O intelectual sem qualidades

paris 611

Walter Praxedes

Ainda não debatemos suficientemente sobre os limites do conhecimento científico e da capacidade dos cientistas. Até o presente, nenhuma teoria científica foi eficaz o bastante para expressar a densidade da vida, como os sentimentos envolvidos em um olhar, o olhar sobre o outro e sobre si mesmo. Nenhum esquema racional dá conta de esgotar os significados das relações entre as existências individuais e as sociedade e épocas em que transcorrem, os prazeres e sofrimentos provocados pelos nossos pequenos ou grandes vícios, o amor e o desamor, os sentimentos confusos em relação à morte, a alegria e a tristeza de viver, a crueldade e a piedade; enfim tudo que pode nos despertar os sentidos diante do que consideramos belo, que pode nos causar dor ou prazer, ou que nos leva à entrega da fé é estranho ao saber metódico e racional.

No entanto, persiste nas sociedades contemporâneas um verdadeiro culto ao cientista como um ser de exceção, a quem cabe o privilégio incontestado de viver para construir e analisar símbolos e significados para tudo explicar racionalmente. Um culto que é o produto de vários esquecimentos, dentre as quais é o bastante recordarmos a lista incompleta com os limites do conhecimento científico apresentada acima; e a singela constatação de que é a divisão do trabalho, que separa a teoria da prática social, que leva à supervalorização da mente em relação ao corpo, e por conseqüência da atividade de pensar em relação à de fazer.

É esse mesmo esquecimento que legitima a hierarquização dos membros da sociedade entre aqueles que se dedicam às atividades mentais e os demais, que dedicam o seu trabalho no campo ou na cidade, à produção das condições materiais necessárias para a existência de todos.

Muito mais adequada parece ser a idéia de Antonio Gramsci, para quem, “não há atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um “filósofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para suscitar novas maneiras de pensar” (Gramsci, 2006, p. 53). Em resumo, para Gramsci, “todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens tem na sociedade a função intelectual” (Gramsci, 2006, p. 18).

Nas sociedades contemporâneas, a formação dos intelectuais profissionais ocorre nas relações que eles mantêm com os outros membros da sociedade, a exemplo da maneira como se formam todos os humanos, dos quais muitas vezes nos tornamos tão distantes que ignoramos as circunstâncias em que vivem.

Os pesquisadores e professores são formados, assim, através da disputa por cargos, que são posições no mercado de trabalho de prestação de serviços educacionais, ou no mercado nem tão dissimulado da venda de pesquisa considerada científica para o Estado ou para as empresas. Para sermos aceitos nos tornamos obsessivamente obedientes às normas da ABNT, da ortografia e gramática oficiais e das leis do Estado, nos submetendo à dominação simbólica baseada na autoridade da ciência.

Na produção científica universitária a cooptação dos intelectuais se traduz na obediência, convicta ou a contragosto, das normas vigentes nos órgãos oficiais de financiamento à pesquisa, comitês editoriais das revistas científicas e associações acadêmicas profissionais, que nas palavras de Edward Said, transforma os professores “em técnicos de sala, altaneiros e impossíveis de compreender, contratados por comissões, ansiosos para agradar a vários patrocinadores e agências, eriçados com credenciais acadêmicas e com uma autoridade social que não promove debate, mas estabelece reputações e intimida os não-especialistas” (Said, 2005, p. 77).

A disputa por prestígio é a competição por uma forma de reconhecimento que o narcisismo não dispensa como alimento da nossa vaidade. Um narcisismo autoengrandecedor das próprias capacidades de pensamento e elaboração que se alimenta da transformação de tudo e todos em objeto para o livre pensamento de um ser que se considera um sujeito acima dos simples mortais.

O resultado da concorrência no mercado acadêmico combina uma precária satisfação com a própria obra com o ressentimento em relação à obra que não realizamos, mas que acena da janela do currículo Lattes de um concorrente real ou imaginário.

A crença em uma liberdade de espírito fictícia se torna o fermento da vaidade da qual dificilmente escapamos e impede reconhecermos a nossa falta de independência em relação aos poderes estabelecidos do Estado e das empresas, graças a uma autocensura inconsciente e esterilizante que é ao mesmo tempo produto e produtora de um saber fragmentário e disciplinado que tenta se legitimar na especialização produtivista atestada pela quantificação matemática.

Por sinal, a matemática, de uma forma de lógica de pensar foi transformada em uma religião moderna, que “entrou em todos os campos de nossa vida como um demônio”, escreveu Robert Musil, para quem

“Foi a matemática que arruinou a alma, …a matemática é a fonte de uma inteligência perversa que faz do homem senhor da terra mas escravo da máquina. A secura interior, a monstruosa mistura de sensibilidade para os detalhe e indiferença para o todo, o enorme desamparo do ser humano num deserto de minúcias, sua inquietação, maldade, a incrível frieza do coração, cobiça, crueldade e violência que caracterizam nossa era, seriam, segundo estes relatos, resultado dos prejuízos que um aguçado pensamento lógico traz à alma […] a matemática, mãe da ciência natural exata, avó da técnica, também é mãe ancestral daquele espírito do qual finalmente brotaram gases venenosos e os pilotos de guerra”. (Musil, 2006, p. 58-59)

O mesmo Robert Musil redigiu um sensível e duro julgamento das conseqüências do avanço dos conhecimentos científicos nas sociedades modernas:

“Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; Também não devemos passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro: quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho” (Musil, 2006, p. 58)

Infelizmente as vozes discordantes do modelo de intelectual produtivista a serviço do poder muitas vezes aceitam como destino a inação e o ressentimento.

Mas como alternativa ao silêncio, penso que o docente universitário e pesquisador científico pode realizar o seu trabalho intelectual como um artista amador se dedica a uma obra artesanal, atendendo a alguns apelos em sua atividade de ensino e pesquisa:
a) o apelo do conhecimento, que consiste no seu compromisso com as obras e metodologias construídas no passado, e que aguardam pela mediação do docente pesquisador para a sua persistência no futuro;
b) o apelo da imaginação, essencial para a formulação de novos problemas teóricos e empíricos que orientarão suas pesquisas;
c) o apelo da dúvida, que coloca o existente sob suspeição, abrindo o caminho para o aparecimento do pensamento crítico e para a aceitação dos limites da própria obra científica;
d) o apelo da ética, responsável pela conciliação entre sonho e realidade, através da defesa da igualdade e da democracia, em suma, da responsabilidade para com o outro;
e) o apelo do belo, que nos suspende do imediato para a fruição daquelas manifestações estéticas que contribuem para o desenvolvimento dos sentidos humanos;
f) o apelo do lúdico, que nos ensina a brincar e cada um a rir de si mesmo, nos protegendo contra os pensamentos pretensiosos;
g) o apelo da prática, que nos incita à comunicação e à articulação política para transformarmos intenções em realizações.

Uma possibilidade para eliminarmos o que tem de fictício na liberdade dos trabalhadores intelectuais, não é o retorno a um modelo messiânico de intelectual. Pode gerar melhores resultados a construção de um conhecimento livre das pressões dos poderes estabelecidos, uma busca que ao invés de esgotar-nos psiquicamente na competição dissimulada pelo “sucesso”, por dinheiro ou cargos, deverá ser sempre coletiva e legitimada pela solidariedade entre os trabalhadores intelectuais e as pessoas destituídas de poder, mas que criam as condições materiais de existência para todos com o seu trabalho cotidiano.

Referências
SAID, Edward W. Representações do intelectual – as conferências Reith de 1983. São Paulo : Companhia das Letras, 2005.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Vol. 2. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2006.
KUNDERA, Milan. A arte do romance. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1988.
MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2006.

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