Lições de John Dewey para a nossa frágil democracia

Walter Praxedes

Nas últimas décadas passamos pela experiência de vivermos em uma sociedade razoavelmente democrática.

Nesse período aprendemos que a democracia é uma forma de vida social e de organização política que possibilita o desenvolvimento social e econômico, mas que pode também conviver com a crise econômica, o desemprego, a piora nas condições de vida das diferentes classes sociais, a violência, a corrupção generalizada e a concentração de renda por parte dos mais ricos.

Em consequência da crise em que vivemos muitos brasileiros passaram a desvalorizar a democracia.

Se considerarmos os resultados das eleições presidenciais de 2018, muitos de nós,  (segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 57,8 milhões de um total de 147,3 milhões de eleitores aptos a votar),  optaram por um candidato com um discurso que pode até ameaçar os direitos sociais e políticos de segmentos importantes da sociedade brasileira, desde que garanta a prosperidade econômica, o combate à corrupção e a suposta melhora nas condições de segurança para os seus eleitores.

Podemos, então, nos perguntarmos se preferimos buscar a superação da crise econômica, social e política em uma sociedade livre, ou se preferimos abrir mão da liberdade e do respeito aos seres humanos em troca da prosperidade econômica e da sensação de segurança.

Foi esse mesmo dilema que levou uma parcela do povo alemão a apoiar a chegada do Partido Nazista ao poder na Alemanha, em 1933, sob a liderança de Hitler. A lição da história é que as promessas do governo totalitário de Hitler, que trouxeram prosperidade econômica nos primeiros anos, em pouco tempo levou a uma concentração do poder sem limites, à catástrofe da Segunda Guerra Mundial e aos campos de concentração e extermínio de pessoas.

Como nos ensina o pensador norte-americano John Dewey (1859-1952), uma sociedade democrática é aquela em que os conflitos entre os seres humanos deverão ser resolvidos através da “aplicação de métodos democráticos, métodos de consulta, persuasão, negociação, comunicação, inteligência cooperativa”. […].

Para ele, “o recurso à força militar é o primeiro seguro sinal de que estamos abandonando a luta pelo modo democrático de vida […]. Se há uma conclusão que a experiência humana inegavelmente confirma é a de que fins democráticos requerem métodos democráticos para sua realização […]. “Nossa primeira defesa está em compreender que a democracia somente pode ser servida pela lenta e cotidiana adoção e contagiosa difusão, em cada fase de nossa vida comum, de métodos que sejam idênticos aos fins a serem alcançados, e que o recurso a procedimentos monísticos, globais, absolutistas é uma traição à liberdade humana, seja lá qual for o disfarce com que se apresente.” (DEWEY, J. Liberalismo, liberdade e cultura. São Paulo, Editora Nacional, Editora da USP, 1970, p. 260-261).

Por tudo isso é que as forças políticas democráticas e todos os brasileiros que valorizam a liberdade e o respeito aos seres humanos estão sendo chamadas a defenderem o país da volta de uma ditadura com perseguições, prisões sem processo, censura à opinião livre, tortura, violência e também corrupção, como ocorreu no Brasil entre 1964-1985.

A busca por prosperidade econômica, direitos sociais, segurança e combate à corrupção é mais eficiente em um estado de direito democrático, com liberdade de opinião, de imprensa e fiscalização das contas públicas por parte dos cidadãos. E uma sociedade civil livre, participativa e vibrante é o motor e a conquista da democracia plena que sonhamos para o Brasil.

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