Preconceitos contra os negros na obra Memórias, sonhos, reflexões, de Carl Gustav Jung

Walter Praxedes*

Um pensador como Carl Gustav Jung (1875-1961), autor da obra que discutiremos neste artigo, tinha consciência de que um dos problemas do pensamento preconceitual é que o mesmo não é reflexivo e não se considera como preconceituoso.

O próprio Jung reconhece que “todo julgamento de um homem é limitado pelo seu tipo de personalidade e que toda maneira de ver é relativa” (Jung, 2006, p. 247), e que “a ideia preconcebida é um entrave e prejudica a livre e plena manifestação da vida psíquica” (Jung, 2006, p. 347).

Para a realização dos procedimentos de análise e interpretação das representações expostas pelo Dr. Jung em suas memórias, adotamos o método sugerido por Edward Said, em sua obra Orientalismo, o oriente como invenção do ocidente (Said, 1990). A ideia aqui é analisarmos as concepções construídas pelo Dr. Jung, que expressam suas percepções sobre os indivíduos e grupos humanos que arrola em sua argumentação ou que manteve contato em suas experiências de viagens aos Estados Unidos, África e Ásia, sobre os quais emitiu inúmeros juízos.

Veremos que quase sempre as representações do Dr. Jung apreendia, assimilava e interpretava as experiências alheias em uma posição de “exterioridade”. Essa posição de “exterioridade” tornava possível que ele construísse as representações preconceituosas e deformadoras sobre os seres humanos com os quais mantinha contato, e que aparecem expressas na sua obra como veremos a seguir.

Seguindo os “dispositivos metodológicos” empregados por Said (1990, p. 31-33), podemos problematizar a “autoridade” reivindicada pelo autor na obra abordada neste artigo, analisando o que está expresso na “superfície do texto”, ou seja, naquilo que está descrito de forma evidente ao longo de sua narrativa memorialista, e não no que estaria oculto ou implícito nas entrelinhas do seu discurso.

“As representações construídas e descritas não expressam de forma alguma uma verdade objetiva e “natural” que “estaria lá” de alguma forma, são construções mentais que aparecem como evidentes nos textos analisados.
O que se deve procurar são os estilos, figuras de linguagem, os cenários, mecanismos narrativos, as circunstâncias históricas e sociais, e não a correção da representação, nem a sua fidelidade a algum grande original.[…] a própria linguagem é um sistema altamente organizado e codificado, que emprega muitos dispositivos para exprimir, indicar, intercambiar mensagens e informação, representar e assim por diante. Em qualquer exemplo, pelo menos da linguagem escrita, não existe nada do gênero de uma presença recebida, mas sim uma re-presença, ou uma representação.” (Said, 2001, p. 32-33).

Não poderíamos ter a pretensão de reduzir a complexidade do pensamento do psiquiatra Carl Gustav Jung às representações preconceituosas que ele concebia sobre os outros não-europeus. Mas também não podemos descartar tais representações como irrelevantes, uma vez que são manifestações explícitas de categorias classificatórias implícitas e pressupostas no seu modo de pensar e conceber, ou seja, de representar o outro, através de formas de percepção que orientam a construção de seus argumentos. O que nos interessa é entendermos como um autor que se propõe a construir um pensamento consciente que unifique o ser humano e o emancipe, não problematize conscientemente as próprias percepções sobre os outros, mas, ao contrário, crie e difunda em sua obra juízos de valor com a pretensão de discursos válidos sobre os outros.

O texto colocado sob escrutínio é de cunho testemunhal e autobiográfico, no qual Carl Gustav Jung, psiquiatra e um dos fundadores da psicologia e da psicanálise, considerado (antes do rompimento da relação entre ambos) por Sigmund Freud como seu filho espiritual, herdeiro e continuador de sua obra, e que aos 83 anos rememora e avalia toda a sua trajetória pessoal, profissional e científica, ou seja, em um momento de maturidade e serenidade em sua visão retrospectiva sobre o próprio passado e realizações.

012
Memórias, sonhos, reflexões

Na tarefa de ordenamento editorial de suas memórias, Jung é auxiliado por sua colaboradora Aniela Jaffé, que organizou a edição do texto e o submeteu ao autor, que, segundo as palavras da auxiliar “aprovou o presente manuscrito, tendo corrigido algumas passagens e propôs alguns acréscimos” (Jaffé, 2006, p. 23).

Na introdução da obra, redigida em 1961, Aniela Jaffé avalia que “as memórias de Jung estão estreitamente ligadas a suas idéias científicas. E não há, sem dúvida, introdução mais apropriada ao universo espiritual de um pesquisador do que o relato do itinerário que o conduziu a suas idéias, e a narração dos fatos subjetivos que o levaram a suas descobertas. Assim, pois, a “autobiografia” constitui em sentido lato uma introdução à obra de Jung pelo prisma do sentimento” (Jaffé, 2006, p. 28).

As Memórias, sonhos, reflexões, de Carl Gustav Jung, se iniciam com as lembranças de um octogenário sobre a sua infância. São lembranças que deixam evidentes as formas de percepção do real que o acompanharam por toda a vida, como podemos constatar no transcurso da obra. Jung narra as angústias que sentia na sua primeira infância através de acontecimentos esparsos como a morte e o enterro de pessoas desconhecidas para a criança que assim descreve a sua recordação:

“No cemitério vizinho o sacristão cava um buraco revolvendo uma terra parda. Homens negros e solenes, de fraque, chapéus de uma altura incomum e sapatos pretos e lustrosos carregavam um caixão negro. Meu pai está presente, em seu traje de pastor luterano, e fala com voz ressoante. Mulheres choram. Parece que enterram alguém no fundo da cova. Depois certas pessoas que antes estavam entre nós subitamente desaparecem. Ouço dizer que foram enterradas, ou que o Senhor Jesus as chamou para junto de si”. (Jung, 2006, p. 38)

Mais a diante, nas lembranças de sua infância, Jung atribui a esses acontecimentos o que ele chama de “conclusão sinistra”. Segundo suas palavras: “comecei a desconfiar do Senhor Jesus. Ele perdeu seu aspecto de grande pássaro benevolente e confortante e foi associado aos homens soturnos e negros, de fraque e cartola, cujos sapatos eram pretos e lustrosos e que se ocupavam com caixões negros” (Jung, 2006, p. 39). Observemos, assim, a associação entre o mal e a morte e a existência de “homens soturnos e negros”. Essa associação levou-me a selecionar na obra as alusões que a cor “negra” recebia nas lembranças do Dr. Jung. E o que me chamou a atenção no início da obra é que provavelmente nem eram “negros” os homens que aterrorizam o menino, mas padres Jesuítas que na sua memória apareciam como uma “estranha figura com chapéu de abas largas e uma longa veste negra. Parecia um homem usando roupa feminina… era um homem usando uma espécie de sotaina negra que lhe chegava aos pés” (Jung, 2006, p. 40) e fazia com que o ele sentisse um “pavor mortal”. A associação da cor negra a um padre católico de batina negra, representado como uma figura feminina, no imaginário do menino filho de pastor protestante se situava no polo do mal. Jung assume que mais tarde compreendeu de forma diferente esta associação: “enfim, compreendi naturalmente que esta figura negra nada mais era do que um inofensivo padre católico” (Jung, 2006, p. 40).

Na narrativa destas lembranças infantis, Jung confessa ter superado os seus preconceitos contra o padre católico, mas não a associação do mal com a cor negra, como veremos, segundo suas palavras, pois para ele “efetivamente, toda criança tem medo do homem negro”, sob o qual recaía o mito de ser um “devorador de homens”. (Jung, 2006, p. 43), que lhe aparecia em um sonho por volta dos 3 ou 4 anos, e que deixava à mostra o seu falo.

Ao avaliar as lembranças dos acontecimentos de sua vida e dos sonhos infantis, Jung conclui que o “devorador de crianças” não era Jesus ou o padre Jesuíta “mas o falo”. Assim, ele chegou na idade adulta à interpretação de que no sonho do menino, “o devorador de homens é representado de um modo geral pelo falo; portanto, o sombrio “Senhor Jesus, o jesuíta e o falo seriam idênticos” (Jung, 2006, p. 41), e para ele “isto aconteceu para que a mais intensa luz se produzisse na obscuridade. Foi como uma iniciação no reino das trevas” (Jung, 2006, p. 44): “Fui percebendo cada vez mais a beleza do claro mundo diurno. Em que “a luz dourada do sol brinca através da folhagem verde…” “Mas eu me sentia à mercê de um inelutável mundo de sombras cheio de perguntas angustiantes e irrespondíveis” (Jung, 2006, p. 48-49).

Deve ser enfatizado que nas passagens acima não é mais a imaginação aterrorizada de um menino que é relatada, mas a interpretação que um homem maduro dá às suas lembranças, e que revelam as mais óbvias e convencionais formas classificatórias bipolares presentes no seu imaginário, e que orientam as representações que ele construía sobre os indivíduos, grupos humanos e acontecimentos, como pode ser demonstrado no raciocínio generalizante com o qual ele conclui o capítulo de suas memórias dedicado à infância: “Na minha infância as coisas acorreram tal como pude observar mais tarde entre os indígenas da África: eles agem primeiro e não sabem absolutamente o que fazem. Somente muito mais tarde refletem sobre o assunto.” (Jung, 2006, p. 53). É como se os milhões de seres e grupos humanos com a sua infinidade de cosmovisões, línguas e práticas fossem homogêneos na inconsciência sobre os próprios atos e resumidos à categoria “indígenas da África”.
Frantz Fanon critica os preconceitos de Jung

Estabelecendo, assim, a associação entre a negrura, a noite, o mal, a obscuridade, a inconsciência, o medo do devorador de homens e seu falo com os “indígenas da África”, Jung miticamente associa o “outro” à irracionalidade, à sexualidade aterrorizante. Pela legitimidade que a obra de Jung angariou no mundo ocidental, era de se esperar que as formas de percepção que orientam as representações construídas sobre os “outros não-europeus”, se afastassem de um convencionalismo que exclui o “outro” lançando no polo maléfico do pensamento binário. De fato, é fácil constatarmos que um dos pressupostos do pensamento do Dr. Jung é o pensamento através das oposições binárias. Em toda a obra analisada o pensamento do Dr. Jung é quase sempre orientado pela classificação polarística. Frantz Fanon, que também era seu leitor atento, afirma que “normalmente Jung assimila o estrangeiro à obscuridade, à má tendência…” (Fanon, 2008, p. 161), e interpreta que:

“Na Europa o Mal é representado pelo negro. É preciso avançar lentamente, nós o sabemos, mas é difícil. O carrasco é o homem negro, Satã é negro, fala-se de trevas, quando se é sujo, se é negro – tanto faz que isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral. Ficaríamos surpresos se nos déssemos ao trabalho de reunir um grande número de expressões que fazem do negro o pecado. Na Europa, o preto, seja concreta, seja simbolicamente representa o lado ruim da personalidade. Enquanto não compreendermos esta proposição, estaremos condenados a falar em vão do “problema negro”. O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais, enegrecer a reputação de alguém; e do outro lado: o olhar claro da inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, paradisíaca. Uma magnífica criança loura, quanta paz nessa expressão, quanta alegria e, principalmente, quanta esperança! Nada de comparável com uma magnífica criança negra, algo absolutamente insólito. Não vou voltar às histórias dos anjos negros. Na Europa, isto é, em todos os países civilizados e civilizadores, o negro simboliza o pecado. O arquétipo dos valores inferiores é representado pelo negro”. (Fanon, 2008, p. 160)

Esse sistema de classificação bipolar é tão simplista quanto difundido ao longo da obra Memórias, sonhos e reflexões, e utilizado para classificar os atos mais rotineiros que chegam à lembrança do memorialista, como, por exemplo, o desconforto do adolescente nos almoços semanais na casa de um tio, recordado como “as quintas-feiras tornaram-se dias negros” (Jung, 2006, p. 105). Ou a dificuldade do trabalho terapêutico, afirmando que “as “psicoses latentes” são as “bêtes noires’ dos psicoterapeutas, porque frequentemente é muito difícil descobri-las” (Jung, 2006, p.171). (Neste exemplo, a expressão “Bête noires, pode ser traduzido como “sombra negra” e não apenas literalmente como animal ou “besta negra”, metaforizando a associação entre o incompreensível, o inconsciente, como a negrura e o conceito jungiano de “sombra”, que expressa “aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregada de culpabilidade, cujas ramificações extremas remontam ao reino de nossos ancestrais animalescos, englobando também o aspecto histórico inconsciente…” (Jung, 2006, p. 496)).

Mas a passagem que não poderíamos de forma alguma evitar e que aparece comentada no excerto da obra de Frantz Fanon citado acima (“Uma magnífica criança loura, quanta paz nessa expressão, quanta alegria e, principalmente, quanta esperança! Nada de comparável com uma magnífica criança negra, algo absolutamente insólito”), é provavelmente um comentário crítico à maneira como Jung representava simbolicamente em sua mente as pessoas classificadas como brancas e negras. Jung nos relata um sonho que teve aos 37 anos. Estava em viagem de férias à Itália com a família, descansando em um estabelecimento,
de repente um pássaro branco baixou; era uma gaivota pequena, ou uma pomba. Pousou graciosamente na mesa, perto de nós, fiz um sinal às crianças que não se movessem a fim de não assustar o belo pássaro branco. No mesmo instante a pomba transformou-se numa menina de cerca de oito anos, de cabelos de um louro dourado. Ela saiu correndo com meus filhos e, juntos começaram a brincar nas maravilhosas colunatas do castelo. (Jung, 2006, p. 206)

Gostaria de ainda contar com a paciência do leitor para este relato dos sonhos do Dr. Jung, que no final do ano seguinte, precisamente no dia 18 de dezembro de 1913, sonhou que matara o herói mítico alemão Siegfried. Jung encontrava-se
“…numa montanha solitária e rochosa, com um adolescente desconhecido, um selvagem de pele escura. Antes da aurora: o céu, no oriente, já estava claro e as estrela começava a apagar-se. Sobre as montanhas ecoou a trompa de Siegfried e compreendi então que precisávamos matá-lo. Estávamos armados de fuzis e ficamos de emboscada num caminho estreito. Súbito, Siegfried apareceu ao longe, no cume da montanha, ao primeiro raio do sol nascente. Desceu em louca disparada pelo flanco rochoso, num carro feito de ossos. Ao surgir numa volta, atiramos contra ele e o abatemos, caindo mortalmente ferido… O selvagem de pele bronzeada que me acompanhava e que tomara iniciativa da emboscada é uma encarnação da sombra primitiva.” (Jung, 2006, p. 215-216).

Não cabe aqui discutirmos se os sonhos são mesmo “compensações da atitude consciente”, com propõe Jung, nem nos aventurarmos a uma interpretação psicanalítica dos mesmos, mas no exercício do método de estudar as representações aparentes na superfície dos textos analisados, enfatizar como ao contar os seus sonhos, um homem adulto associa o sublime a uma criança loura, e em outro sonho executa a tiros um herói mítico branco, mas sob a influência do menino selvagem negro que o acompanhava, confirmando o raciocínio de Frantz Fanon citado acima.

A África de Jung: entre luzes e trevas

Comentando os conflitos de idéias com o seu mestre e protetor no início da carreira, Sigmund Freud, Jung atribui a ele uma reprimenda na forma de recomendação que teria recebido contra a inclinação de suas pesquisas para os fenômenos paranormais e o abandono da “teoria sexual’ que para Freud deveria servir como um “baluarte’ “contra a onda de lodo negro do… ocultismo” (Jung, 2006, p.185). Segundo as palavras de Jung, Freud “se sentia ameaçado por uma “onda de lodo negro”, ele, aquele que antes de qualquer outro tentara penetrar e tirar a limpo as profundidades negras”.(Jung, 2006, p. 187).

O que é paradoxal no próprio pensamento de Jung, é que ele tinha consciência desta contraposição entre a brancura e a negrura, afirmando que Freud, para defender sua teoria, “criava uma situação mitológica: a luta entre luz e trevas”, uma vez que temia que “a clareza numinosa de sua teoria sexual fosse extinta por uma onda de lodo negro.” (Jung, 2006, p. 189). Mas ele próprio recorria a esta mitologia para explicar a experiência humana: “O incesto e as perversidades não representavam para mim novidades dignas de nota e não mereciam explicações particulares. Pertenciam, como a criminalidade, ao resíduo negro que estragava o gosto da vida, pondo-me diante dos olhos, com demasiada nitidez, a fealdade e a estupidez da existência humana” (Jung, 2006, p. 201). Para teoria de Jung, a sexualidade também era de suma importância, “esse espírito é “a outra face de Deus”, o lado sombrio da imagem de Deus” (Jung, 2006, p. 203). E num reconhecimento à importância do pensamento de Freud, Jung avalia que “tal como um profeta do Antigo Testamento, tentou derrubar os falsos deuses, abrindo a cortina que velava uma quantidade de desonestidades e hipocrisias, trazendo à luz, sem qualquer piedade, a podridão da alma contemporânea”. (Jung, 2006, p. 204)

No itinerário de Memórias, sonhos, reflexões, de Jung, o autor nos leva até o Quênia e Uganda, num capítulo redigido em 1959, no qual é rememorado o seu contato com “esse homem escuro que me esperava há cinco mil anos” na “África selvagem” (Jung, 2006, p. 300). Então tomamos contanto com as representações de Jung de uma África como um continente desabitado vivendo ainda na aurora da criação. Recordando sua passagem pelo Quênia, Jung escreve:
“Havia o silêncio do eterno começo, do mundo como sempre fora na condição do não-ser; pois até há bem pouco tempo, ninguém lá fora para saber que havia “esse mundo”. Afastei-me de meus companheiros até perdê-los de vista. Tinha a impressão de estar completamente só. Era o primeiro homem, que sabia ser esse o mundo e que, através de seu conhecimento, acabara de criá-lo naquele instante”. (Jung, 2006. 301).

Era a sensação descrita acima que levava Jung a associar a Europa à civilização e à claridade com a obscuridade da África, um “violento contrate entre o claro e o escuro” que o inspirava em uma grande divagação escatológica:
“Nessa época, compreendi que, desde a origem, uma nostalgia de luz e um desejo inesgotável e sair das trevas primitivas habitam a alma. Ao cair a grande noite, tudo se impregna de profunda melancolia e de uma indizível nostalgia de luz. Isso se exprime nos olhos dos primitivos e pode ser ser visto também nos olhos dos animais. Há no olhar animal uma tristeza que nunca se sabe se está ligada profundamente à sua alma, ou se é o significado doloroso e pungente que emana do ser primitivo. Esta tristeza é a atmosfera da África, a experiência de sua solidão: as trevas dos primeiros tempos, um mistério maternal. Eis porque o nascimento do Sol, na manhã, é o acontecimento que subjuga os negros. O instante em que a luz se faz é Deus. Esse instante é liberador”. (Jung, 2006, p. 315).

Jung estava preso à sua percepção bipolar que o leva a classificar a experiência humana como uma relação entre as luzes e as trevas, porque para ele
“os deuses brilhantes formam o mundo celeste, que é múltiplo, e infinitamente disperso e crescente. O Deus-Sol é o senhor supremo deste mundo. Os deuses escuros formam o mundo terrestre. São simples, e infinitamente decrescentes e minguantes. O diabo é o mais abjeto senhor desse mundo, o espírito-lunar, satélite terrestre, menor, mais frio e mais morto que a que a Terra” (Jung, 2006, p. 465).

Os humanos que Jung encontra são sempre alvo de uma caracterização racial:
“Os negros mostraram-se excelentes conhecedores de caracteres. Uma de suas vias intuitivas de conhecimento consistia no modo inigualável de imitar a maneira de se exprimir, os gestos, o andar das pessoas, e dessa forma entravam na sua pele. Achei surpreendente o conhecimento deles sobre a natureza emocional das pessoas” (Jung, 2006, p. 305).

Não que Jung deixasse de sentir um envolvimento afetivo com aqueles humanos que ele mantinha contato na sua viagem. Em alguns momentos de suas memórias percebe-se até a atração sexual que ele sentia pelas mulheres; Quando esteve em Uganda, Jung teve a impressão de que é costume que os homens falem com “os homens e as mulheres falem com as mulheres. Qualquer outra atitude significa love-making. Nesse caso, o branco não só compromete sua autoridade, como corre o risco do going-black (tornar-se preto)” (Jung, 2006, p. 308). É evidente neste fragmento a associação entre o envolvimento sexual de um homem branco com uma mulher negra como uma decadência moral que leva à perda da “autoridade”, como expressou Jung.

Mas nas páginas seguintes Jung narra um sonho no qual lhe aparecia a imagem de um homem negro americano do Tennesse, um barbeiro que havia cortado o seu cabelo em sua viagem aos Estados Unidos.

“Um negro americano!, escreve Jung, No sonho, ele segurava, perto de minha cabeça, um ferro bem quente de frisar, a fim de que meus cabelos ficassem kinky: queria que eu ficasse com cabelos crespos de negro. Eu já sentia a queimadura dolorosa no momento em que despertei, angustiado. Considerei esse sonho uma advertência do inconsciente: no fundo, não estaria dizendo que tudo o que era primitivo constituía um perigo para mim? Nessa época estava mais perto do que nunca do going black” (Jung, 2006, p. 319).

O desejo sexual de Jung combinava-se com o pavor de entregar-se aos sentimentos mais “primitivos” e “tornar-se preto”. Mas o Dr. Jung resistiu psiquicamente aos seus desejos: “A única conclusão que pude tirar foi esta: devia conservar intacta, em qualquer circunstância, minha personalidade européia” (Jung, 2006, p. 319).

Considerações finais

A partir da leitura da obra Memórias, sonhos, reflexões, nos deparamos com um autor que pode ser caracterizado como um “sujeito desprendido”, dotado da capacidade de criar e representar o mundo e os outros humanos, em uma posição de superioridade e de “exterioridade” em relação ao seu “objeto” de conhecimento. As relações de contato com o “outro”, nesse caso, são mediadas pelas representações preconcebidas que orientam a conduta a ser adotada diante desse “outro”.

A partir dos exemplos retirados aleatoriamente de uma obra de Jung, podemos nos interrogar porque muitos autores e professores das disciplinas de ciências humanas estudam os seus pensadores favoritos colocando em último plano ou simplesmente deixando de abordar os conteúdos políticos colonialistas dos seus textos. Para usarmos as palavras de Edward Said, “os filósofos podem conduzir suas discussões sobre Locke, Hume e o empirismo sem jamais levar em consideração o fato de que há uma conexão explícita, nesses escritores clássicos, entre suas doutrinas “filosóficas” e a teoria racial, as justificações da escravidão e a defesa da exploração colonial” (Said, 1990, p. 25). Ainda, segundo o mesmo autor, “muitos humanistas de profissão são, em virtude disso, incapazes de estabelecer a conexão entre, de um lado, a longa e sórdida crueldade de práticas como a escravidão, a opressão racial e colonialista, o domínio imperial e, de outro, a poesia, a ficção e a filosofia da sociedade que adota tais práticas” (Said, 1995: p. 14).

Muitas vezes relevamos o fato de filósofos, cientistas, sacerdotes, artistas, viajantes e colonizadores classificarem os grupos humanos que abordavam em seus trabalhos como pertencentes a raças e etnias misteriosas, donas de comportamentos selvagens, idéias atrasadas, costumes e religiões primitivas e bizarras, aparência horripilante e idéias irracionais. Como se o nosso mundo não-europeu fosse habitado por seres aos quais era negado o reconhecimento como humanos. Enfim, o homo sapiens foi dividido pela filosofia e pela ciência européias em “uma hierarquia de raças que desumanizou e reduziu os subordinados tanto ao olhar científico como ao desejo dos superiores” (Said, 2004, p. 52).

Mas gostaria de concordar com Jung quando ele afirma que “as imagens do inconsciente impõem ao homem uma pesada obrigação. Sua incompreensão, assim como a falta de sentido da responsabilidade ética privam a existência de sua totalidade e conferem a muitas vidas individuais um cunho de penosa fragmentação” (Jung, 2006, p. 230). Esta pesada obrigação seria tornarmos explícitos os pressupostos cognitivos e axiológicos que formam as nossas formas de percepção do outro, nossas representações e pensamentos preconceituosos para que possamos criticá-los e superá-los.

A despeito da autoridade e da legitimidade científicas e filosóficas do autor e do texto abordado neste breve estudo, pudemos perceber os conteúdos preconceituosos racistas, imperialistas e etnocêntricas nas representações deformadas e desfiguradas construídas sobre os não-europeus espalhados pelo mundo,

Todas as expressões deformadoras sobre os povos e culturas não-européias citadas acima, de autoria de um dos maiores expoentes das chamadas ciências humanas, permitem concluirmos, acompanhando a reflexão de Boaventura de Sousa Santos, que “a experiência social em todo o mundo é muito mais ampla e variada do que o que a tradição científica e filosófica ocidental conhece e considera importante […], e que a compreensão do mundo excede em muito a compreensão ocidental do mundo” (Sousa Santos, 2004, p. 778-779).

Decorre desta argumentação a necessidade de abrirmos os centros de produção de conhecimento em todo o mundo, mas principalmente os situados nos países que sofrem com a hegemonia política, econômica e cultural dos centros dominantes do capitalismo, para a identificação e a construção de saberes mais apropriados sobre as diferenças entre as culturas e grupos humanos e sobre as suas diferentes necessidades materiais e simbólicas.

Referências
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte, Editora UFMG, 1998.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador, EDUFBA, 2008.
JAFFÉ, Aniela. Introdução. In. JUNG, C.G. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006.
MIGNOLO, Walter. “Os esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.
SAID, Edward W. Freud e os não-europeus. São Paulo, Boitempo, 2004.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
SAID, Edward W. Orientalismo : o oriente como invenção do ocidente. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
SOUSA SANTOS, Boaventura. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo, Cortez, 2004.
TAYLOR, Charles. Argumentos filosóficos. São Paulo, Loyola, 2000.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s