Por uma nova ciência

Walter Praxedes

paris 596

A ciência é uma forma de saber que é difundida como a mais importante para a vida das sociedades modernas. É considerada como um conjunto de conhecimentos imprescindíveis pertencente a toda a humanidade, sem o qual não teremos acesso às novas tecnologias e, portanto, ao desenvolvimento econômico necessário para o bem estar, à qualidade de vida e uma forma de organização social e política civilizada.

Bem, pelo menos este é o discurso oficial sobre o significado do termo “ciência”. O uso que fazemos da palavra “ciência” esconde que no passado o termo de origem na língua latina – “Scientia“ – era utilizado para designar o conhecimento de um modo geral, não especializado e sem um método único. Muitas formas de conhecimento eram chamadas de ciência. Ao estudarmos os usos da palavra ciência nos últimos séculos na Europa e nos países colonizados pelos europeus podemos constatar uma disputa entre os estudiosos, uma verdadeira luta política, para se decidir quais os significados aceitáveis para a “ciência” e quais as atividades que podem ser consideradas como científicas.

Escrevo sobre esta luta política sobre a definição da noção de ciência por dois motivos: primeiro, porque inúmeros cientistas e filósofos europeus como Lineu, Blumenbach, Voltaire, Hume, Kant, Hegel, Comte, Durkheim, etc.- a lista é muito extensa – utilizaram a definição que criaram de ciência para se referirem aos povos não-europeus, como raças inferiores incapazes intelectualmente, já que estes não teriam criado a mesma forma de conhecimento primeiramente filosófico e depois científico; em segundo lugar, porque a definição de ciência baseada nos paradigmas das ciências naturais que acabou prevalecendo até o presente no ocidente moderno nega que outras formas de conhecimentos sejam dotadas de racionalidade, como os saberes populares, cosmologias, artes, e até mesmo as religiões ocidentais, o direito, a história e a filosofia.

O professor Walter Mignolo (2004, pág. 670) avalia que “o conceito moderno de conhecimento e de ciência foi concebido e usado para descartar conhecimentos e formas de saber” como as cosmologias dos povos africanos e indígenas das américas, as religiões e os saberes islâmico-árabes ou os confucionistas-chineses”, por exemplo. “As consequências práticas das realizações científicas e a ideologia que as acompanha são hoje visíveis por todo o lado desde o extermínio da natureza até à marginalização e extermínio de seres humanos”, completa Mignolo (2004, pág. 677).

Mesmo que algumas vozes do pensamento europeu como os polêmicos Heidegger e Wittgenstein, ou os teóricos da chamada Escola de Frankfurt e, no final do século XX, o pensamento pós-colonial de Frantz Fanon, Amilcar Cabral, Edward Said, Anibal Quijano e Enrique Dussel, se oponham à concepção restritiva de ciência, no ocidente acabou prevalecendo nesta disputa um conjunto de significados que provocaram e ainda provocam muitos problemas para a produção de conhecimento e para a vida em sociedade.

O conceito de “ciência” permanece capturado por estudiosos que infundiram uma concepção que restringe e limita a atividade de pensar e estudar, pois se tornou burocrática, disciplinada e excessivamente especializada em alguns casos. A ciência ainda contribui para a corrupção das formas de convivência entre os humanos, já que possibilita a dominação política, as guerras tecnológicas, e a exploração econômica das classes dominadas através das tecnologias que gera e que são dominadas pelas empresas e Estados capitalistas mais ricos. Devemos recordar, ainda, o uso predatório do meio ambiente transformado em manancial de recursos naturais para as grandes empresas. É necessário, portanto, uma crítica severa à concepção dominante de ciência, para libertarmos o conhecimento das limitações que foram introduzidas pelos filósofos e cientistas modernos desde Descartes e Bacon.

A sociologia da ciência de Pierre Bourdieu

No último curso que lecionou como professor do Collège de France, no ano letivo de 2000-2001, portanto, pouco antes de se aposentar e falecer em janeiro de 2002, Pierre Bourdieu se dedicou a uma sistematização de uma vertente importante de sua obra que é a sociologia da ciência. No prólogo de seu curso Bourdieu argumenta que escolheu como tema a sociologia da ciência por considerar que a autonomia científica, que se realiza com a independência dos cientistas em relação aos poderes estabelecidos, políticos, econômicos e religiosos, estava sendo ameaçada.

Para Bourdieu, os cientistas infelizmente não formam uma comunidade de pensadores voltados para a busca do bem e da verdade, mas formam aquilo que denominou como um “campo científico”, no qual a competição mais mesquinha por prestígio e recursos orienta a relação conflituosa entre os pesquisadores. “Todos conhecem a verdade das práticas científicas, e todos continuam a fingir não saber e a acreditar que isso se passa de outro modo. (BOURDIEU, 2004, pág. 108).

Para realizar o seu trabalho de investigação o cientista não pode ignorar esta realidade que o condiciona e constrange. Mas seria um erro grosseiro tanto pensarmos que os cientistas formam uma comunidade encantada de sacerdotes do saber, quanto imaginá-los como uma matilha de arrivistas cínicos e interesseiros, preocupados apenas com prestígio e poder político. Como afirma Bourdieu, “a ciência é dependente de toda uma tecnologia de investigação. A ciência tem uma história cumulativa, recursos acumulados, metodologias, instrumentos, bibliotecas, laboratórios” (BOURDIEU, 2004, pág. 100), aos quais os cientistas deverão ter acesso para a realização de sua vocação de pesquisadores. Então, como avalia Bourdieu, “o sujeito da ciência não é o cientista singular, mas o campo científico”, a partir das relações de concorrência, comunicação, baseadas na argumentação e na verificação. “Os cientistas nunca são os “gênios singulares” de quem se faz a história hagiográfica…, mas sujeitos coletivos… que trabalham no seio de grupos coletivos com instrumentos que pertencem à história coletiva…” (BOURDIEU, 2004, pág. 99). Não podemos, então, entender os cientistas, como vivem e suas obras, se os considerarmos como seres isolados que fazem descobertas geniais, já que todos nós dependemos das teorias e experiências científicas que nos foram transmitidas pelos cientistas do passado, dependemos de condições de vida, educacionais e culturais, enfim, das universidades, laboratórios, editoras e meios de comunicação que existem na nossa sociedade.

Uma consequência desta argumentação é que o conhecimento científico é gerado pela relação de diálogo e muitas vezes de conflito entre os pesquisadores, ainda mais porque deverão ser os membros da comunidade científica que deverão reconhecer como válida e importante uma descoberta científica. Quando um cientista critica o trabalho de outro ele está colaborando para o seu aprimoramento e para a validação do trabalho.

Um outro aspecto muito importante é o grau de internacionalização que chegou a ciência, uma vez que “o campo científico é internacional. Não se fecha nas fronteiras nacionais”, de modo a que não podemos ignorar a existência de pesquisas nas universidades, laboratórios e empresas de outras partes do mundo, para não sermos condenados a realizar pesquisas que em outros lugares já trouxeram resultados muitas vezes desastrosos.

Esta interpretação sociológica da ciência proposta por Bourdieu evidencia o porque de não ocorrer em nossa sociedade uma distribuição igualitária das oportunidades para a formação de novos cientistas, de realização de pesquisas e de acesso às informações sobre os conhecimentos produzidos pelas pesquisas científicas, uma vez que os próprios cientistas buscam o privilégio advindo do monopólio sobre o saber científico, o que faz com que a maioria dos membros da sociedade brasileira e dos povos espalhados pelo mundo não tenham acesso à produção e ao consumo dessa modalidade conhecimento.

Superar a concepção moderna de ciência

O filósofo Charles Taylor (2000) é um outro autor que podemos recorrer em uma discussão sobre as limitações da concepção moderna de ciência. Ele sintetizou suas críticas em três idéias. A primeira crítica é à idéia de que o cientista deva ser um sujeito dotado de um pensamento autônomo que realiza sua atividade de investigação de forma independente em relação à comunidade ou sociedade em que vive.

Em segundo lugar, Taylor também critica a idéia ilusória de que o cientista deva ser um indivíduo totalmente racional, que estuda os mundos natural e social de forma instrumentalizadora, “como senhores e proprietários da natureza” na expressão célebre de Descartes, ou seja, tomando os seres humanos e a natureza como objetos passivos para a experimentação científica.

Por último, Taylor ainda critica a idéia de que não deva existir nenhum entrave aos propósitos individuais do sujeito do conhecimento, o cientista como indivíduo empreendedor, que realiza egoísticamente o cálculo dos meios que deseja utilizar para alcançar os seus fins.

O problema que nos cabe discutir neste artigo é que os filósofos e cientistas modernos conseguiram difundir no mundo todo a idéia de que ciência é um conhecimento produzido por um sujeito individual racionalista, neutro, sem valores ou sentimentos, dotado de uma mente separada do corpo e desconectada dos mundos natural e social em que vive.

Uma nova ciência

Como afirmou Marcuse, “o método científico que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza passou assim a fornecer tanto os conceitos puros, como os instrumentos para a dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem através da dominação da natureza” (citado por HABERMAS, 1975, pág. 305.) O cientista de um modo geral já foi transformado em um trabalhador controlado administrativamente e de forma autoritária dentro das empresas e universidades, para trabalhar na produção de conhecimentos que não lhe pertencem, nem à sua comunidade, e dos quais ele não controlará o uso, transformado em tecnociência que pode ser usada tanto para a produção de um medicamento como de uma nova forma de matar as pessoas.

Para homenagear os 70 anos de seu amigo Herbert Marcuse, o filósofo Jürgen Habermas apresenta algumas possíveis soluções para os limites e os problemas gerados pelo conhecimento científico na modernidade propondo “uma nova ciência alternativa” que

“em vez de tratar a natureza como objeto passivo de uma possível manipulação técnica, podemos dirigir-nos a ela como a um parceiro numa possível interação. Em vez da natureza explorada podemos ir em busca da natureza fraterna. Ao nível de uma intersubjetividade ainda incompleta, podemos atribuir a subjetividade aos animais, às plantas e até mesmo às pedras e comunicar-nos com a natureza, em vez de nos limitarmos a trabalhá-la, quebrando a comunicação. E a idéia de que uma subjetividade da natureza ainda agrilhoada não possa emergir antes de que a comunicação entre os homens se torne livre, essa idéia – e isso é o mínimo que dela se pode dizer – continua a ter uma força de atração toda especial. Só se os homens pudessem se comunicar sem coação e se cada homem pudesse reconhecer-se no outro, só então a espécie humana poderia eventualmente reconhecer a natureza como um outro sujeito – não a natureza como um seu outro, como pretendia o idealismo, mas a si mesma como sendo o outro desse sujeito. (HABERMAS, 1975, pág. 308).

Para nos contrapormos à concepção dominante de ciência devemos considerar que não é possível ser um agente humano, sem outros seres humanos com os quais construímos nossas identidades individuais e coletivas e nossas formas práticas de vida. O ser humano é um ser social e histórico dotado de cultura, que depende das relações sociais que estabelece com outros seres humanos para construir sua existência corpórea e sua identidade. Também é evidente que somos parte da natureza. Para vivermos individualmente temos que viver em sociedade e no meio natural, e por isso o conhecimento não pode ignorar estes vínculos, como se pudéssemos como cientistas, tratar o mundo natural e os outros seres humanos como objetos que nos sirvam como instrumentos e vítimas de nossas descobertas científicas e invenções tecnológicas. Temos que pensar em uma forma de ciência alternativa que nos ajude a restabelecer nossos vínculos comunitários e com o meio natural como agentes humanos e não como sujeitos isolados do mundo com objetivos egoístas.

Se opor a produção de conhecimento “científico” voltado para servir à lógica da competição de mercado entre as empresas e tornar prevalecente uma nova concepção de ciência: estes são os grandes desafios reservados para os cientistas na atualidade.

Referências
BOURDIEU, Pierre. Para uma sociologia da ciência. Lisboa, Edições 70, 2004.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como “ideologia”. In: BENJAMIN, W. HORKHEIMER, M. ADORNO, T. HABERMAS,, J. Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Editora Abril Cultural, 1975.

MIGNOLO, Walter. “Os esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1999.

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

SANTOS, Boaventura de Sousa. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.

TAYLOR, Charles. “Superar a epistemologia”. In; TAYLOR, C. Argumentos filosóficos. São Paulo, Edições Loyola, 2000.

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