Sobre o indivíduo e o individualismo

Walter Praxedes

paris 261

Este ensaio apresenta algumas reflexões sobre o indivíduo e o individualismo na modernidade, abordando a emergência de uma “razão técnica ou instrumental” que orienta as condutas individuais com sentidos finalísticos e utilitários e leva à desarticulação das instâncias coletivas da vida social como a família, as associações de todos os tipos e até do Estado em muitas sociedades.

Segundo os estudos de Bauman (2001) a modernidade é a era em que a vida social passa a ter como centro a ideia da existência do indivíduo e do individualismo, demarcados por uma crescente autonomia em relação à vida comunitária e social. Para utilizarmos as próprias palavras do autor, “a apresentação dos membros como indivíduos é a marca registrada da sociedade moderna” (Bauman, 2001: 39).

Com o cartesianismo difunde-se a ideia de que o indivíduo pode racionalmente chegar ao conhecimento da verdade. O indivíduo racional, sujeito de um conhecimento que leva à verdade é também um dos marcos da modernidade, e o assombro desse indivíduo “diante de tudo que é como é” (Arendt, 1999: 286) vai alimentar a dúvida cartesiana contra a certeza da salvação e impulsionará a pesquisa racional e metódica sobre os fatos da realidade.

Seguindo esta linha de raciocínio, pode-se dizer, que a Reforma Protestante provoca o surgimento do indivíduo religioso que buscará por si mesmo a sua ligação com o sagrado e os sinais da salvação. Já no pensamento contratualista que inspirou a Revolução Francesa são os indivíduos que se tornam os portadores de direitos, como indica a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” aprovada pela Assembléia Constituinte Francesa em 26/08/1789, segundo a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direito; a associação política tem por finalidade assegurar a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão; a lei passa a ser considerada como expressão da vontade geral e todos os cidadãos têm o direito de participar, com liberdade de expressão.

Na era moderna, desde estes seus prenúncios mencionados acima, a tradição passa a ser sistematicamente rejeitada pela obsessiva busca da novidade, que deve ser entendida simplesmente como tudo aquilo que até então não fora visto, vivenciado ou criado por ninguém.

A criação se efetiva como uma forma de busca do novo e da substituição do existente por algo feito pelo homem e que não pode ser encontrado na natureza. Conservar, manter, garantir a durabilidade e evitar a obsolescência ou a depreciação de um bem eram formas que a humanidade encontrara para lidar com a escassez. Na era moderna, ao contrário, a destruição se tornou uma das principais alavancas da produção e a depreciação planejada dos bens e criações humanas passou a alimentar uma economia baseada no desperdício que propicia a nova produção, o consumo deixa de ser um meio para a satisfação das necessidades humanas para se tornar um meio de incrementar a produtividade.

Para criar o novo e produzir ininterruptamente o indivíduo desenvolve um verdadeiro culto à atividade produtiva, como indicou Weber ao evidenciar a importância da ética do trabalho na doutrina da vocação de Lutero, invertendo a tradicional ordem hierárquica que colocava a vita contemplativa em primeiro plano em relação à vita activa, como nos recorda Hannah Arendt em “A condição Humana” (Arendt, 1999: 302). Como escreveu esta autora “a produtividade e a criatividade, que iriam se tornar os mais altos ideais e até mesmo ídolos da era moderna, em seus estágios iniciais são qualidades inerentes ao Homo Faber, ao homem como construtor e fabricante” (Arendt, 1999: 309).

O indivíduo moderno buscará os meios materiais reclamados por sua engenhosidade na própria natureza, que passa a ser instrumentalizada como um mero recurso a disposição de si, alçado à posição soberana de “medida de todas as coisas”.

As máquinas-ferramentas que elevaram à máxima potência a capacidade de o animal humano se apropriar da natureza ganham um local de destaque no altar da modernidade.

O julgamento que o indivíduo moderno passou a realizar tanto sobre o mundo natural quanto sobre o mundo humano, passou a estar orientado pelo princípio da utilidade para os fins da produtividade e da criatividade. Assim nasceu, segundo Henri Bergson “o desprezo por qualquer pensamento que não possa ser considerado como ‘primeiro passo’ para a fabricação de objetos artificiais, principalmente de objetos para fabricar outros instrumentos e permitir a infinita variedade de sua fabricação”. (Citado por Arendt, 1999: 313).

Este culto à produtividade e à criatividade só poderá ser mantido se ao menos alguns indivíduos resistirem ao “canto das sereias” da satisfação imediata através do consumo, para com isso conseguir acumular a propriedade dos meios de produção, enquanto a maioria se entregará ao consumo como consolação pela sua impossibilidade de acumular propriedades mas não sem uma competição acirrada para a definição daqueles que serão os proprietários.

Para realizar suas inclinações, esse indivíduo desenvolve uma concepção instrumental de razão, fundamentada no princípio da causalidade, na dimensão contábil e quantitativa, e na utilidade econômica das coisas, incluídos entre estas os demais seres humanos. O problema central da modernidade é que como conseqüência desta racionalidade instrumental, o aumento das forças produtivas, o desenvolvimento da técnica, da capacidade de organização e a qualificação da força de trabalho, podem inviabilizar a emancipação humana.

A propriedade acumulada, como resultado alcançado pelo espírito empreendedor e ascético, sobre o qual escreve Max Weber, é o signo que distingue aqueles que chegam ao sucesso de todos os demais que concorrem no mercado com o mesmo objetivo. Para Weber a origem dessa nova mentalidade capitalista remonta à Reforma Protestante com seu estímulo para a orientação ascética da conduta individual. De acordo com essa reflexão Weberiana as formas de representação religiosa se desdobram em formas de racionalidade características da era moderna, e que podem ser exemplificadas pela conduta racional capitalista de busca irrefreável pela rentabilidade, ou seja, um lucro sempre renovado a ser acumulado sem limitações por um indivíduo.

O capitalismo se desenvolve, possivelmente, segundo Weber, ao combinar “a restrição do consumo com essa liberação da procura da riqueza”, resultando, assim “a acumulação capitalista através da compulsão ascética à poupança” e o seu uso como investimento de capital (Weber, 1985: 121). Esse processo de racionalização da conduta individual decorre da destruição das concepções mítica, religiosas e metafísicas do mundo, gerando, em conseqüência, uma cisão entre os indivíduos e a sociedade, cisão que só aumenta com o progressivo “desencantamento do mundo”.

O indivíduo perde, assim, o sentido da sua própria vida ao romper os seus vínculos comunitários. Abandonado à sua própria racionalidade finalista sua atividade social termina subordinada a um aparato administrado burocraticamente através de normas racionais que tolhem a sua liberdade, reduzindo a vida humana à função desempenhada no interior de uma estrutura organizacional.

Em conseqüência, no mundo moderno, como escreveu Lucien Goldmann,

“A vida econômica assume o aspecto do egoísmo racional do homo oeconomicus, da busca exclusiva do máximo de lucros, sem qualquer preocupação pelos problemas da relação humana com outrem e, sobretudo sem qualquer consideração pelo todo. Nessa perspectiva os outros homens tornar-se-ão, para o vendedor e o comprador, objetos semelhantes aos outros objetos, simples meios que lhes permite a realização de seus interesses e cuja qualidade humana única e importante será a capacidade para concluírem contrato e engendrarem as obrigações constrangedoras” (Goldmann, 1967, p178).

Referências
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1999.

ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001.

______. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo, Unesp, 1991.

GOLDMANN, Lucien. Sociologia do Romance. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1967.

HELLER, Agnes. “Uma crise global da civilização: os desafios do futuro. In: HELLER, Agnes [et al.]. A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios do século XXI. Rio de Janeiro, Contraponto, 1999.

TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Petrópolis, Vozes, 2002.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1985.

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