O ensino de sociologia como prática pedagógica de construção de conhecimento

Walter Praxedes

 

Introdução

O ensino universitário de sociologia se consolidou no Brasil como um aprendizado da investigação científica. A formação acadêmica nos cursos de graduação em ciências sociais, mesmo quando centrada na leitura de uma vasta bibliografia e na exegese dos textos fundamentais dos autores clássicos, pressupõe que em algum momento de sua trajetória o praticante da sociologia estará em condições de colocar a sua bagagem literária a serviço da construção de um objeto de investigação, elaboração de uma problemática e realização dos procedimentos investigativos para abordar a realidade social e construir conhecimento na forma de projetos, relatórios, artigos, livros, dissertações e teses.

A sociologia no ensino médio tem o seu foco pedagógico menos definido. Os maiores esforços dos professores são dedicados à divulgação entre os estudantes dos textos e abordagens mais consagradas. A aprendizagem da construção do conhecimento frequentemente é secundária em relação à transmissão de um conjunto de saberes estabelecidos e literários sobre a realidade social que são cobrados nos exames vestibulares.

Para discutirmos uma proposta pedagógica para o ensino de sociologia no Brasil podemos tomar como parâmetros os dois enfoques delineados acima, os do ensino universitário e do ensino médio, para investigarmos em que medida a ação educativa em sala de aula se aproxima da primeira ou da segunda modalidade de ensino, sem esquecermos que, na prática, os dois tipos de estratégia pedagógicas podem e, ao meu ver, devam ser combinadas.

A importância da reflexividade

O docente de sociologia pode, assim, realizar uma reflexão sobre a sua própria prática. É necessário avaliar se as estratégias pedagógicas que emprega visam a construção de conhecimento e a formação de uma postura investigativa entre os estudantes ou a mera transmissão de saberes já consagrados na disciplina.

Apresento a seguir uma proposta para tratarmos a sociologia no ensino médio como uma oportunidade de aprendizagem e exercício da construção de conhecimentos sobre as relações sociais. Evidentemente, os conhecimentos que fazem parte da história das ciências sociais poderão servir como referenciais para pensarmos a respeito dos problemas da realidade social.

O planejamento pedagógico do ensino de sociologia se orienta por alguns pressupostos que são próprios da disciplina. De acordo com um primeiro pressuposto, o mundo social é construído historicamente pelos humanos em suas relações de convivência, conflito e cooperação. Esse pressuposto implica na desnaturalização do mundo social e das hierarquias e desigualdades existentes entre os humanos, como por exemplo a concentração de riqueza, de poder e de conhecimentos.

Um segundo pressuposto que proponho é a valorização do aprendizado do pensamento crítico que evidencia os problemas da realidade. Sem a abordagem crítica da realidade os estudantes e toda a sociedade se tornarão vítimas de uma configuração social cujos problemas não são conscientemente formulados pelos seus membros. Sem pensamento crítico não é possível imaginar alternativas para a ordem social existente.

Estes dois pressupostos epistemológicos levam a um terceiro pressuposto que pode ser considerado como político, pois se o mundo humano é construído pelos seres humanos através de relações sociais que geram conflitos entre os diferentes membros de uma sociedade, a evidenciação de tais conflitos através de um pensamento crítico, independente e baseado em dados empíricos da realidade, possibilita a configuração de coletivos empenhados na transformação dessas relações sociais que geram as diferentes formas de desigualdade e hierarquia.

Momentos da pesquisa

Através do uso das diferentes técnicas de pesquisa e construção de dados o professor e os estudantes podem realizar:

1. “A assimilação pormenorizada do material empírico e domínio desse material (aparências superficiais) em todo o seu detalhe historicamente relevante”;

2. A divisão analítica desse material segundo seus elementos abstratos constituintes (progressão do concreto ao abstrato).

3. Estabelecer as conexões gerais decisivas entre esses elementos, que explicam a sua essência – ou seja, desvelar as relações entre os elementos que aparentemente são isolados. Evidenciar os conflitos, as contradições entre os elementos que compõem a realidade.

4. Avançar dos elementos mais simples para os mais complexos, da aparência dos fenômenos para a sua essência para se chegar a realidade concreta, à totalidade – reprodução do concreto pensado como uma combinação de múltiplas determinações em totalizações parciais e sucessivas.

5. Verificação empírica prática da análise (2, 3 e 4) no movimento em curso da história concreta. Verificar se o pensamento captou a essência do movimento da realidade e como os seres humanos podem modificá-la através da ação prática”. (Adaptado de Mandel, 1985, p. 9-10)

Esta orientação teórica para o ensino de sociologia necessita de uma implementação prática. Como mencionei em um trabalho sobre a concepção pedagógica de Pierre Bourdieu (Praxedes, 2015), as aulas magistrais que poucos estudantes conseguem assimilar, por exemplo, podem ser substituídas por um trabalho pedagógico que ensine as técnicas de estudo sistemático, como a elaboração de notas e fichas de leitura, lista de exercícios e as técnicas de redação, até mesmo valorizando e ensinando a importância da disciplina e da concentração no trabalho intelectual, sem supor que os estudantes já deveriam contar com uma formação adquirida na educação básica ou no meio familiar, que de fato, a maioria não conta quando chega ao ensino superior.

O ponto de partida, então, pode ser um levantamento exploratório dos problemas que os estudantes identificam no mundo social a partir dos diferentes referenciais teóricos aprendidos na disciplina de sociologia ou da sua experiência individual ou coletiva.

As representações sociais dos estudantes e a busca de uma “temática geradora”

Essa identificação da problematicidade do real vai demandar a busca de evidências empíricas que a atestem. A pesquisa é entronizada no ensino de sociologia como um princípio pedagógico de busca exploratória e construção de dados empíricos.

Para o professor de sociologia adotar o exercício da pesquisa como estratégia pedagógica ele pode iniciar investigando as representações sociais dos próprios estudantes a respeito da escola e das perspectivas que concebem para si e para os jovens na sociedade brasileira atual. Essa foi a temática da dissertação de mestrado do professor Laércio da Costa Carrer (2017) que investigou as “Representações sociais de estudantes de ensino médio da rede pública e particular sobre a escola”. Ao analisar e interpretar as respostas aos questionários aplicados e entrevistas realizadas com os jovens que estavam cursando a terceira série do ensino médio em duas escolas selecionadas, o autor constatou que entre os estudantes da escola pública o desemprego existente na sociedade brasileira atual é concebido como uma ameaça as suas perspectivas de vida tanto individuais como coletivas.

A partir dos resultados de uma pesquisa como a do professor Laércio, para desenvolvermos atividades pedagógicas orientadas para a pesquisa, podemos debater com os estudantes o problema do desemprego. Podemos iniciar discutindo alguns textos de sociologia do trabalho, tanto clássicos quanto contemporâneos, sobre o desemprego nas sociedades modernas, além de matérias jornalísticas com informações sobre essa temática.

A sala de aula como laboratório de pesquisa

Os instrumentos que o professor de sociologia pode recorrer são os mesmos que os sociólogos acadêmicos ou profissionais empregam em suas investigações como técnicas de construção de dados para a pesquisa: seleção das fontes e dos informantes, questionários, uso de arquivos, entrevistas face a face, coleta de depoimentos e imagens, observação direta e etnográfica, realização de grupos focais, tratamento quantitativo e qualitativo das informações, análise e interpretação dos resultados alcançados, elaboração de relatórios. Todos esses procedimentos podem ser realizados com os estudantes do ensino médio.

A escolha dos procedimentos deverá ocorrer após a construção de um objeto de pesquisa exploratória e formulação de um problema central a ser pesquisado. Podemos transformar a sala de aula em um laboratório de pesquisa no qual as diferentes etapas de uma investigação exploratória são realizadas pelos agentes envolvidos em um treinamento para a problematização do existente e construção de conhecimentos para responder aos questionamentos formulados.

Na pesquisa exploratória a ser desenvolvida com os estudantes, podemos até comparar as condições de vida dos jovens desempregados de 16 a 24 anos com a população economicamente ativa adulta e da terceira idade na mesma situação. Como problemas centrais podemos investigar por quê a população investigada se encontra desempregada e quais são as suas condições de vida nessa situação.

Os próprios estudantes podem elaborar algumas hipóteses provisórias para responder as essas questões centrais, que podem abordar tanto a parte da demanda de força-de-trabalho, como uma crise econômica que leva à diminuição dos investimentos e contratações, ou os avanços tecnológicos que poupam o emprego de mão-de-obra, reduzindo as oportunidades de emprego para os trabalhadores, como a parte da oferta de força-de-trabalho, como por exemplo a falta de oportunidades de educação formal e qualificação para os trabalhadores.

Com a pesquisa entre informantes desempregados os estudantes vão entender os condicionamentos sociais sobre as vidas dos moradores do entorno da escola e sobre as suas próprias perspectivas profissionais. Também poderão pensar a respeito de estratégias individuais e coletivas para escapar de tais condicionamentos.

O passo seguinte será a seleção de um procedimento para a construção dos dados e a seleção de informantes para a pesquisa. A realização de uma pesquisa por questionário, por exemplo, pode ser um momento preparatório muito importante para uma pesquisa sociológica.

Levando-se em consideração a temática e o problema central construídos para a pesquisa exploratória, a formulação das questões que deverão constar no questionário e o teste do instrumento elaborado podem ser desenvolvidos como atividades didáticas em sala de aula sob a coordenação de um professor que previamente tenha estudado sobre a elaboração e aplicação dessa técnica.

Outros instrumentos poderão complementar o uso do questionário, como a realização de entrevistas pelos estudantes com os informantes selecionados, que podem ser gravadas e filmadas e depois reproduzidas em sala de aula para subsidiar as discussões e a construção de relatórios escritos. Também as respostas obtidas com a aplicação dos questionários poderão ser relatadas e discutidas em sala e objeto de realização de análises e interpretações escritas e orais por parte dos estudantes e do professor.

Considerações finais

Quanto ao processo de avaliação de uma atividade pedagógica orientada para a pesquisa como a sugerida acima, a realização das diferentes etapas por parte dos estudantes já pode constar como critério de uma avaliação continuada que substitua a mera avaliação quantitativa através de exames e provas.

A proposta acima apresentada leva em consideração que a implementação da reforma do ensino médio promulgada pelo governo de Michel Temer, mesmo representando um retrocesso na institucionalização da sociologia como disciplina obrigatória nos currículos, não irá conseguir excluir a sociologia ou o professor de sociologia das nossas escolas. Mas o espaço pedagógico do professor de sociologia deverá ser garantido através da qualidade de sua prática pedagógica e da participação política ao lado dos demais educadores.

Referências

CARRER, Laércio da Costa. Representações sociais de estudantes do ensino médio da rede pública e particular sobre a escola. Guarulhos, 2017, Dissertação de Mestrado em Educação, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo.

MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. São Paulo, Nova Cultural, 1985. (Coleção Os economistas)

PRAXEDES, Walter. A educação reflexiva na teoria social de Pierre Bourdieu. São Paulo, Loyola, 2015.

Texto publicado originalmente em:Cabeçalho da página

DOSSIÊ: ENSINO DE SOCIOLOGIA (Orgs.: Fagner Carniel & Alexandre Jeronimo Correia Lima)

Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/1197/showToc

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