Dom Helder Camara e a Cruzada São Sebastião

Walter Praxedes

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(Foto: Cardeal Giovanni Battista Montini – que se tornaria o Papa Paulo VI – em companhia de Dom Helder Camara em uma visita aos moradores da Favela da praia do Pinto, em junho de 1960. In: Nelson Piletti e Walter Praxedes. Dom Helder Camara: O profeta da paz. São Paulo, Contexto, 2008).

 

Para dar conseqüência pratica às suas propostas de engajamento dos católicos na busca de soluções para os problemas sociais do país, ainda em 1955 Dom Hélder conceberia e iniciaria a implementação de um projeto de moradia popular na cidade do Rio de Janeiro que recebeu o nome de Cruzada São Sebastião, cujo objetivo era “urbanizar, humanizar e cristianizar” as favelas da cidade.

Logo após ter organizado com sucesso o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, ocorrido no Rio de Janeiro em julho de 1955, para o qual conseguiu o engajamento da iniciativa privada, de vários órgãos governamentais e de um número considerável de leigos, tanto na organização do evento em si, como na execução de obras viárias, aterros e serviços de abastecimento de gêneros alimentícios que atendessem as centenas de milhares de peregrinos católicos vindos de todo o país e um grande número do estrangeiro, Dom Hélder foi desafiado por um dos participantes do Congresso, o Cardeal Gerlier, francês, a direcionar sua capacidade de trabalho para resolver o problema das favelas da cidade.

Aceito o desafio, ainda em setembro de 1955 Dom Hélder conseguiu que o jornalista Roberto Marinho, seu compadre, articulasse uma reunião com o presidente da República Café Filho para discutir a questão. O presidente resolveu apoiar a iniciativa e prometeu uma ajuda de 50 milhões de cruzeiros para início dos trabalhos, contando que “ainda em sua gestão fosse urbanizada uma primeira favela”, ou seja, até janeiro de 1956, quando encerraria seu mandato e ocorreria a posse do presidente eleito nas eleições de outubro de 1955 (Jornal O Globo, 27/04/1968).

Entre as cerca de 10 favelas então existentes na cidade, nas quais viviam aproximadamente 700 mil pessoas, foi escolhida a favela Praia do Pinto, conhecida também como República do Mengo, no bairro do Leblon, Zona Sul, para uma fase experimental do projeto. Imediatamente quatro empreiteiras iniciaram as obras “em ritmo acelerado, durante as 24 horas do dia, sem interrupção, para atender ao prazo estipulado pelo presidente da República” (Cruzada São Sebastião, 1961, p.1) Esse primeiro projeto da Cruzada São Sebastião incluía a construção de 10 edifícios residenciais com 910 apartamentos, escola, Igreja, centro social e um pequeno mercado.

Café Filho saiu do governo antes que expirasse seu mandato. Carlos Luz ocupou seu lugar, mas em poucos dias foi substituído por Nereu Ramos, no golpe preventivo liderado pelo general Lott, em novembro de 1955, para garantir a posse de Juscelino Kubitschek. Nesse ambiente político conturbado o Congresso Nacional não se empenhou em aprovar a mensagem pela qual seria concedida a liberação de verba para as obras da Cruzada São Sebastião. Em janeiro de 1956 Kubitschek assumiu a presidência e apesar de a verba oficial ainda não ter sido aprovada pelo Congresso, Dom Hélder conseguiu junto ao presidente a liberação de adiantamentos do Tesouro Nacional e vários empréstimos no Banco do Brasil e outras fontes, que possibilitaram a continuidade das obras durante o ano (Cruzada São Sebastião, 1961, p.2).

Em 1957 o departamento financeiro da Cruzada elaborou um “plano de auto financiamento” das obras, com o objetivo de resolver o problema da falta de recursos, e que consistia na obtenção, junto à União, de terras baixas e alagadiças de terrenos da Marinha, nas quais deveriam ser realizados trabalhos de drenagem, aterro, dragagem, e urbanização para posterior divisão em lotes destinados à venda.

Dom Hélder expôs o plano ao presidente Juscelino Kubitschek e obteve “entusiástico apoio”. Em julho de 1956, através de decreto presidencial, Kubitschek concedeu à Cruzada o direito de preferência ao aforamento de aproximadamente um milhão e duzentos mil metros quadrados de terrenos alagadiços existentes ao longo da Baia da Guanabara. Para maior valorização financeira dos terrenos, a Cruzada São Sebastião resolveu construir na Avenida Brasil o Centro de Abastecimento São Sebastião, com recursos obtidos através da venda prévia de armazéns, silos e pontos comerciais os empresários de horti-fruti-granjeiros.

Para levar a diante os projetos da Cruzada São Sebastião, Dom Hélder contou com uma dedicada equipe de leigos, formada por antigos militantes da Ação Católica Brasileira, que o assessoravam desde os anos quarenta, como sua secretária particular Cecília Monteiro, Marina Araújo, Aglaia Peixoto, Nair Cruz, Yolanda Bittencourt, Maria Luíza Amarante (secretaria executiva da Cruzada São Sebastião), o engenheiro Raul Santana (tesoureiro), várias assistentes sociais lideradas pela irmã Enny Guarnieri, além de banqueiros, empresários, engenheiros, advogados, economistas, professores, etc…

Em janeiro de 1956, sob a orientação direta de Dom Hélder, o grupo de assistentes sociais da Cruzada iniciou um processo de “organização social da comunidade”, para levar a efeito um “programa de trabalho comunal num conjunto residencial de ex-favelados” com os seguintes objetivos:

  1. a) Integrar a população da favela no respectivo bairro, a fim de fazer desaparecer as barreiras que podem existir entre essa parcela da população e outras classes mais favorecidas;
  2. b) Proporcionar oportunidade de desenvolvimento integral da pessoa humana, e de prática de vida cristã aos habitantes do novo conjunto;
  3. c) Dar, progressivamente aos moradores, o máximo de responsabilidade moral e material na manutenção do conjunto, tendo em vista a sua futura auto-suficiência;
  4. d) Capacitar para uma participação ativa na direção do Conjunto, como etapa para sua futura auto-direção. (Cruzada São Sebastião, 1961, p.2).

 

Dom Hélder participava diretamente desse trabalho de formação comunitária, como atesta uma reportagem do poeta e jornalista Thiago de Mello para a revista “Manchete”:

“Para que se tenha uma ideia do quanto já se conseguiu, nesse campo de instrução ética, basta cantar o seguinte fato. Há coisa de um mês, Dom Hélder convocou os homens da favela para uma reunião. Assunto importante. Tratava-se da criação da Ordem dos Cavalheiros de São Sebastião (santo forte ali na República, o predileto dos homens).

Dias depois, eram as mulheres que se reuniam com Dom Hélder, para debater o Código de Honra das Legionárias de São Jorge (santo de maior devoção das mulheres)… Aqui divulgamos esses dois códigos… Vamos ao dos homens:

1) Palavra de homem é uma só. 2) Ajude seu vizinho. 3) Bater em mulher é covardia. 4) Sem exemplo não se educa. 5) Homem que é homem não bebe até perder a cabeça. 6) Jogo só futebol. 7) Difícil não é mandar nos outro: é mandar na gente. 8) Comunismo não resolve. 9) Quero meu direito, mas cumpro minha obrigação. 10) Sem Deus nada.

Agora o código das Legionárias:

1) Questão fechada: casa limpa, arrumada e bonita. 2) Quando um não quer, dois não brigam. 3) Anjo de paz e não demônio de intriga. 4) Não vire a cabeça porque o marido não tem juízo. 5) Se o marido faltar, seja mãe e seja pai. 6) Educar de verdade, sem palavrão, sem grito e sem pancada. 7) Seja liga com os educadores de seu filho. 8) Não seja do contra: com jeito se vai à lua. 9) Nada mais triste do que mulher que degenera. 10) Mulher sem religião é pior que homem ateu.

Também as crianças terão seu código. Dom Hélder já o elaborou. Mas ainda não foi posto em discussão, o que acontecerá dentro de alguns dias, em reunião com os pais. Pequeninos de São Cosme e Damião, este o nome da ordem, cujo código a ser aprovado, é o seguinte:

1)Nem covarde, nem comprar de briga. 2) Desgosto aos pais, jamais. 3) Antes só do que mal acompanhado. 4) O que suja mão é pegar no alheio. 5) Menino de bem não diz palavrão. 6) Homem não bate em mulher. É triste uma mulher que se mete a homem. 7) Não minta nem que o mundo se acabe.8) Delicadeza cabe em qualquer lugar. 9) Quem não aproveita a escola, se arrepende o resto da vida. 10) Quem não reza é bicho” (MELLO, 1956, p. 73).

Promover iniciativas voltadas para a educação popular era um dos pilares do projeto. Na tentativa de atacar os problemas sociais de uma forma global, a Cruzada incentivava a auto-organização comunitária, instruindo os futuros moradores dos edifícios em construção sobre como formar um conselho e uma associação de moradores para tentar solucionar localmente os problemas de convivência, trabalho, segurança, abastecimento de água, higiene, lazer, esporte, educação escolar e formação profissional.

A partir de decisões tomadas nas reuniões entre assistentes sociais e moradores, foram criados alguns cursos profissionalizantes como de pintor, carpinteiro, pedreiro, bombeiro, eletricista e sapateiro. Para as crianças e jovens foram criadas oficinas de aprendizagem de artesanato de molduras para quadros, artesanatos de abajures e enfeites de arame e oficina de consertos de sapatos e carpintaria.

Como desde o início do projeto ficou evidenciado que nada menos que 90% dos adultos eram analfabetos, um curso de alfabetização iniciou-se no terraço do bloco que ficou pronto em janeiro de 1957, com aulas diárias das 20 às 22 horas. Quando ficou concluído o terceiro bloco, em meados de 1957, o curso de alfabetização, mudou-se para lá, contando com a freqüência média de 60 alunos. Em 1960 o curso deixou de ser de simples alfabetização e passou a ser supletivo, com quatro turmas de trinta alunos cada, e foi reconhecido pela Secretaria de Educação, que lhe designou, então, um grupo de professores da rede estadual.

Também passou a ser ministrado um curso para a “Formação de Líderes Operários”, inicialmente para um grupo de 40 alunos, que recebiam aulas de Direito Civil, Direito do Trabalho, Relações Humanas, Estudos Sociais (questões sociais), Religião, Geografia, História, Português e Matemática. Os professores eram dois advogados, um licenciado em filosofia e outro em Ciências Sociais, segundo o relatório do departamento de serviço social, “todos de ótima formação, ligados ao Movimento Familiar Cristão, realmente penetrados do espírito apostólico e com um desejo imenso de colaborar eficientemente na elevação do nível operário, de abrir-lhe os horizontes, de desenvolver-se a capacidade de liderança, de dar-lhe uma sólida base de conhecimento, informados pela doutrina social da Igreja, ajudando-o a tornar-se um líder operário cristão junto a seu meio.” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 9)

Na linha de um apostolado para a “salvação das almas”, a Cruzada ainda se encarregava de promover o que chamava de “vivencia cristã” na comunidade, ministrando cursos de catecismo para crianças, convertendo adultos através da “santificação” de uniões matrimoniais e primeira comunhão, cruzada eucarística, apostolado da oração, Liga Operária Católica e Legião de Maria.

Em 1958, graças a um convênio entre a Cruzada e a prefeitura municipal, foi criada a Escola dos Santos Anjos, para crianças em idade escolar. A Cruzada forneceu as instalações e a prefeitura se encarregou de enviar professoras e fornecer materiais escolares. Em 1961 a escola já contava com 1153 alunos matriculados. Patrocinadas pela Cruzada havia ainda atividades de recreação para crianças, um grupo de Bandeirantes, curso de corte e costura para senhoras e moças, artesanato para “mocinhas”, arte culinária e atividades domésticas, para as moças que desejavam trabalhar como empregadas domésticas. No clube de Mães se ensinava noções sobre “educação dos filhos, como conservar a harmonia do lar, compreender o marido, fidelidade conjugal, vida crista, problemas de adolescentes e outros” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 24).

Em uma análise crítica dos objetivos e da ideologia que orientavam a atuação de Dom Hélder e seus colaboradores no projeto da Cruzada São Sebastião, é fácil constatarmos o conteúdo tradicionalista dos valores sociais e religiosos transmitidos à população atendida, como nos exemplificam, a tentativa de evitar a “infiltração espírita e protestante” através da Legião de Maria, a preocupação de incluir o anticomunismo no código de honra dos homens e o machismo de certas formulações do código de honra das mulheres, a das orientações transmitidas no Clube das Mães, cujo pressuposto era proposição de um comportamento feminino submisso em relação aos homens, tolerante com os excessos masculinos, voltado para os serviços domésticos e a educação dos filhos e em dia com suas obrigações religiosas, pois “mulher sem religião é pior do que homem ateu” etc…, ou seja, valores tipicamente das camadas médias da época, que aos poucos se tornariam anacrônicos em relação à crescente participação da mulher no mercado de trabalho e o consequente papel mais ativo e menos submisso à autoridade masculina.

A estrutura de funcionamento da “Cruzada” e seus mecanismos de tomada de decisão não poderiam ser mais centralizados. A Cruzada deveria ser dirigida por um Conselho Geral formado pelos “cruzados” conselheiros membros do conselho deliberativo, do conselho fiscal e da diretoria executiva. Ocorre que os tais conselhos deveriam ser nomeados “por ato de sua Excelência o Arcebispo do Rio de Janeiro”, que era também o “presidente nato” do conselho deliberativo (na pratica Dom Jaime era representado pelo seu auxiliar Dom Hélder Câmara). Por sua vez, o conselho deliberativo, escolheria os membros do conselho fiscal (o órgão fiscalizador). A diretoria executiva era formada pelo presidente do conselho deliberativo, ou seja, Dom Hélder, que era quem escolhia o secretário geral e o tesoureiro da Cruzada.

Entretanto, apesar de todas essas características mais conservadoras, Dom Hélder vinculava politicamente o projeto da Cruzada às forças políticas e sociais que buscavam a modernização como caminho para a superação dos arcaísmos do país. Na opinião de Dom Hélder, na época,

[…] é evidente que favela é conseqüência. Para tentar resolver em profundidade o caso terrível das favelas cariocas era e continua ser indispensável ir às causas da Favela: as situações infra-humana em que se acha, regra geral, o meio rural brasileiro, a ponto de forçar os mais hábeis e mais ousados a tentar, de qualquer maneira, sorte menos dura nas cidades onde, a distância, tudo parece fácil. A Igreja, no Brasil, tem-se preocupado com a melhoria do meio rural. Basta lembrar os encontros dos Bispos do Nordeste (Campina Grande e Natal) que, além de resultados diretos e benfazejos, criaram clima para o surgimento da SUDENE. (CÂMARA, Apud Cruzada São Sebastião, 1961, p.1).

Embora apresentasse características marcadamente assistencialistas, por tentar minorar os males causados pelas desigualdades provocadas pelo processo de modernização capitalista do país, o projeto Cruzada, na concepção de Dom Hélder, deveria avançar para além da esmola, e promover o início de uma mudança social, que levaria à erradicarão de todas as favelas da cidade do Rio de Janeiro: “nosso plano é fazer com que o Rio comemore já sem favelas o seu quarto centenário”, declamaria à reportagem da revista Manchete.

Porém, num balanço de dezembro de 1963, apesar de ter realizado obras de urbanização e atividades sócio-educativas em mais de uma dezena de favelas cariocas, a Cruzada São Sebastião reconhece seu fracasso em relação aos primeiros objetivos a que se propôs: “A Cruzada São Sebastião sente-se feliz de ter contribuído, com a graça de Deus, para a colocação em pauta do problema das favelas. Agora, que o Governo da Guanabara dispõe de verbas adequadas, de plano hábil e de pessoal competente para a urbanização das favelas cariocas, a Cruzada São Sebastião se prepara para a sua segunda fase, especializando-se em humanização e cristianização dos favelados” (Cruzada São Sebastião, 1961, p. 1).

Referências

Cruzada São Sebastião: Estatutos. Relatórios dos Departamentos de Finanças, Jurídico, de Serviço Social e de Engenharia. Rio de Janeiro, maio de 1961, textos mimeografados.

MELLO, Thiago de. “Na favela até os cachorros já gostam de Dom Helder”. In: Revista Manchete. Rio de Janeiro, 14 de abril de 1956, pág. 73.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara- O profeta da paz.  São Paulo, Editora Contexto, 2009.

PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara e a educação popular no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Educação, São Paulo, 1997. Dissertação de mestrado.

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