Dom Hélder Câmara e a educação popular

Walter Praxedes*
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Antes de que um número considerável de sacerdotes e leigos católicos se engajassem na busca da “transformação do mundo” através dos trabalhos pastorais, como ocorreu a partir do final da década de 1950 no Brasil, foi preciso que no interior da Igreja, se consolidasse a idéia de que “a mensagem de Cristo incluía a criação de uma ordem social justa”, e por isso não deveria haver uma separação entre a fé cristã e a execução de uma “missão social” que apontasse para a superação ou alívio da miséria.

Para promover essa “missão social”, aos leigos caberia um papel apostólico muito mais ativo, incluindo até uma maior responsabilidade na eclesiologia católica, a fim de que pudessem atuar com desenvoltura onde faltassem sacerdotes em número suficiente.

O estudioso do catolicismo brasileiro Thomás Bruneau ressalta o papel fundamental desempenhado por Dom Hélder Câmara nessa nova forma de engajamento dos católicos no mundo. Ex-arcebispo de Olinda e Recife (1964-1985), fundador e primeiro secretário-geral da CNBB, entre 1952-1964, Dom Hélder Câmara, nasceu em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, e faleceu em 27 de agosto de 1999, em Recife. Conhecido mundialmente por sua atuação destemida e ao mesmo tempo serena em favor dos excluídos, coube a Dom Hélder desempenhar o papel de orientador dessas mudanças nas concepções e nas ações dos católicos. De acordo com as palavras de Thomás Bruneau:
“Antes da ação da Igreja na promoção da mudança social, houve a elaboração, por um grupo de bispos, de uma ideologia que justificava e urgia tal atividade. A formulação dessa ideologia resultou de um trabalho consciente de Dom Hélder, a força propulsora que anima o setor progressista da Igreja. Ele estava consciente de que qualquer instituição, incluindo a Igreja, deve ter líderes que esbocem as linhas mestras e estabeleçam objetivos. Era ele um desses líderes, cercado de um grupo de uns dez outros bispos, duas ou três vintenas de padres, e mais ou menos o mesmo número de leigos jovens e ativos”.

Como explicitaria melhor nos encontros dos Prelados da Amazônia e do Vale do São Francisco de 1952, muito longe de propor o caminho da revolução social como solução para os problemas do país, Dom Hélder defendia nos anos cinquenta, a colaboração entre a Igreja, os sindicatos rurais e o Estado para a promoção de reformas sociais de base.

Em 1956 e em 1959, por exemplo, Dom Hélder organizou as históricas Conferências dos Bispos do Nordeste – a de Campina Grande, Paraíba, e a de Natal, Rio Grande do Norte. Na preparação desses encontros, além de contar com o importante apoio de Dom José Távora, Dom Expedito Lopes, Dom Manuel Pereira da Costa e Dom Eugênio Sales, Dom Hélder colocou vários técnicos leigos que o assessoravam na CNBB em contato com técnicos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), designados pelo governo para realizar estudos que subsidiassem as discussões dos bispos.

Nos dois encontros, o próprio presidente Juscelino Kubitschek esteve presente para celebrar com Dom Hélder um verdadeiro pacto de colaboração entre o Estado e a Igreja. Comprometeu-se a implementar medidas como a liberação de verbas para obras de infraestrutura, a realização de projetos habitacionais, fomento à agroindústria, construção de hidrelétricas e modernização do porto de Recife, entre outras, visando promover o desenvolvimento econômico e combater a miséria da região.

No final do encontro de Campina Grande, ocorrido entre 21 e 26 de maio de 1956, foi divulgado um comunicado onde já aparece consolidada a idéia de que a Igreja deva se envolver nas questões terrenas:
“A ninguém cause estranheza ver-nos envolvidos com problemas de ordem material. Para o homem, unidade substancial de corpo e alma, a inter-relação entre questões materiais e questões espirituais é constante”.

Mas, para mais espanto dos conservadores de dentro e fora da instituição católica, os bispos ainda declararam a Igreja “sem nenhuma vinculação com as situações injustas” e se colocaram “ao lado dos injustiçados, para cooperar com eles numa tarefa de recuperação e redenção”.

No II Encontro dos Bispos do Nordeste, realizado em Natal, no discurso proferido em 24 de maio de 1959, o Presidente Juscelino manifestaria o seu apoio aos bispos brasileiros e às suas metas de modernização do Nordeste:
“Essa iniciativa do Governo Federal é devida, forçoso é proclamar, à inspiração caridosa da Igreja e ao desejo enérgico de salvar da miséria tantos valores patrícios nossos, manifestado pelos pastores espirituais do Nordeste, desde o primeiro encontro de Campina Grande”.

A condição de representante do episcopado brasileiro na época, levou Dom Hélder a apoiar o Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à CNBB e financiado pelo Governo Federal, e que se constituiu como uma iniciativa inédita dos católicos no campo da educação popular.

Inspirado na experiência das Escolas Radiofônicas de Sutatenza, cidade colombiana, criadas pelo padre José Joaquim Salcedo, o bispo-auxiliar de Natal Dom Eugênio Sales, com o apoio da Ação Católica Brasileira, criou a Emissora de Educação Rural de Natal para promover a educação dos trabalhadores rurais. Essa experiência foi bem sucedida e se estendeu para várias cidades nordestinas.

A partir de Natal, Dom Eugênio Sales passou a dirigir o Secretariado de Ação Social da CNBB e, com a assessoria de Marina Bandeira que trabalhava no Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, articulou a atuação das emissoras de rádio católicas para que promovessem o desenvolvimento do trabalho de educação de base.

Logo depois, segundo Marina Bandeira, “Dom Távora, já então bispo de Aracaju, propôs a criação de um novo organismo, que se ocuparia em toda a extensão de educação popular. Teve o pleno apoio do presidente Jânio Quadros, que viu esse trabalho funcionando no interior de Sergipe e se propôs ajudar. Criou-se então o MEB, Movimento de Educação de Base, entidade patrocinada pela CNBB (inicialmente até o nome era Movimento de Educação de Base da CNBB), com verbas do Ministério da Educação, segundo convênio assinado com Jânio”.

Dom Helder foi com Dom Távora até o Palácio da Alvorada, em Brasília, para conversar com o presidente Jânio Quadros sobre o projeto do MEB. Logo no início da conversa ficou claro “o entusiasmo de Jânio pela idéia”. Depois de receberem a confirmação de que contariam com o apoio do governo federal para o MEB, os dois bispos sairam “vibrando” do encontro.

O objetivo do MEB não era simplesmente alfabetizar o trabalhador rural, mas possibilitar uma educação integral que desenvolvesse a consciência política, social e religiosa dos participantes. Na formação dos educandos deveria ocorrer um processo de “conscientização” que começaria com a alfabetização dos adultos através da valorização do código oral e da cultura popular. Simultaneamente os participantes passariam a interpretar a sua condição de vida como resultado das injustiças existentes na estrutura da sociedade brasileira. O passo seguinte seria a luta pela transformação da sociedade através da ação comunitária dos trabalhadores: “Viver é Lutar”, sintetizava o título de uma cartilha do MEB, que trazia a proposta de aliar a alfabetização com a conscientização para a participação política, como pode ser lido em algumas de suas estrofes:

Seu José sabe que o povo
precisa se organizar,
que progresso, nesta vida,
sozinho não vai achar.
Reuniu seus companheiros,
p’ra um sindicato fundar.
Um sindicato decente
mostra o caminho da gente,
p’ra justiça procurar.

‘Lutemos unidos todos,
sem temor e sem vaidades;
pois unidos venceremos
as nossas dificuldades.
Unidos tudo podemos,
unidos seremos fortes;
a mão de Deus ajudando,
garanto, seremos fortes’.
Mutirão – segundo caderno de leitura
do Movimento de Educação de Base.

Como escreveu o professor Luís Eduardo Wanderley, que participou ativamente do MEB, foi a partir de iniciativas como essa que se redefiniu “a atuação prática dos cristãos na sociedade brasileira… Os leigos assumiram novas tarefas, trouxeram reflexões teóricas e teológicas para o interior da Igreja no Brasil e introduziram a questão política de uma maneira aguda, que iria se reascender nos anos pós-1970.”

A contribuição de Dom Hélder Câmara para o surgimento e a estruturação do Movimento de Educação de Base aparece bem ressaltada no relatório confidencial elaborado para subsidiar a decisão do Comitê Nobel do Parlamento da Noruega, que avaliou a possibilidade de conceder ao ex-arcebispo de Olinda e Recife o Prêmio Nobel da Paz, para o qual foi indicado entre os anos 1970 e 1974. Segundo o relatório elaborado por Jacob Sverdrup, professor de filologia da Universidade de Oslo, na Noruega:

“Deve-se mencionar o grande programa de educação de adultos, onde Hélder Câmara figura como protagonista. A elaboração do programa demonstra bem a filosofia de Câmara. O ensino era apenas um meio para tornar os alunos membros cientes e ativos da sociedade. Esse despertar social foi guiado num certo sentido – para libertar o povo das forças que o oprimiam. Através do ensino, o povo deveria ser ativado para um processo de desenvolvimento social”.

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Referências

BRUNEAU, Thomás. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974.
PILETTI, Nelson e PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997.
PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.
SVERDRUP, Jacob. “Relatório sobre Dom Hélder Câmara”. Prêmio Nobel da Paz, 1970. Oslo, Grondahi e filho impressor, 1970.
WANDERLEY, Luiz Eduardo. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984.
* Walter Praxedes é doutor em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e professor de sociologia da Universidade Estadual de Maringá, Paraná.

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