
Reuniu seus companheiros,
p’ra um sindicato fundar.
Um sindicato decente
mostra o caminho da gente,
p’ra justiça procurar.

‘Lutemos unidos todos,
sem temor e sem vaidades;
pois unidos venceremos
as nossas dificuldades.
Unidos tudo podemos,
unidos seremos fortes;
a mão de Deus ajudando,
garanto, seremos fortes’.
Mutirão – segundo caderno de leitura
do Movimento de Educação de Base.

Como escreveu o professor Luís Eduardo Wanderley, que participou ativamente do MEB, foi a partir de iniciativas como essa que se redefiniu “a atuação prática dos cristãos na sociedade brasileira… Os leigos assumiram novas tarefas, trouxeram reflexões teóricas e teológicas para o interior da Igreja no Brasil e introduziram a questão política de uma maneira aguda, que iria se reascender nos anos pós-1970.”

A contribuição de Dom Hélder Câmara para o surgimento e a estruturação do Movimento de Educação de Base aparece bem ressaltada no relatório confidencial elaborado para subsidiar a decisão do Comitê Nobel do Parlamento da Noruega, que avaliou a possibilidade de conceder ao ex-arcebispo de Olinda e Recife o Prêmio Nobel da Paz, para o qual foi indicado entre os anos 1970 e 1974. Segundo o relatório elaborado por Jacob Sverdrup, professor de filologia da Universidade de Oslo, na Noruega:

“Deve-se mencionar o grande programa de educação de adultos, onde Hélder Câmara figura como protagonista. A elaboração do programa demonstra bem a filosofia de Câmara. O ensino era apenas um meio para tornar os alunos membros cientes e ativos da sociedade. Esse despertar social foi guiado num certo sentido – para libertar o povo das forças que o oprimiam. Através do ensino, o povo deveria ser ativado para um processo de desenvolvimento social”.

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Referências

BRUNEAU, Thomás. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974.
PILETTI, Nelson e PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997.
PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.
SVERDRUP, Jacob. “Relatório sobre Dom Hélder Câmara”. Prêmio Nobel da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.
WANDERLEY, Luiz Eduardo. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984.

***

 

Dom Helder Camara, 100 anos

 

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Walter Praxedes

Na noite de quarta-feira, 28 de janeiro de 2009, o Instituto Maximiano Campos, a Livraria Saraiva e a Editora Contexto abriram, em Pernambuco, as festividades do centenário de Dom Helder Camara, com o lançamento do livro, Dom Helder Camara. O Profeta da Paz, de Nelson Piletti e Walter Praxedes. Além de Antônio Campos e Walter Praxedes, compunha a mesa Zezita [Maria José Duperron Cavalcanti], a secretária de Dom Helder, testemunho vivo do ‘Santo Rebelde’ com quem conviveu, servindo, durante 35 anos.

Ao completar o centenário do nascimento de Dom Helder Camara, ocorrido em 7 de fevereiro de 1909, faz-se oportuno e justo recordar alguns momentos marcantes de sua trajetória e o testemunho de sua densa religiosidade e do seu compromisso com os excluídos.

Nascido em Fortaleza, Ceará, no seio de uma influente família de jornalistas, advogados, políticos e professoras, e na qual faltava um padre para confirmar a tradição das famílias ilustres do início do século, o jovem Helder Pessoa Camara foi ordenado sacerdote em 1931, aos “22 anos e meio”. Desde o início, Hélder Câmara combinou o seu apostolado com a ação política e, já em 1932, a convite de Plínio Salgado, ingressa na Ação Integralista Brasileira (AIB) – versão tupiniquim do fascismo italiano –, tornando-se o principal propagandista do movimento em seu estado.

A partir do final da década de 1930, o então padre Hélder passou por um longo e demorado percurso de conversão para as idéias democráticas e humanistas. O radicalismo fascista dos integralistas tornou-se inconveniente até para um regime ditatorial como o de Getúlio Vargas, que colocou a AIB na ilegalidade. A Igreja Católica tinha um pacto informal de colaboração com o Governo de Vargas e isso fez com que o Cardeal Sebastião Leme, do Rio de Janeiro, na época a maior autoridade eclesiástica no país, ordenasse o afastamento do jovem padre Hélder Câmara da Ação Integralista Brasileira. Aqui é importante destacar duas importantes contribuições intelectuais na vida do padre Hélder: a leitura da obra Humanismo Integral, de Jacques Maritain, e a convivência, no Rio de Janeiro, com o intelectual e líder leigo Alceu Amoroso Lima, que também passava por uma transição para o pensamento democrático.

Na década de 1940, o Brasil passava por um intenso processo de industrialização e de urbanização, com grandes ondas migratórias do campo para as cidades e, após o fim da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, estava também democratizando a sua vida política sob forte influência dos movimentos sociais e do Partido Comunista nas áreas urbana e rural. Nesse cenário, a Igreja Católica começava a se deparar com a expansão das denominações protestantes, então, Padre Hélder Câmara propôs e organizou uma vigorosa participação do laicato católico na vida política do país através dos movimentos de Ação Católica, com ênfase nos específicos para a juventude, a exemplo da Juventude Operária Católica (JOC) e da Juventude Universitária Católica (JUC). Com isso, ele conseguiu difundir entre os católicos a idéia de uma missão temporal, de responsabilidade de todos com o cuidado com as condições de vida, com a integridade dos mais pobres, ao invés da preocupação exclusiva com a salvação da alma dos fiéis, que caracterizava o ideário católico até então. De acordo com as palavras de Thomás Bruneau:

Antes da ação da Igreja na promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade. A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição, incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes, cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos jovens e ativos (1974, pág. 147).

Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder defendia a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o Estado para a promoção de reformas sociais de base.

No mesmo período, agregou os bispos brasileiros na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que ele funda e comanda como Secretário Geral até 1964 e que viria a se tornar a instituição de mais influência sobre a atualização da inserção política e social da Igreja Católica no Brasil nos últimos 50 anos.

A condição de representante do episcopado brasileiro, na época, levou Dom Hélder a apoiar o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo Governo Federal, que se constituiu como uma iniciativa inédita dos católicos no campo da educação popular. O objetivo do MEB não era simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes. Na formação dos educandos, deveria ocorrer um processo de “conscientização” que começaria com a alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade através da ação comunitária dos trabalhadores.

Já como arcebispo de Olinda e Recife e bem-relacionado com a cúpula militar, que tomaria o poder no país após o golpe de 1964, assume uma difícil posição de “neutralidade e expectativa” que o leva a se encontrar várias vezes com os presidentes Castelo Branco e Costa e Silva, visando “aparar as arestas” no relacionamento entre a Igreja e o regime ditatorial, até passar a ser também perseguido em razão da defesa que fazia dos presos políticos. Dom Hélder teve a coragem de dizer “não” aos poderosos ao denunciar publicamente que o Regime Militar promovia torturas e o extermínio físico de membros da oposição ao governo. Sua atuação foi, de fato, heróica e destemida, um exemplo extraordinário de um homem indignado com as circunstâncias em que viviam os seus semelhantes em nosso país.

No plano internacional, Dom Hélder contribuiria para a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e, nos bastidores do Concílio Vaticano II (1962-1965), trabalharia em favor de reformas internas na Igreja Católica, mas procurando não entrar em confronto com as orientações do Papa Paulo VI, com quem mantinha uma grande amizade. Requisitado conferencista internacional, a defesa que fazia pelos direitos humanos, pelo fim da exploração dos países pobres pelos ricos e pela paz mundial valera-lhe inúmeros prêmios, distinções e doutorados Honoris Causa, concedidos pelas mais prestigiosas instituições mundiais, credenciando-o como candidato ao Prêmio Nobel da Paz nos anos 1970.

Após ser cogitado pelo embaixador Charles Elbrick, dos Estados Unidos, como um possível presidente do Brasil em uma virtual saída civil à ditadura militar, os ocupantes do poder trataram de evitar o crescimento do seu prestígio dentro e fora do país e conseguiram inviabilizar sua candidatura ao Prêmio Nobel através de uma sigilosa campanha que contou com a colaboração de empresários noruegueses e brasileiros, dentre os quais os donos do jornal O Estado de São Paulo, para influenciar na decisão do Comitê do Parlamento Norueguês, responsável pela atribuição do prêmio. Para silenciá-lo, o governo brasileiro proibiu que notícias a seu respeito fossem veiculadas na imprensa. Vários de seus colaboradores foram perseguidos, presos e torturados, um dos quais chegando a ser barbaramente assassinado, o jovem padre Antonio Henrique Pereira Neto, em um crime ainda não totalmente esclarecido.

Devido a uma trajetória polêmica e conturbada, vivenciada na intersecção entre religiosidade e engajamento político, o L’Osservatório Romano, órgão oficial do Vaticano, comparou Dom Hélder Câmara a São Francisco de Assis, vendo-o como “um homem de Deus, um homem de Cristo, um homem dos pobres…”. Os adversários ora o consideraram como um “defensor dos adeptos de Adolf Hitler no Brasil”, ora como um “Fidel Castro de batina”.

Para o estudioso do catolicismo brasileiro Ralph Della Cava, “não resta dúvida que Dom Hélder faz par com Getúlio Vargas como líder político consumado” e, ao lado dos cardeais Arcoverde e Leme, “… está entre os maiores líderes religiosos no Brasil dos últimos 100 anos” (Della Cava, 1975, pág. 34).

Foi pelo seu exemplo de vida que Dom Hélder se tornou esta figura emblemática inesquecível. O boicote que Dom Hélder sofreu por anos por parte do regime militar brasileiro; o fato dele ter sido preterido várias vezes para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo o silenciamento que o Vaticano impôs sobre ele, restringindo suas viagens internacionais e suas manifestações públicas, considero que são episódios secundários diante da grandeza de sua obra e do seu legado. Ele não deixou de fazer o que acreditava que fosse a sua missão enquanto teve condições para isso e deixou-nos uma grande herança, como a firmeza dos seus princípios, sempre combinada com uma atitude totalmente aberta para o diálogo. Dom Hélder sabia onde pretendia chegar com a sua voz e com o testemunho da sua vida e, nesse sentido, ele pode ser considerado um grande estrategista, pois usava a sua capacidade pessoal extraordinária para defender os posicionamentos políticos mais democráticos e socialmente generosos. Nessa empreitada, não podemos esquecer o seu incansável e esperançoso esforço como religioso para reformar a Igreja de Cristo, livrando-a dos compromissos com os poderosos e aproximando-a cada vez mais das necessidades das camadas populares.

Dom Hélder faleceu em Recife no dia 27 de agosto de 1999. Como exemplo de vida nos deixou a sua capacidade inigualável de dialogar e conviver com pessoas comuns, grupos políticos e até religiosos que o consideravam como adversário. Também transmitiu-nos sua firmeza para denunciar desmandos e para propor mudanças sociais profundas, inclusive na estrutura da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, marcou-nos a sua serenidade na busca do entendimento através de uma atuação política pacífica. Hoje, quando propomos o respeito às diferenças e a tolerância nas relações sociais, não estamos apresentando nenhuma novidade em relação ao discurso e à prática de Dom Hélder nas décadas de 1960 e 1970. Esse missionário soube preservar e transmitir valores que atualmente animam os espíritos mais generosos e comprometidos com a construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

Referências
BRUNEAU, T. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974.

DELLA CAVA, Ralph. “Igreja e Estado no Brasil do século XX: sete monografias recentes sobre o catolicismo brasileiro, 1916/1964”. Estudos CEBRAP, nº 12, São Paulo, 1975, pp. 5-52.

PILETTI, N. e PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997.

PRAXEDES, W. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.

SVERDRUP, J. Relatório sobre Dom Hélder Câmara. Prêmio Nobel da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.

WANDERLEY, L. E. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984.

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O ano de 2009 marca o centenário de nascimento de dom Helder Camara, talvez a figura mais brilhante e polêmica que a Igreja brasileira já produziu. Chamado pela imprensa ora de “bispo vermelho” ora de “santo rebelde”, Helder Camara foi amado pelo povo e odiado pela alta cúpula dos governos militares. Por isso mesmo os julgamentos a seu respeito se polarizam. é fácil transformá-lo em figura mítica com postura rebelde, acima do bem e do mal. Em virtude de sua pregação libertadora em defesa dos mais pobres – que ultrapassou as fronteiras nacionais e continentais – e de sua atuação política e social, foi perseguido e caluniado. é igualmente fácil dizer que ele era o típico padre de passeata, pregador de utopias, manipulador de massas com discurso que misturava Deus e Marx. Difícil é manter a isenção diante de figura tão poderosa. Daí a importância deste livro, escrito por Nelson Piletti e Walter Praxedes. A obra – resultado de intensa pesquisa, numerosas entrevistas e análise objetiva de documentação farta e inédita – não investiga apenas a trajetória de dom Helder. Como toda boa biografia deveria fazer, situa o biografado na História do Brasil, estuda as relações entre militares e a Igreja brasileira e entre esta e o Vaticano. Pela importância do biografado, pelo período que analisa, pela escrita elegante e gostosa de ler, esta obra está destinada a ocupar a atenção dos leitores.

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Questa sorprendente biografia di dom Hélder Câmara racconta al lettore una figura carismatica di uomo e di pastore. Disegna la traiettoria evolutiva di un’esistenza emblematica e travagliata. Si tratta innanzitutto dell’evoluzione del personaggio, uno dei maggiori leader religiosi del Brasile degli ultimi cent’anni. Ma questa crescita interiore e intellettuale segna nondimeno una ‘conversione’ della Chiesa: da alleata del potere a testimone di libertà e giustizia, da pilastro del conservatorismo a profezia dell’amore preferenziale per i poveri.
Prendendo in considerazione gli aspetti eroici così come le vicissitudini umane di una personalità divenuta un punto di riferimento a livello mondiale, quest’opera contribuisce con grande efficacia a chiarire alcuni aspetti della relazione fra Chiesa cattolica e regime autoritario, a delineare i tratti di un progetto di Chiesa aperta al mondo.
Additato dagli avversari prima come «difensore degli adepti di Adolf Hitler in Brasile», e poi denunciato come «vescovo rosso» o come «Fidel Castro in talare», dom Câmara, autentico protagonista della storia del nostro tempo, è stato paragonato persino a Francesco d’Assisi.
Le vicende cruciali della vita e della lotta dell’arcivescovo di Olinda e Recife sono narrate in questa biografia con una pregevole ricchezza di dettagli, ottenuta grazie a numerose interviste e mediante un’analisi il più possibile obiettiva di una copiosissima documentazione, anche inedita.

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Nesta biografia, a figura carismática de dom Hélder Câmara surge diante do leitor, a princípio como um ardoroso militante integralista nos anos 30 e, com o passar do tempo, com contornos cada vez mais libertários, até tornar-se ‘persona non grata’ na ditadura militar nos anos 70. O livro retrata os aspectos heróicos e as vicissitudes humanas de uma personalidade de inquestionável importância de nossa história recente e contemporânea. Esclarece ainda aspectos do relacionamento entre a Igreja católica e o regime militar pós-64, trazendo à tona informações até o momento conhecidas somente nas cúpulas do Estado e da Igreja.

Serenidade em favor dos excluídos (Entrevista ao jornalista Dalwton Moura)

diario do nordeste

Fortaleza/CE. Suplemento Especial: “Os Pacifistas”, 10.09.2006

Entrevista ao jornalista Dalwton Moura*

O Diário do Nordeste publica neste domingo, Dia Municipal da Paz, uma edição especial da série “Os Pacifistas”. Desta vez o enfocado é dom Hélder Câmara, o primeiro cearense a estar entre os escolhidos na coleção.

Arcebispo de Olinda e Recife, dom Hélder foi uma voz altiva e ativa em defesa dos excluídos, principalmente durante a ditadura militar, de 1964 a 1985.

No caderno, que estará encartado gratuitamente no jornal, os leitores poderão conhecer mais detalhadamente sua história, bem como uma entrevista exclusiva com o co-autor do livro “Dom Hélder Câmara – Entre o Poder e a Profecia”, Walter Praxedes.
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O escritor denuncia o complô do governo brasileiro, tendo como presidente Emilio Garrastazu Médici, para evitar que o religioso fosse indicado para o Prêmio Nobel da Paz.

Como surgiu o projeto de um livro sobre a vida de Dom Hélder Câmara?

A idéia do livro surgiu de um projeto de dissertação de mestrado, que foi concluída e aprovada na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, na qual busquei pesquisar a trajetória de Dom Hélder Câmara como um sacerdote envolvido com a área educacional do Ceará e do Brasil, e sua influência sobre a participação dos católicos, sacerdotes e leigos, em projetos voltados para a educação dos mais pobres. O meu orientador foi o historiador Nelson Piletti. Como tivemos acesso a fontes inéditas de pesquisa decidimos juntos ampliar  o projeto para a elaboração de uma biografia de Dom Hélder, que contextualizasse a sua trajetória religiosa e política na história da Igreja católica e da sociedade brasileira, mas que não descuidasse de sua vida pessoal e familiar, para não reduzirmos o ser humano Hélder Câmara à personagem conhecida publicamente. Desde os anos sessenta, o Nelson, que foi seminarista, tinha uma verdadeira adoração pela figura de Dom Hélder. Como nasci em 1965, só conheci a trajetória de Dom Hélder nos anos oitenta. Como fiquei fascinado por sua obra, tentei realizar um trabalho científico de recuperação da memória de sua vida para as gerações futuras. No final também me envolvi emocionalmente com o trabalho de resgate histórico da vida de Dom Hélder, que se tornou o trabalho intelectual mais gratificante que realizei na minha vida.

O livro “Entre o Poder e a Profecia” surpreendeu ao revelar o início de militância de Dom Hélder entre os integralistas, nos anos 30. Como se deu essa aproximação?

Para começar, gostaria de esclarecer a escolha do título do livro, “Dom Hélder Câmara – entre o poder e a profecia”, que só apareceu no final do trabalho, quando já tínhamos uma idéia de conjunto sobre a trajetória religiosa e política de Dom Hélder. Quem ler o livro vai perceber que durante toda a sua vida de sacerdote, Hélder Câmara manifestou uma vocação para o profetismo. Mas o profetismo é fundamentalmente a atitude de um indivíduo independente que quer propagar uma verdade que acredita revelada por Deus, para ajudar na salvação dos fiéis e na melhoria de sua condição de vida. A profecia deve ser realizada de  forma independente, sem apoio de qualquer instituição religiosa ou estatal, como fizeram os profetas do Antigo Testamento. No entanto, quer como seminarista, quer como jovem padre ou como bispo,  Hélder Câmara jamais optou pela profecia de forma incondicional e independente, sempre evitou desobedecer aos seus superiores na hierarquia da Igreja, o poder eclesiástico, e boa parte de sua vida ele manteve uma forte atitude de colaboração com os governos e com os donos do poder econômico. Em resumo, no nosso ponto de vista, Dom Hélder viveu sempre no meio caminho entre o poder e a profecia, jamais optando incondicionalmente por um ou por outro destes pólos. Mas esta é uma interpretação sociológica e política de sua trajetória. Reconheço que a dimensão espiritual e religiosa não está contemplada nesta interpretação. Quando era jovem Hélder Câmara teve uma formação doutrinária muito conservadora, anticomunista, antiliberal, antidemocrática. Nos anos trinta muitos jovens talentosos e honestos acreditavam que o caminho para solucionar os problemas do país passava por um regime de governo totalitário, como o de Mussolini, na Itália. Entre estes estavam os amigos mais próximos do jovem Hélder e ele próprio. Por isso ele optou pela militância política fascista, que no Brasil era representada pela Ação Integralista Brasileira (AIB), comandada por Plínio Salgado, de quem Hélder se tornou amigo.

E de que modo o jovem hélder foi se afastando dos ideais integralistas, em busca da direção mais humanista que acabaria por consagrá-lo?

Foi um longo e demorado percurso de conversão para as idéias democráticas e humanistas. O radicalismo fascista dos integralistas tornou-os inconvenientes até para um regime ditatorial como o de Getúlio Vargas que colocou a AIB na ilegalidade. A Igreja Católica tinha um pacto informal de colaboração com o Governo de Vargas e isso fez com que o Cardeal Sebastião Leme, do Rio de Janeiro,  na época a maior autoridade eclesiástica no país, ordenasse que o jovem Padre hélder Câmara deveria se afastar da Ação Integralista Brasileira. Mas houve também uma influência intelectual muito importante sobre o padre Hélder que foi a leitura da obra Humanismo Integral de Jacques Maritain, e a convivência com Alceu Amoroso Lima, no Rio de Janeiro, que também passava por uma transição intelectual para um pensamento democrático.

De que modo a formação clerical de Dom hélder o influenciou, de que modo a própria Igreja foi influenciada por ele?

A formação católica conservadora e autoritária que Hélder recebeu no Seminário da Prainha, em Fortaleza, o influenciou profundamente até o fim dos anos trinta, quando então ele começa a desenvolver concepções baseadas na tolerância e na convivência democrática. Mas até meados dos anos quarenta o padre Hélder ainda não havia se tornado um sacerdote com propostas inovadoras e divergentes em relação às idéias da cúpula conservadora da Igreja. Foi a partir do seu envolvimento nos movimentos de Ação Católica que ele teve que enfrentar questões políticas e organizacionais práticas, que envolviam credenciar a Igreja católica para manter e ampliar a sua influência em um país que estava se urbanizando rapidamente, com grandes movimentos migratórios do campo para as cidades, que estava se industrializando, e que após o fim da ditadura de Getúlio Vargas em 1945, estava também democratizando a sua vida política, com uma influência crescente dos movimentos sociais no campo e na cidade e do Partido Comunista. No campo religioso a Igreja católica começava a se deparar com a expansão das denominações protestantes. Então o Padre Hélder Câmara propôs e organizou uma vigorosa participação do laicato católico na vida política do país, através dos Movimentos de Ação Católica, particularmente os voltados para a juventude, e agregou os bispos brasileiros na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que ele funda e comanda como Secretário Geral até 1964, e que viria a se tornar a instituição que mais influência teve sobre a atualização da inserção política e social da Igreja católica no Brasil nos últimos 50 anos. Só até este momento da fundação da CNBB, em 1952, já bastaria para que fosse marcante a sua influência sobre o catolicismo e a sociedade brasileira. Mas ele ainda conseguiu difundir entre os católicos a idéia de uma missão temporal, de  responsabilidade de todos com o cuidado com as condições de vida, com a integridade dos mais pobres, ao invés da preocupação exclusiva com a salvação da alma dos fiéis, que caracterizava o ideário católico até então. Mas Dom Hélder na década de 1950 ainda estava só começando… O melhor de sua atuação ainda estava por vir nos seus anos de maturidade.

O papel de Dom Hélder na resistência às agruras do regime militar e na denúncia das arbitrariedades do regime é sempre ressaltado. Por que o nome de Dom Hélder foi especialmente associado a essa luta?

Porque ele era uma autoridade eclesiástica institucional, como arcebispo e exercia uma autoridade carismática como pessoa. Na década de 1960 ele era reconhecido na prática como a principal liderança política da Igreja Católica no Brasil, mesmo sem ser Cardeal, por pessoas de dentro e de fora da Igreja, pelos movimentos sociais de oposição, pelos militares que comandavam o governo e pelas elites econômicas. Desde o Concílio Vaticano II ele conquistou uma projeção na Igreja Católica internacional, entre sacerdotes, teólogos e leigos. Mesmo com toda a responsabilidade e até o cerceamento de sua liberdade para manifestar livremente suas opiniões que este reconhecimento público implicava, ele teve a coragem de dizer “não” aos poderosos, em denunciar publicamente que o Regime Militar promovia torturas e o extermínio físico de membros da oposição ao governo. Sua atuação foi de fato heróica e destemida, um exemplo extraordinário de um homem indignado com as circunstâncias em que viviam os seus semelhantes em nosso pais.

Que conseqüências essa atitude custou a Dom Hélder, dentro e fora da comunidade religiosa?

Em primeiro lugar ele se tornou esta figura emblemática inesquecível pelo seu exemplo de vida. Publicamos a sua biografia em agosto de 1997 e desde então, em nove anos de história deste livro, nunca houve um mês sequer que o livro deixou de ser procurado nas livrarias até ficar com a sua edição esgotada na editora nesse último mês de julho. A cineasta Erika Bauer declarou que após ler a biografia que escrevemos resolveu fazer esse documentário maravilhoso que atualmente está em cartaz sobre Dom Hélder. Freqüentemente recebo mensagens solicitando informações sobre como pesquisar a trajetória de Dom Hélder. Inúmeros outros pesquisadores escreveram estudos, ensaios, artigos científicos e o interesse pela sua obra é crescente entre pesquisadores dentro e fora do país.

O silenciamento que Dom Hélder sofreu por anos, por parte do Regime Militar brasileiro, que promoveu a censura aos meios de comunicação; o fato dele ter sido preterido várias vezes para ganhar o Prêmio Nobel da Paz e até mesmo o silenciamento que o Vaticano impôs, restringindo suas viagens internacionais e suas manifestações públicas,  considero que são secundários diante da grandeza de sua obra e do seu legado. Ele não deixou de fazer o que acreditava que fosse a sua missão enquanto teve condições para isso. Avalio que mesmo que tivesse sido mais difundida a sua influência religiosa e política no Brasil, as forças conservadoras que comandavam o governo no país e a reação conservadora que se deu no Pontificado de João Paulo II não teriam sido menos perniciosas para a vida social, política e religiosa. Então ele fez o que pode e não fez mais porque as circunstâncias em que vivemos também restringem as influências das nossas ações. A despeito de tudo isso ele deixou um legado e por isso estamos conversando sobre sua obra neste momento.

A comunidade internacional reagiu de que modo às denúncias feitas por Dom Hélder, quanto às violações dos direitos humanos pelo regime militar no Brasil?

Não podemos esquecer  que as atitudes autoritárias e de intolerância do comando do IV Exército em Recife fez com que ocorresse uma ruptura entre Dom Hélder e o Regime Militar. Logo após o Golpe Militar, em março d 1964, Dom Hélder manteve um extraordinário relacionamento com os presidentes Castelo Branco e depois com Costa e Silva e vários oficiais bem graduados. A partir de 1966, a defesa que Dom Hélder fazia dos presos políticos, inclusive visitando vários na cadeia e tentando libertá-los, tornou-se inaceitável para os militares de Pernambuco. Não podendo atingir Dom Hélder diretamente, os seus inimigos atingiram um dos seus principais colaboradores, o padre Antonio Henrique, que foi assassinado em 1969. A partir daí, em suas conferências no estrangeiro, Dom Hélder passou a denunciar os abusos contra os direitos humanos praticados pelo regime ditatorial. Dom Hélder descrevia publicamente os casos de tortura que tomava conhecimento, e por isso tornou-se um forte candidato a receber o Prêmio Nobel da Paz, como grande defensor dos direitos humanos e da paz mundial.

A pesquisa documental empreendida para o livro revela que olhar do regime militar sobre Dom Hélder? Nas ações do religioso, o que era considerado particularmente perigoso aos interesses do governo?

Combinado com o fato de que Dom Hélder foi considerado adversário do Regime Militar por ter sido o grande animador do engajamento dos católicos na busca de soluções para os problemas sociais e políticos do país, que envolveu iniciativas como o Movimento de Educação de Base, a atuação importante da Juventude Universitária Católica e depois do movimento Ação Popular, o aspecto central desta questão, ao meu ver, se refere à falta de legitimidade política do Regime Militar, e o receio de que a inserção social de Dom Hélder entre as classes dominantes, seu prestígio internacional e a sua influência sobre os movimentos sociais comandados pelo laicato católico o credenciassem como uma alternativa civil para comandar um governo de transição para a democracia, colocando fim ao comando militar do Estado brasileiro. Daí a necessidade de neutralizar sua influência, silenciando-o e isolando-o politicamente dos movimentos sociais, muitos dos quais colocados na ilegalidade e sofrendo forte perseguição política.

O livro também revela informações inéditas sobre as relações entre Igreja e governo, ao longo da ditadura militar. Poderia fazer um resumo dessas revelações? Comenta-se uma ingerência dos militares para evitar que o religioso fosse laureado com o Nobel da Paz. É fato? Há planos para novas edições do livro ou continuidade da pesquisa?

Como demonstramos no livro apresentando farta documentação que não foi contestada pelos setores envolvidos, a relação da instituição Igreja Católica e dos seus membros com o Regime Militar que comandava o país não pode ser simplesmente classificada como totalmente favorável ou totalmente contrária e oposicionista. A Igreja Católica não é uma instituição homogênea e fechada como podemos pensar a primeira vista. É uma instituição que possui ramificações em todos os setores das sociedades em que está presente. Atua junto às diferentes classes sociais, grupos étnicos e raciais, gêneros etc… e procura, de alguma forma, atender as demandas dos diferentes segmentos.

É também uma instituição preocupada com a sua permanência no tempo. Apoiar o Regime Militar no Brasil foi o meio utilizado pelos setores mais conservadores da hierarquia católica para que a instituição não rompesse sua relação com os poderes estabelecidos. Por outro lado, muitos leigos e sacerdotes foram severamente punidos pelo regime militar porque não adotaram o posicionamento da cúpula da instituição.

Duas décadas depois do fim do Regime Militar, avalio que esta atuação em duas frentes, se assim podemos dizer, mesmo que na época isso não tenha sido fruto de um planejamento consciente das lideranças católicas, foi uma maneira de garantir a influência católica no país, ainda mais porque muitos leigos e sacerdotes católicos militavam em favor dos direitos humanos, denunciavam as torturas praticadas pelo regime e eram favoráveis a uma maior distribuição da riqueza.

Porém, sem os hierarcas conservadores, ou seja, apenas com os membros politicamente oposicionistas, a Igreja ficaria sem interlocutores na relação com o Estado. Recordemos que durante o período anterior, 1945-1964, os governos populistas dialogavam mais com o chamado clero progressista liderado por Dom Hélder Câmara e pela CNBB. O setor da Igreja que se relacionava melhor com os grandes empresários e com os políticos mais conservadores estava melhor posicionados para negociar a influência da Igreja católica no país. Mas a Igreja como um todo também era formada pelos setores participativos que estavam presentes no Movimento de Educação de Base e que depois formariam as Comunidades Eclesiais de Base.

Na pesquisa para a elaboração do livro tivemos acesso a uma documentação até então inédita que comprovou o envolvimento do governo brasileiro em gestões junto ao Comitê que atribui o Prêmio Nobel na Noruega para evitar que Dom Hélder fosse agraciado e amplificasse o prestígio alcançado o seu discurso em favor dos direitos humanos, da democracia e contra o terrorismo de Estado que era praticado no Brasil pelos militares que comandavam o governo.

Quanto à reedição do livro, estamos preparando um capítulo final ou um posfácio para sair em uma nova edição ainda sem data prevista de lançamento. Mas os entendimentos com uma nova editora estão avançados. Desde  o final de julho deste ano o livro não está mais disponível nas livrarias, nem por encomenda, por estar esgotado na editora Ática. Isso é uma pena porque, ao meu ver, o público que freqüenta as livrarias deve ter acesso à biografia de uma personalidade insubstituível e rara como Dom Hélder.

Quais as principais características pessoais de Dom Hélder que se sobressaíram nos momentos de maior tensão entre sua atuação e o governo?

Sem dúvida a firmeza dos seus princípios combinada com uma atitude totalmente aberta para o diálogo. Dom Hélder sabia sempre onde pretendia chegar com a sua voz e com o testemunho da sua vida, neste sentido ele pode ser considerado um grande estrategista político, mas ele usava a sua capacidade pessoal extraordinária para defender os posicionamentos políticos mais democráticos e socialmente generosos. Mas não podemos esquecer o seu incansável e esperançoso esforço como religioso, para reformar a Igreja de Cristo, livrando-a dos compromissos com os poderosos e aproximando-a cada vez mais das necessidades das camadas populares.

Há, hoje em dia, uma revisão na historiografia referente ao período da ditadura militar brasileira? Algum dado novo sobre a ação de religiosos como Dom Hélder?

No momento várias pesquisas estão em andamento. Mas inúmeros arquivos do Regime Militar, da Igreja Católica no Brasil e do Vaticano ainda não são acessíveis aos pesquisadores e ao público. Nos próximos anos, talvez décadas, provavelmente serão divulgadas novas informações que podem levar a novas interpretações de um período tão conturbado da história do Brasil e da Igreja Católica.

Para concluir: como o senhor avalia o trabalho de Dom Hélder pela paz e pela não-violência? O que o exemplo dele pode representar para a sociedade de hoje?

Como exemplo deixado por Dom Hélder, esta a sua capacidade de dialogar e conviver com pessoas e grupos políticos que o consideravam um adversário político. Também a sua firmeza para denunciar os desmandos das corporações de empresas multinacionais, e para propor mudanças profundas na estrutura da Igreja Católica. Ao mesmo tempo ele deixou o exemplo de sua serenidade na busca do entendimento através de uma atuação política pacífica. Hoje quando propomos o respeito às diferenças e a tolerância nas relações sociais não estamos apresentando nenhuma novidade em relação ao discurso e à prática de  Dom Hélder nas décadas de 1960 e 1970.  Ele soube preservar e nos transmitir estes valores que hoje animam os espíritos mais generosos e comprometidos com a busca de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

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